Tomei de empréstimo o título de uma canção do mestre Gonzaguinha para reformular o sentido atual do voltar. O tempo não pára, já cantou Cazuza. Mas, mesmo assim, o começo pode ser sempre retomado de alguma maneira. Não na sua totalidade ou exatidão, é certo, mas guardando um pouco da essência primeira, ainda que seja uma releitura essencial. E aí eu me arvoro a brincar com o sentido da essência adjetivada. Daquilo que é natureza íntima, significação especial, ideia principal, substância aromática, óleo fundamental.
Do que é viscoso resvalam moléculas, umas após outras. Apesar da ausência de textos, ideias e canções no passado recente, a existência continua e recomeça a cada dia, como hoje, em que o diário fez renascer a novidade singular. Uma volta diversa e particular. Parte da rotação planetária e corporal em que a razão se encontra com a emoção para, juntas, intuírem novamente o raciocínio, as grandezas, o juízo, a respiração, a circulação, as secreções e a comoção. Contrárias purezas. Simples acontecimentos, novas memórias.
Volta (Lupicinio Rodrigues) na voz de Gal Costa durante temporada do show "Índia" (1973)
Interessante ver como a memória transparece em pensamentos, vontades e projetos. Na música, uma das iniciativas mais recentes vem sendo encabeçada pelo ex-titã Charles Gavin. Histórias & Memórias Música Pop Brasileira - misto de palestra, entrevista e show - une música e bate-papo, rememorando fatos e canções marcantes na carreira de artistas da música brasileira. Em 2012, a iniciativa foi realizada em Brasília (outubro) e no Rio de Janeiro (novembro). Na capital federal, o projeto contou com a presença de Hyldon e Danilo Caymmi. No Rio,os convidados foram Joyce, Wilson das Neves e Leila Pinheiro.
Para além da delícia de escutar a história e as histórias em prosa e melodia desses artistas, o projeto é revelador da importância que a memória assume na nossa cultura. Há uma necessidade vital na contemporaneidade de se evitar o esquecimento e, por isso, iniciativas como o projeto Histórias... visam ao resgate de parte da memória da MPB.
Dos shows para a internet, as apresentações foram condensadas em vídeos curtinhos e disponibilizados no youtube (www.youtube.com) ainda em dezembro de 2012 para o deleite dos fãs. Aos que estiveram presentes a alguns dos pockets shows promovidos, como eu, esses vídeos representam um pouco do que foram aqueles momentos em que a memória se tornou o fio condutor a costurar a trajetória narrativa dos artistas.
Diz o sociólogo francês Maurice Halbwachs (2006) que as testemunhas orais ou escritas nos ajudam a corroborar ou recordar uma lembrança. Atualmente, a mídia - incluindo aí a internet - seria um desses testemunhos relevantes. A memória midiática seria, então, memória social e situação social de memória, uma vez que produz lembranças para falar a um público não só contemporâneo, como também distante e futuro, segundo defende Gérard Namer (1987), outro sociológico francês.
Por ser um grupo normativo, que acumula memórias e se legitima por esse acúmulo, a mídia se configura num objeto importante de ser estudado. Consolida-se como uma comunidade interpretativa que mantém o público pelas suas histórias, narrativas, retóricas e, principalmente, a maneira como o conhecimento é representado nesses relatos.
Dos vídeos disponíveis do projeto Histórias & Memórias Música Pop Brasileira, selecionei os três da temporada carioca, que contou com a participação da compositora Joyce, da cantora Leila Pinheiro e do baterista Wilson das Neves. Três momentos distintos e bem descontraídos de música e narrativa. Como não consegui inserir diretamente neste post os vídeos aos quais me refiro, decidi informar o link para quem tiver interesse em assisti-los.
