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segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Tecnologia e controle

Notícia publicada semana passada na imprensa nacional e internacional informa que a internet pode se tornar uma aliada da saúde pública no monitoramento de doenças. Estudos desenvolvidos fora do país indicam como sistemas de rastreamento são capazes de prever a ocorrência de surtos com antecedência, a partir do acesso dos usuários sobre doenças no Wikipedia, ampliando as formas de vigilância à saúde a moléstias, hoje centradas basicamente no repasse dos resultados de exames aos governos por parte de instituições e profissionais médicos. Eis abaixo os links das notícias publicadas no Correio Braziliense, de Brasília (DF), e no Los Angeles Times, dos Estados Unidos:

http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/tecnologia/2014/11/14/interna_tecnologia,457487/aumento-de-consultas-a-artigos-sobre-doencas-na-wikipedia-antecede-surtos.shtml

http://www.latimes.com/science/sciencenow/la-sci-sn-wikipedia-flu-disease-predictor-20141113-story.html

A lógica proposta é interessante e, de certa maneira, também previsível, tendo em vista a ampliação do acesso à rede e o uso institucionalizado da internet nos últimos anos como lugar de consulta sobre questões de saúde. "Há um novo paciente nas salas de consulta. Municiado de informações que recolhe na internet, principalmente, ele faz uma tonelada de perguntas sobre sua doença, arrisca sugerir remédios e exames e, no limite, até coloca em dúvida o tratamento prescrito pelo especialista", afirma a revista VEJA na reportagem O consultório da internet, publicada em 14 setembro de 2005.

A reportagem diz que um estudo realizado pela empresa de consultoria americana Pew Internet & American Life Projec indica que oito em cada dez usuários da rede já acessam sites de informação médica. Entre os temas de maior interesse, estão doença específica (66%), tratamento médicos (51%), dieta e nutrição (51%), exercício físico (41%), remédios (40%) e tratamentos alternativos (30%). "No Brasil, calcula-se que mais de 10 milhões de internautas o façam com regularidade", aponta a VEJA.

O fenômeno de uso da internet assume hoje novos contornos, indicando a potência dos dados sobre acesso no monitoramento e controle da vida em rede, em nome da segurança global e de uma gestão em saúde mais eficiente em relação a doenças infecciosas. Questão que também passa pela proteção das informações na rede para evitar o uso indevido, considerando a fragmentação e fluidez do espaço virtual.

PS: Agradecimentos ao amigo Thiago Petra no compartilhamento das notícias.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Navegantes I


"Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu"
Fernando Pessoa

A mitologia faz parte da vida ocidental há milhares de anos, com a função de significar e interpretar a cultura de um povo. Histórias populares ou religiosas, os mitos são narrativas que costumam explicar a origem de alguma cultura, do mundo e do próprio universo. A mitologia greco-romana, junção das religiões grega e romana pela semelhança nas tradições dentro outros aspectos em comum, é uma das mais simbólicas, a narrar histórias de deuses e semi-deuses, com poderes além dos seres humanos, nós, os "pobres mortais".

Senhores da natureza, essas divindades possuíam forças sobrenaturais, apesar da semelhança física com o homem. Suas lendas são lembradas até hoje, tendo influência em vários campos, como a matemática e a filosofia. Na arte, a mitologia foi pano de fundo para a criação de várias obras desde tempos antigos. O mito do Orfeu e da Eurídice é um dos mais conhecidos e inspiradores de poetas, escultores, pintores e compositores.

A lenda conta a história de amor entre Orfeu, considerado o músico mais talentoso dentre todos, e Eurídice, uma ninfa da floresta que morreu após ser picada por uma serpente, ao tentar fugir de um pastor que muito a admirava. Desesperado, Orfeu desce ao mundo dos mortos na tentativa de resgatar a sua amada. Tendo a permissão para levá-la de volta, Orfeu sai guiando a sombra de Eurídice pela trilha com a condição de não olhar para trás.