Recebi de uma amiga uma mensagem desejando um Feliz Dia do Amigo e fiquei contente pela lembrança. Não só gentileza é saúde, como também (e principalmente!) amizade. Faz bem ao coração e à alma. Por isso, resolvi compartilhar com os amigos queridos a alegria deste dia. Embora hoje seja a data comemorativa oficial, a celebração deve ser permanente, o ano inteiro. Amigo é pedra preciosa pelo bem querer desprendido e humano. Amigo simplesmente é e ponto final. Como diria liricamente o poeta Vinicius de Moraes:
"[...] um ser que a vida não explica
Que só se vai ao ver outro nascer
E o espelho de minha alma multiplica"
Vinicius de Moraes em Soneto do Amigo
Não pretendo discorrer muito hoje. Apenas parar um pouco, lembrar dos amigos e, na medida do possível, enviar uma palavra de carinho, mesmo que em pensamento. Como neste post, em que destaco com total pertinência a canção "Amigo é casa", do pernambucano Capiba (1904-1997) e do carioca Hermínio Bello de Carvalho, resgatada em 2008 por Simone e Zélia Duncan no DVD de mesmo nome. Gosto muito desse título porque acho que traduz o que representa, de fato, um amigo de verdade na nossa vida. Segue abaixo o link desse choro na voz das duas cantoras citadas e um trecho da letra da música:
"Amigo é feito casa que se faz aos poucos
e com paciência para durar para sempre
Mas é preciso ter muito tijolo e terra
preparar reboco, construir tramelas
Usar a sapiência de um João-de-barro
que constrói com arte a sua residência
Há que o alicerce seja muito resistente
que às chuvas e aos ventos
possa então a proteger"
Capiba e Hermínio Bello de Carvalho em Amigo é casa
É curioso rememorar o passado através das lembranças vividas. Nos últimos dias, papeando com um novo amigo num boteco aqui do Rio, acabamos trazendo à tona lembranças musicais antigas que marcaram nossas infâncias e adolescências. A canção, especialmente a brasileira, sempre esteve presente desde a mais tenra idade. Tanto que não consigo lembrar, ao certo, do primeiro contato com a música. Nas minhas memórias mais longínquas, ela já estava lá, em grande parte porque minha família apreciava escutar discos, como aprecia até hoje. Então, isso acabou sendo assimilado naturalmente por mim.
Na infame fase das lambadas, entre fim dos anos 80 e início dos 90, eu simplesmente odiava tudo o que tinha a ver com esse gênero musical. Então, artista que se meteu a cantar modismos acabava virando farinha de um saco só que eu não queria abrir mais. Foi o que ocorreu com a Elba Ramalho. Sempre admirei a sua identidade nordestina. Tinha a impressão de ser uma jóia bruta no jeito de cantar e se expressar e, por isso mesmo, tão especial e bonita. Quando criança, gostava de vê-la e escutá-la cantando frevos, especialmente. Entretanto, na época dos hits "Doida" e "Ouro puro" (auge dos sintetizadores e instrumentos eletrônicos na MPB), acabei identificando-os com as lambadas e isso me fez perder um pouco o interesse e encanto por ela. Hoje, evidentemente, isso mudou.
Falo sobre o assunto retomando um pouco do post Memórias e saudades do Recife em carnis valles. Com o passar do tempo, as memórias tendem a se aplainar, em grande parte pela maior distância com o fato vivenciado e o próprio processo de envelhecimento. Então, o que era uma coisa tão grandiosa antes pode não ser o mesmo hoje em dia. Também mudamos com o tempo, então as vivências evocadas tomam um outro sentido. Bem, tudo isso aqui é apenas uma maneira de dizer que, já na fase adulta, continuo admirando muito ver a Elba cantar e não achando mais tão odioso assim os antigos hits. Também pudera. Comparados aos sucessos de hoje, eles são verdadeiros clássicos do cancioneiro popular...
E eu, assim como o Drummond, amo o perdido. Entretanto, e felizmente, meu coração não se confundiu, como o dele. Talvez porque as coisas tangíveis ainda sejam sensíveis à palma da minha mão. E "as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão".
[ Elba no programa Globo de Ouro, da Rede Globo, em 1988, cantando o pout-pourri com as músicas: Energia (Lula Queiroga), Quero mais (Naldo Cordel), Banho de cheiro (Carlos Fernando), De volta pro aconchego (Dominguinhos/Naldo Cordel) e Doida (Naldo Cordel) ]
PS: Agradeço a Leandro Arraes pela indicação do vídeo. Valeu, Leandro!
Mesmo que pareça o mais do mesmo, definitivamente não é. Talvez o aparentemente irrepreensível. Mas, no fundo, a erupção intranquilamente impossível. Como um rebento que brota das pedras, no seco sol. Novas voltas, outras novas que vêm de longe e de perto, bem dentro aqui. Reaparecer sangra lágrimas, gomos, salivas e seivas. Dói. Pulso vital. Sequências que se sucedem regularmente de forma irregular. Como partículas que atomizam o derradeiro instante para, em seguida, renascer primeiro. Blue gardenia.
Nessa insignificância irreal, o momento se revela fundamental para as germinações e para o curso das águas que derivam próximas e para aquelas que flutuam distantes e refletidamente caladas numa saída em beco que (ir)rompe o passado e o futuro, além de denotar singela e discretamente a reflexão calada. Afinal, a vida passa, como as águas do rio e do mar vão e voltam, numa aspiral que curiosamente se completa e se complementa com outras flutuações profundas. E assim vinhas. Simplesmente.
Recordo o passado inteiro
E as voltas que o mundo dá
Meu limão, meu limoeiro
Meu pé de jacarandá [ Ciclo, canção composta por Caetano Veloso e gravada pela irmã Maria Bethânia no LP homônimo lançado em 1983 (Polygram-atual Universal Music) ]
[ Trecho da canção Para viver um grande amor, de Toquinho e Vinicius de Moraes,
gravada pela dupla em 1971 no LP "São demais os perigos desta vida" (RGE) e regravada em 1979 no LP "10 anos de Toquinho e Vinicius" (Polygram-atual Universal Music) ]
"O instante existe e a vida está completa", disse certa vez a voz lírica. Após noites e dias atravessados no vento, passos, ficos. Outros Oceanos. E aí, sem mais nem menos, o som e a asa ritmada chegam de outras terras para dizer daquele instante vital. As cordas e sua velha acústica tipicamente conhecidas. Reencontro bom. E a satisfação de rever um velho amigo tão desejado. Que um dia estarei mudo, sabe-se disso. O texto já nos confirmou. Mas até lá o sangue continua firme. Cheio de noites e dias de desmoronamentos, edificações, permanências e de desfazeres, daqueles coisas fugidias que, por vezes, alegram, por vezes entristecem, por vezes ficam, por vezes passam, portantos sãos.
Neste jogo de palavras e ideias, a subversão com a obra poética da jovem carioca tem uma intenção, assim como o seu Motivo. Uma costura sutil com os ditos e os ainda não-ditos deste blog, afinal o tempo é contínuo intervalo de retomadas e moças construções. E nada melhor para tornar conveniente uma razão própria do discurso, seja ele qual for. Neste instante específico, instaura-se o resgate de canções para dotar os ar de novos ares e a viola de novos violares. Depois do "mais nada", o violão e a voz. Até o Moonlight Serenade:
Elizeth Cardoso e Raphael Rabello (1ª parte)
Elizeth Cardoso e Raphael Rabello (2ª parte)
Elizeth Cardoso e Raphael Rabello (3ª parte)
Espetáculo gravado pela TVE-Brasil em fevereiro de 1990 no Teatro João Caetano dentro do Projeto Seis e Meia-Rio de Janeiro e veiculado após a morte da cantora Elizeth Cardoso, ocorrida em maio do mesmo ano
PS: Este post vai para Ângela e Raphael Pinho. A eles, todas as violas.
As reflexões de hoje são livres poéticas e musicais. Um tanto nostálgicas, é verdade. Têm a ver com as lembranças e as imagens que guardamos especialmente dentro de nós a partir das experiências de vida vividas. Dos lugares, dos cheiros, dos "causos" e das pessoas que encontramos ao longo da trilha. Podem ser memórias bem particulares ou então memórias mais coletivas. Mas evidentemente memórias que marcam particularmente o indivíduo.
Fico aqui com o pensamento da autora Ecléa Bosi, que buscou desvendar em sua obra as narrativas dos velhos, que costumam guardar no tempo a testemunha viva do passado na "substância mesma da sua vida", e como a memória vai se formando a partir dessas lembranças. Uma reconstrução que recompõe no espírito o tempo.
- Caminhando pelas ruas antigas, ele cantarola versos do pernambucano Antônio Maria. Versos de saudade do cotidiano de outrora que fizeram - e fazem - certamente história. Versos de um frevo dolente que batem fundo no coração.