Quadro "Orfeu guiando Eurídice do submundo", de Jean-Baptiste Corot
Porém, perto de chegar à saída do reino dos mortos, ele não resiste e se vira para Eurídice, que é carregada novamente para o mundo da escuridão. Perseguido pelas mulheres durante o resto de sua vida, Orfeu acabou morrendo tempos depois, devido ao ódio das bacantes (sacerdotisas de Baco, deus do vinho e das festas), que o desejavam e tentavam de tudo para conquistar o seu amor, devido à atração que ele exercia com a sua bela música triste.

No Brasil, a história de Orfeu e Eurídice inspirou o poeta e diplomata Vinicius de Moraes. Em 1954, ele escreveu a peça teatral Orfeu da Conceição, uma adaptação do mito grego à realidade das favelas cariocas. Nela, o Orfeu se transforma num sambista, filho de um músico com uma lavadeira, e Eurídice, uma moradora do morro onde ele vivia. O interesse pelo musical acabou gerando, cinco anos depois, em 1959, o filme ítalo-franco-brasileiro Orfeu Negro (também conhecido como Orfeu do Carnaval), Palma de Ouro, em Cannes.

O poeta e compositor Vinicius de Moraes
Apesar de não fazer parte da trilha sonora original da peça, Valsa de Eurídice é claramente inspirada no mito de Orfeu e Eurídice. Uma das canções compostas unicamente por Vinicius (mais conhecido como letrista apenas), ela reflete a melancolia da perda, pela saudade e a falta da amada. Embora conheça essa canção desde os meus seis anos de idade na voz da cantora Elis Regina no registro ao vivo do seu derradeiro show, Trem Azul (1981), só na semana passada me veio à mente a correlação entre a música e o mito greco-romano durante uma conversa com um amigo muito querido sobre a sua avó paterna, a D. Eurídice.

De imediato, lembrei-me da canção do Vininha e, em seguida, do referido mito. Como o comentário desta semana tem a ver com memória, assim como outros tantos que já escrevi nestes dois anos e meio de blog, decidi dedicar este post ao grande Vinicius de Moraes (que, em 2013, completaria 100 anos, se estivesse vivo), a Elis, aos milenares contos que englobam a história da nossa humanidade, ao meu amigo Márcio e à saudosa avó Eurídice, que, na sua aparente simplicidade, acabou cativando o imaginário do neto desde a mais tenra idade. Nada melhor, então, do que coroar essa ligação com poesia e música...

"Para eso fuimos hechos:
para recordar y ser recordados
para llorar y hacer llorar
para enterrar a nuestros muertos.
Por eso tenemos brazos largos para los adioses
manos para recoger lo que fue dado
dedos para excavar la tierra"
Vinicius de Moraes em Poema de Navidad 




"Viver não é necessário; o que é necessário é criar.
Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso.
Só quero torná-la grande,
ainda que para isso tenha de ser o meu corpo
e a minha alma a lenha desse fogo"
Fernando Pessoa em Navegar é Preciso




"Tudo vale a pena se a alma não é pequena."


sábado, 6 de outubro de 2012

Em meio à trilha, a metáfora surpresa


"...Eu senti isso como uma trilha
literalmente uma trilha sonora e
uma trilha no meio da mata...
Fui andando naquele pico de
floresta com
esta trilha ao fundo..."
Leila Pinheiro 


Já faz algum tempo que não escrevo aqui no blog. De certa forma, isso trazia-me certo desconforto pelo desejo de dar continuidade aos textos e não ter inspiração suficiente. Pensar dói, escrever idem, pela humana exigência da consciência e da linguagem. Felizmente, nem tudo estava/está perdido. Eis que me deparo hoje com um lindo vídeo postado recentemente no Youtube da cantora Leila Pinheiro e do compositor Célio Cruz cantando juntos uma composição dele no Projeto Amazônia Convida, em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) do Rio de Janeiro até novembro deste ano.

Aparentemente isso não teria qualquer correlação com a proposta deste blog. Mas foi a declaração da Leila contida no programa do show - a que abre este post - que me deu o estalo para a pertinência com o que venho fazendo. Ambos, projeto de show (da Leila) e projeto de doutorado (meu) têm a ver com trilha, com caminho que se busca fluir. A trilha é plena de possibilidades, afinal existem várias direções possíveis. Na trilha, há as paisagens ao redor, potencialmente diversas, a depender do rumo tomado. Cores, cheiros, visões, sensações, encontros, descobertas, tudo isso vai nos fazendo seguir.