Ai, ai, saudade Saudade tão grande Saudade que eu sinto
Do Clube das Pás, do Vassouras
Passistas traçando tesouras
Nas ruas repletas de lá Batidas de bumbo São maracatus retardados Que voltam pra casa cansados Com seus estandartes no ar
[ Frevo nº 2 do Recife, canção de Antônio Maria composta na década de 50 e resgatada por Maria Bethânia, numa gravação de 1969, ainda no começo da carreira dela ]
O cotidiano, neste caso, tem a ver com a carnis valles, mais precisamente com as brincadeiras do carnaval, uma festa milenar que foi significando e se ressignificando entre diversas culturas na busca por festejar os prazeres da carne. Poderia ser um outro cotidiano. Mas, como o acontecimento se singulariza conforme a força do fato ocorrido, o Carnaval acaba por ser único no mundo das lembranças pela quebra das regras sociais, permitida comumente nos dias de folia, tornando-o digno de história. Eis porque tão único.
-E eis porque, ausente no espaço, o tempo olha-o com curiosidade, buscando o mesmo amparo na ausência, tornando-os mais próximos que antes.
Tempos vivos de memória, que, como diz ainda Ecléa Bosi, "aparece como força subjetiva ao mesmo tempo profunda e ativa, latente e penetrante, oculta e invasora". Memória evocação de vivências. "Enquanto evoca ele está vivendo atualmente e com uma intensidade nova a sua experiência". Memória que conserva o espírito e aquilo que esse espírito faz de si mesmo. Mais do que apenas reviver imagens do passado.
- Desse encontro entre tempo e espaço, ele vai construindo a memória da sua vida, com sons e pensamentos que se compõem, decompõem e recompõem. E aí vai começando a compreender o sentido da saudade na memória ao som de outro frevo longínquo, desta vez do carioca Edu Lobo. Uma canção inspirada no saudoso Antônio Maria durante um inverno brabo em Paris de 1966 e cheia de "flashes e saudades das coisas do Recife", nos tempos em que Edu passava as férias escolares nas casas dos tios em Pernambuco.
Hoje não tem dança Não tem mais menina de trança Nem cheiro de lança no ar Hoje não tem frevo Tem gente que passa com medo E na praça ninguém pra cantar Me lembro tanto
E é tão grande a saudade
Que até parece verdade
Que o tempo ainda pode voltar
[ No Cordão da Saideira, música composta e gravada por Edu Lobo em 1967 e regravada pelo MPB4 em 1968 ]
Embora pareça "falta de", em meio a perdas de coisas já passadas, a saudade dialoga com a memória num ponto de encontro com o futuro. É a comparação entre o passado e o presente que permite ao sujeito ter um grau de satisfação, seja maior ou menor do que já foi e ainda é. Considerando o carnaval um conteúdo socialmente compartilhado, aproveito os escritos de Adriano do Nascimento e Paulo Menandro, professores de Psicologia Social da Universidade Federal do Espírito Santo (da mesma área de Ecléa Bosi), para concordar com o fato de que o saudoso funciona como "articulador de determinado discurso, e não como uma simples adjetivação possível desse mesmo discurso".
Seria o saudoso, então, um dos fios a revelar algo ainda mais profundo que um mero devir. É certo que ele não volta. Porém, reencontra permanentemente em nós nos objetos que nos rodeiam, e não apenas fortemente na velhice, mas nas várias épocas e contextos da vida. Paisagens sonoras de festas e acordes de carnavais e infância, da vida banalmente cotidiana, das sociabilidades que evocam afetos no adulto e no idoso.
- Hoje, a memória não se estabiliza mais na espacialidade das coletividades como antes. Então, ele meio que se perde. E desconfia. E busca uma aproximação metafórica para constituir um novo apoio para essa memória. E as memórias dele em meio a saudades.
As we grow older
The world becomes stranger,
The pattern more complicated
Of dead and living.
Not the intense moment
Isolated, with no before and after,
But a lifetime burning in every moment
And not the lifetime of one man only
But of old stones that can not be deciphrered.
[ Trecho de East Coker, poema de T. S. Eliot publicado em 1940 e que compõe um poema maior intitulado "Four Quartets" ]
Referências bibliográficas
BOSI, E. Memória e sociedade: lembranças de velhos. 15 ed., São Paulo: Companhia das Letras, 2009[1979].
BOSI, E. O tempo vivo da memória: ensaios de Psicologia Social. 2 ed., São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.
NASCIMENTO, A. R. A.; MENANDRO, P. R. M. Memória social e saudade: especificidades e possibilidades de articulação na análise psicossocial de recordações. Memorandum. Belo Horizonte: UFMG; Ribeirão Preto: USP, n. 8, abr. 2005. Disponível em: <http://www.fafich.ufmg.br/~memorandum/artigos08/artigo01.pdf>. Acesso em: 13 out. 2011.
É engraçado como a distância nos aproxima mais de nossa cultura local. Eita, saudade danada das fogueiras e do calor junino do Nordeste! Por mais curiosidade e vontade que tenha de me conectar com o mundo de fora, minha identidade sempre será marcada pela minha cultura, minha história. Que bom ter essa memória afetiva e social! Hoje, mais do que nunca, sei que ela estará comigo onde quer que eu vá, seja aqui, ali ou alhures. Por isso mesmo, orgulho-me de ser recifense, nordestino, brasileiro, sul-americano, planetário, desejando poder compartilhar minha cultura com outras culturas. Global sempre com pé na regionalidade. Olhemos, então, para o céu no dia de hoje. Ele deve estar lindo e em festa...
Olha pro céu, meu amor
Vê como ele está lindo
Olha pra aquele balão multicor
Como no céu vai sumindo
Foi numa noite igual a esta
Que tu me deste o teu coração
O céu estava assim em festa
Pois era noite de São João
Havia balões no ar
Xote e baião no salão
E no terreiro o teu o olhar
Que incendiou o meu coração
[Olha pro céu, canção de Luiz Gonzaga e José Fernandes, datada de 1951 e gravada pelo próprio Gonzagão e diversos outros artistas]
A ideia deste post nasceu meio que por acaso esta semana. Na última quarta-feira (dia 25/05), estava eu saindo de casa pela manhã apressado em direção à parada de ônibus para ir à Fiocruz quando me deparei com um senhor que nunca vi na vida caminhando de bengala na direção contrária. Até aí, nada demais, a não ser por um singelo, surpreendente e bacana "bom dia" que ele fez questão de me dizer. Eu prontamente respondi o "bom dia" dele com o mesmo entusiasmo e continuei a minha caminhada. Posso dizer que isso mudou o meu dia (sem qualquer conotação de auto-ajuda salvacionista...), trazendo-me um misto de contentamento e satisfação por um atitude aparentemente tão simples.
Fiquei pensando sobre aquele ato gentil o dia inteiro, e até hoje ainda. Num mundo em que as pressões sociais e econômicas sobre o ser humano estão cada vez mais fortes e evidentes e o individualismo se tornou praticamente palavra de ordem, falta tempo para certas "banalidades". Afinal, temos de (sobre)viver...
Por isso mesmo, o título Gentileza também gera saúde não é vão. Ele veio-me à mente segundos após a troca de "bom dia" entre mim e aquele senhor. Porque gentileza, na minha opinião, tem a ver com bem-estar e bem-estar, por sua vez, com saúde. Como já tinha dito num outro post, a Organização Mundial de Saúde (OMS) define a saúde como "um estado de completo bem-estar físico, mental e social". Aliás, como nunca é demais verificar o significado das palavras, segundo o Moderno Dicionário de Língua Portuguesa Michaelis (disponível na internet - http://michaelis.uol.com.br/), bem-estar é definido como "situação agradável do corpo e do espírito; conforto, tranquilidade".
A grande questão é saber como encarar esse bem-estar. A meu ver, existe um aspecto crucial que infelizmente (ou felizmente, depende do ponto de vista de cada um...) faz parte da nossa dita cultura "pós-moderna": não se descobriu ainda a fórmula química do bem-estar a ponto de torná-lo um medicamento. E, não sendo remédio ainda, é impossível de ser comercializado, não gerando consumo, lucro, riqueza.
Profeta Gentileza é autor da frase que leva o seu nome
Aos usuários de saúde de plantão, especialmente àqueles que sempre adoram um "remedinho" e não têm tempo de parar para pensar sobre a vida que os cerca, vamos nos lembrar da célebre frase "Gentileza gera gentileza". Acredito que essa afirmação - criada pelo Profeta Gentileza (1917-1996), conhecido personagem urbano carioca - possa fazer a diferença, se incorporada de fato à nossa vida, proporcionando uma vida mais agradável e consequentemente uma saúde melhor e até mais saudável que aquela que temos hoje. De minha parte, desde ontem, torço para encontrar aqui perto de casa aquele senhor que me dirigiu o "bom dia" com tanta gentileza para lhe dizer o quanto foi bom o meu dia. Por hora, tento me inspirar nele para semear novas gentilezas para outras pessoas. Afinal, não custa nada. É apenas uma questão de atitude!