Imagem do programa do show Amazônia Convida, em cartaz no CCBB do Rio de Janeiro


Mas a trilha não é apenas isso. É som também. E na trilha vai se formando discretamente uma outra trilha repleta de canções, como um tapete mágico-sonoro dotando o caminho de intenções bem particulares, amalgamando as faces da vida numa vida toda. Não tinha realmente me dado conta dessa trilha ao fundo. Embora a característica musical sempre estivesse presente lá, ao tratar da trilha, só me vinha à mente a mata imaginária com seus imensos troncos e sua primária cor verde e um trilho a compor o caminho a seguir, deixando para frente e para trás o rastro do que foi e do que virá.  

Então, metaforicamente contente e satisfeito de mim, retomo a trilha com uma trilha bem peculiar. Aproveitando o ensejo do Amazônia Convida, destaco o final da apresentação de 25 de setembro de 2012 que reuniu Leila e Célio cantando juntos a tal composição dele que havia mencionado no começo deste post e à qual tive a felicidade de assistir de perto na plateia. Não sei o título da canção. Busquei na internet, mas não consegui descobrir o nome. Sinto por isso. De todo modo, o fundamental é a intenção do gesto e do som. Que eles possam acertar com os intentos puros e simples, justamente os mais profundos...



"Tive a ideia de te entregar um poema cantando rio
Na imagem do teu olhar o sol se vai por um fio"
Célio Cruz

* Dedico a retomada desta trilha à querida Leila Pinheiro, que tanto toca a minha trilha.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

A episteme segundo Millôr

Por muito tempo, não sabia o que significava epistemologia. Era apenas uma palavra bonita que ficava a fitar a uma distância regulamentar no meu baú de significados. Primeiro no mestrado, e agora já no doutorado, estou sendo "gentilmente" obrigado a compreender o que quer dizer, tendo em vista o fato de o termo ser utilizado por diversos autores e alguns professores e companheiros de curso.

De acordo com o Michaelis, a epistemologia trata da teoria do conhecimento, tendo a ver com sua origem, natureza e limites. Nesse caso, o conhecimento representa um ponto de confluência entre crenças e verdades. Enquanto a crença está no domínio da opinião e do subjetivo, o conhecimento significa uma crença de outra ordem, verdadeira e justificada, a explicar o mundo que nos rodeia.

Na saúde, a epistemologia hegemônica está relacionada ao saber biomédico, fundado na razão para determinação do mundo. Aos cientistas, cabe observar e analisar a realidade dada para construção do conhecimento que a represente de forma fiel. As doenças, por exemplo, são entidades de existência concreta que se expressam através de sintais e sintomas do organismo, considerados os dados objetivos para a ciência. O advento da medicina clínica, tão bem estudada pelo francês Michel Foucault (1926-1984), explica em parte a epistemologia biomédica de hoje e o conhecimento predominante na saúde.

A cada dia, penso mais nesse tão decantado conhecimento e, à medida que me aproximo do meu objeto de pesquisa, sinto-me afastar dele pelo simples fato de ser um fundo sem fundo o poço que teimo adentrar. Qual o verdadeiro significado do conhecimento em relação ao que busco estudar? E quais os critérios que definem uma verdade socialmente, ainda mais quando ela é encarada como absoluta? Não sei hoje, nem sei se saberei um dia.

Por hora, divirto-me com os ditos do humorista, desenhista, escritor e jornalista Millôr Fernandes (1923-2012). Dias atrás, dando continuidade ao levantamento da minha amostra de pesquisa, encontrei um poema interessante e engraçado dele sobre o conhecimento e a epistemologia. O texto foi publicado na revista Veja de 14 de maio de 1975.


Texto e imagem de  Millôr Fernandes sobre o conhecimento publicados na Veja de 14 de maio de 1975

Como diria Millôr, é difícil mesmo encontrar epistemologia, pois ela está no sujeito e depende única e exclusivamente dele para se desenvolver. Não é algo palpável. Tem a ver com o saber. E, estando na pós-graduação, a ambição ilusória está nos estudos. Por isso mesmo, minha epistemologia particular é a consciência da necessidade de estudar mais. E nada melhor do que os livros para me fazerem entender a perspectiva epistemológica mais ampla posta no meio acadêmico de buscar enriquecer mais e mais a gama de conhecimentos.