Nós que passamos apressados
Pelas ruas da cidade
Merecemos ler as letras
E as palavras de Gentileza
Por isso eu pergunto
A você no mundo
Se é mais inteligente
O livro ou a sabedoria
O mundo é uma escola
A vida é o circo
Amor palavra que liberta
Já dizia o Profeta
[Gentileza (Marisa Monte), música gravada pela própria Marisa no CD "Memórias, crônicas e declarações de amor", o seu quinto disco de carreira, lançado em 2000 pela EMI]
Quase dois meses se passaram desde a minha chegada no Rio e agora tenho a possibilidade de visitar a minha família em Pernambuco. Não pude fazer isso na Semana Santa, mas compensarei um pouquinho nestes cinco dias que virão, aproveitando a comemoração do Dia das Mães.
A ida também possui um outro propósito: tenho uma audiência marcada no Juizado Especial Cível de Olinda (o popular Pequenas Causas) contra a Tambaú por ter quase ingerido ano passado um caco de vidro encontrado dentro de um dos famosos tabletes de goiabada comercializados pela empresa. Depois de eu ser considerado "equivocado" pelo Serviço de Controle de Qualidade da fábrica (que me disse por telefone sem nem ter visto o vidro que era apenas um "açúcar cristalizado" - como se eu não fosse capaz de discernir açúcar de vidro...), resolvi ajuizar uma ação por danos morais. Não pelo dinheiro, mas pela atenção que a empresa deve não só com relação à produção de seus produtos, mas também aos seus consumidores. A audiência foi marcada, há quase um ano, antes mesmo de me inscrever na seleção do doutorado. Como calhou de ser marcada para 10 de maio, um dia após a comemoração das Mães, foi ótimo para unir o útil ao agradável.
Nessa visita repleta de saudades - das refeições em volta da mesa com a família, das cervejas e cafés com os amigos, das brincadeiras com carrinhos, Playmobils & Cia com o meu sobrinho e das estripulias com Zuca (o meu gato) -, mais uma vez uma música na cabeça. Tô voltando, de Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro, na voz de Simone. É uma das primeiras canções que me lembro de escutar na antiga radiola de casa quando era criança por intermédio de meus pais, que adoravam ouvir a baiana no início da sua carreira.
Pode ir armando o coreto E preparando aquele feijão preto Eu tô voltando Põe meia dúzia de Brahma pra gelar Muda a roupa de cama Eu tô voltando
Como a letra fala de um cara que está distante e diz para a mulher ir se preparando, pois ele está voltando para casa, então achei que poderia ter a ver comigo. Digo poderia porque a música é considerada um dos hinos da anistia de 1979, quando os brasileiros exilados que cometeram crimes políticos foram perdoados pelo governo militar e tiveram a possibilidade de retornar para o seu País. Como não sou exilado muito menos anistiado, resolvi então fuçar a internet para saber mais sobre Tô voltando e poder identificar algo comigo. Para a minha satisfação, descobri que a música, a princípio, não foi composta pensando nessa questão política. Na verdade, a canção teve como mote o cansaço de Tapajós após mais de um mês de turnê pelo Nordeste e a saudade de sua casa, no Rio.
Pelo fato de a música ter sido gravada por Simone pouco antes do retorno dos exilados, possivelmente a sociedade usou o tema para torná-lo trilha da anistia por ter uma correlação forte com o retorno deles ao Brasil. E aí é a mídia (especialmente a televisão) aproveitou aquele negócio para compor as suas imagens, popularizando ainda mais a canção. O que corrobora com a ideia de que os propósitos de um sujeito ou de um grupo de sujeitos - sejam quais forem - podem tomar um outro rumo, às vezes completamente diferente, quando circulam no meio social. Viva à linguagem e as suas múltiplas possibilidades!!
Satisfeito com a minha descoberta - que pode ser conferida por vocês no livro História das minhas canções (escrito pelo próprio Paulo César Pinheiro e lançado no ano passado) - finalizo este post com o vídeo da Simone no musical Grandes nomes, da TV Globo, em março de 1980, em que ela canta Tô voltando e um trechinho de Começar de novo, da dupla Ivan Lins e Vitor Martins. De quebra, a história de Pinheiro sobre a canção. Agora, posso cantá-la mais tranquilo, com a licença dos poetas. Gente, Tô voltando!!
Maurício (Tapajós)... me ligou pra falar sobre uma idéia que tivera no caminho de volta. Cansado da tensão de palco (sem o hábito de cantar pra o público) e de tanta farra, bateu nele, já no finalzinho, uma saudade imensa de casa, da mulher, dos filhos, do Leblon, do Rio. E de Tapajós pra Tapajós ele dizia, às vésperas do retorno: - Nem acredito que eu tô voltando... E esse mote não o abandonou mais. Só podia dar samba... Com o violão na mão e o fone preso entre o ombro e a orelha cantarolou pra mim rascunho da melodia em que se repetia o "tô voltando". - Quê que você acha, parceiro?
- Acho ótimo, gordo. Tô indo pra aí. Ainda agüentas maia um uísque? Passamos o resto do dia dando a forma à composição. Na manhã seguinte, já em meu escritório, fui burilando a letra. Era simples e popular a canção e os versos foram fluindo. Eu, que já passara tanto por isso, tantas as viagens que fizera, enormes as saudades de casa, sabia bem do assunto que devia abordar. O papo era recorrente à nossa profissão. Toda a classe artística sentia profundamente essa ânsia de regresso depois de cada temporada. E todos queriam as mesmas coisas que eu rabiscava agora naquele samba. Ficou lindo o que a gente fez, e cheio de empatia. Era cantar uma vez e na segunda todos acompanhavam. Virava logo coro. Fácil de decorar. Senti imediatamente cheiro de sucesso. Simone estava escolhendo repertório para seu disco anual. Mostramos pra baiana. Ela veio que veio: - Esse é meu! Foi pro estúdio e arrebentou. Era 1979, e o samba ganhou o Brasil. Só dava ele nas rádios, "Estourou no Nordeste!" era a expressão bem-humorada que se usava na época, para designar a música que ganhava as paradas nacionalmente. Agora vocês vejam como a arte tem seus mistérios... Pouco tempo depois, estava eu vendo o Jornal Nacional da TV Globo cujo tema central era o dia do retorno dos exilados políticos ao nosso país, tendo sido conquistado, com muita luta doa que ficaram encarando o regime militar, a anistia ampla, geral e irrestrita, quando, pra minha surpresa, no avião lotado por nossos companheiros, entre entrevistas e choros ao vivo, entoou-se, numa só voz, o "Tô voltando". A cena foi uma pancada no meu coração. A emoção tomou conta de mim e as lágrimas correram no meu rosto. Minha voz embargou. Os pelos eriçaram. Estufavam as veias e os nervos retesavam. Tive que respirar fundo e sair da frente da tevê pra não enfartar. A música tinha tomado outra conotação a partir dali. Virara o hino dos exilados. E é assim que é vista até hoje, pra meu regozijo. E é assim que pensam que ela foi feita, pra minha satisfação. O que mostra que o destino das canções não está em nossas mãos. Elas são o que elas quiserem ser, acima dos motivos por que foram feitas. Que bom que ela tenha virado o que virou. Ergo um brinde a isso. Sempre.
[PINHEIRO, P. C. Histórias das minhas canções. São Paulo: Leya Brasil, 2010]
Como será Macabéa na vida? Essa é a pergunta que vem pintando, vez por outra, na minha cabeça nos últimos tempos. Digo isso porque elegi O nome da cidade como minha trilha sonora atual. Composta por Caetano Veloso para o espetáculo A hora da estrela, proposto e encenado em 1984 pela irmã e cantora Maria Bethânia em homenagem ao livro homônimo escrito por Clarice Lispector, a canção tem como influência direta a história da personagem central da obra - a datilógrafa alagoana Macabéa - e do espanto dela como migrante em plena cidade grande, neste caso o Rio de Janeiro.
Cartaz do filme A hora da estrela, de 1985
Sempre gostei de A hora da cidade desde que ouvi pela primeira vez na voz de Adriana Calcanhoto, já nos idos dos anos de 1990. Na época, nem sabia que a canção era inspirada na obra de Clarice. Somente há pouco tempo, descobri isso e passei a gostar ainda mais da música porque curto a escritora, o livro, o compositor baiano, a canção inspirada, a compositora gaúcha e a segunda versão. Hoje, morando no Rio, identifico-me um pouco com Macabéa. Mais do que nunca, contemplo e "assunto" a Cidade Maravilhosa com um olhar e atenção de sertanejo que nunca fui realmente, embora isso esteja no meu sangue (já que sou nordestino e a família do meu pai é de Floresta, cidade do sertão pernambucano). Um pouco como Macabéa e as demais pessoas que aqui chegam ao Rio e se veem diante de um lugar tão belo, atraente, parecido e, ao mesmo tempo, tão diferente, diverso e, por vezes, feio, a exemplo dos nordestinos e dos próprios gaúchos, como Adriana.
Dependendo do gosto musical do freguês, posto dois links possíveis de O nome da cidade. A versão primeira, de 1984, mais agreste, com Bethânia, e a outra com Adriana Calcanhoto, de 1992, mais delicada - e a que prefiro, diga-se de passagem, pois só o violão e a voz dela bastam para dizer tudo o que a canção quer dizer:
Cheguei ao nome da cidade
Não à cidade mesma, espessa
Rio que não é rio: imagens
Essa cidade me atravessa [Caetano Veloso em O Nome da Cidade, gravada primeiramente pela baiana Maria Bethania em 1984 no LP "A beira e o mar" (gravadora Polygram/Universal Music) e posteriormente pela gaúcha Adriana Calcanhoto no seu segundo disco, "Senhas", de 1992 (gravadora Columbia/Sony Music)]
O trecho citado acima é o que mais me pega fundo nos dias de hoje. O Rio de Janeiro me atravessa a alma, cortando o outro Rio, em tudo de bom e ruim que isso pode ter.
Macabéa vê a vida como uma coisa que apenas é porque é: já que sou, o jeito é ser. Ela não se questiona, sua existência é apenas ser, como um cachorro é cachorro sem o saber. Raquítica, sem vocação, sem sonhos e sem objetivos, acredita mesmo ter sido "soprada" no mundo - como quando um cisco é soprado do olho. Tola, solitária, doce e obediente, alimenta a lembrança de uma infância triste e uma saudade do que poderia ter sido e não foi. Seu único luxo é o cinema uma vez por mês e sua única paixão é "goiabada com queijo". A única fantasia que ela se permite é ser uma estrela de cinema. Gosta de acordar bem cedo aos domingos para ficar mais tempo sem fazer nada. No cais do porto sente o coração apertar ao chamado do navio. Não sabe o motivo, nem isso importa, apenas experimenta um raro momento de conforto em sua vida sem relevo, que só brilhará na hora da morte: seu único momento de verdade, decretado por um carro que a atropela e a transforma em estrela. Finalmente, protagonista de sua própria morte, ela "é":
Os inícios sempre trazem consigo uma certa expectativa. Ainda mais quando os inícios são carregados de novidades. Então, neste "início novo" de blog que concretiza o meu percurso do doutorado, nada mais sintomático que postar uma música. Para debutar, um belo e bom (qualquer semelhança com a filosofia é mera coincidência...) samba de Paulinho da Viola. Foi a primeira canção que tocou na minha cabeça pouco depois que cheguei aqui no Rio de Janeiro, no último mês de março. Reflete não só a minha nova fase acadêmica como uma nova etapa da vida que estou experimentando e aprendendo aos poucos. Sem mais delongas, ouçamos/leiamos o que o mestre tem a nos dizer - talvez pensar na música até me sirva no futuro, quando eu estiver imerso, de fato e completamente, na pesquisa:
"A toda hora rola uma história
Que é preciso estar atento
A todo instante rola um movimento
Que muda o rumo dos ventos
Quem sabe remar não estranha
Vem chegando a luz de um novo dia
O jeito é criar um novo samba
Sem rasgar a velha fantasia" [Rumo dos Ventos (Paulinho da Viola) - Gravado originalmente pelo próprio Paulinho em 1982 para o seu LP "A toda hora rola uma estória", da Atlantic/WEA]