Sendo objetos transcendentes de amores tácteis, retomando Caetano Veloso, esses conhecimentos me fazem viajar no/pelo Universo. "Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso. E, sem dúvida, sobretudo o verso, é o que pode lançar mundos no mundo", explica o compositor. Estar, ser e existir: eis a tríade desafiadora do epistemólogo. Será essa a verdadeira metafísica do conhecimento? Longe de mais questões, deixemos os livros adentrarem apontando para a expansão do(s) Universo(s). Quem sabe eu epistemologize na mais pura simplicidade do que posso conhecer para melhor significá-lo.



[ Livros, canção do compositor Caetano Veloso que consta no disco "Livro" (gravadora Universal Music), lançado em 1997 ]

PS: Inicialmente, o texto que constava nesta postagem era um pouco diferente, menor em tamanho e desenvolvimento analítico. Mas, devido à colocação posta pela amiga Tânia Consuelo, resolvi ampliá-lo, buscando explicar um pouco mais o que significa epistemologia. Não sei se consegui ser claro, de fato, mas o exercício me forçou uma reflexão maior sobre o assunto e, curiosamente, me fez compreender melhor o significado do conceito. 

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Millôr e suas ironias com o passado

A memória é realmente um assunto vasto e super interessante, ainda mais quando tem a ver com a questão do discurso. Segundo o linguista francês Michel Pêcheux (1938-1983), a memória discursiva se insere em práticas sociais e se caracteriza pelo fato de um já-dito sustentar as relações de sentido entre os discursos. Um espaço móvel de deslocamentos, retomadas e conflitos de regularização da materialidade discursiva. Dessa maneira, a memória seria sempre perturbada a cada acontecimento discursivo novo, desmanchando a regularização existente e fazendo surgir um novo sistema entre elementos novos e antigos.

Em termos de ironia, a memória costuma estar sempre presente para subverter a paráfrase feita. A ideia é justamente retomar palavras já ditas há pouco ou há muito tempo para redizer o contrário ou completamente diferente do sentido primeiro. Comecei a pensar nisso recentemente, depois de tomar contato com os trabalhos produzidos pelo humorista e jornalista carioca Millôr Fernandes (1923-2012) para a revista Veja na primeira metade dos anos 70. Um deles é este abaixo, datado de 14 novembro de 1973:


Produção do humorista Millôr Fernandes publicada na edição de 14 de novembro de 1973 de Veja 

No exemplo acima, é possível observar não só o humor peculiar do Millôr de criticar as coisas como também o sentido implícito no passado. Semanticamente, o termo "pré-histórico" nos remete a um período anterior aos documentos escritos; um tempo findo bastante longínquo de se imaginar, sobretudo quando os seres representados eram animais hoje extintos. Porém, o que poderia parecer estritamente negativo - afinal o passado sempre é visto como algo velho e ultrapassado - acaba tomando um sentido cômico. Mesmo assim, para que a noção ressignificada faça sentido em nós, é preciso que tenhamos em mente o significado original. Caso contrário, o sarcasmo não fará sentido algum ou, ao menos, não produzirá o efeito desejado. De minha parte, tenho passado os últimos meses de pesquisa descobrindo transversalmente a genialidade do Millôr e constatado cada vez mais o quanto o seu humor faz falta. Salve, querido Millôr! E abaixo aos reais monstros pré-históricos!!

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Comunicar para amamentar

Nesta sexta 9 de setembro, proferi uma palestra sobre a importância da comunicação para a proteção, apoio e promoção do aleitamento materno. Organizado pela Sociedade Pernambucana de Pediatria, o evento ocorreu no auditório Alice Figueira, que fica no Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (Imip), no Recife. Foi uma oportunidade interessante de discutir com profissionais de saúde de diversas formações sobre a inserção da comunicação no que diz respeito ao aleitamento materno.

Não temos como negar o papel da comunicação. Na nossa vida, somos permeados por ela, já que envolve a troca de informações através de sistemas simbólicos. Formas de comunicação existem várias. Mas procurei me deter numa concepção bastante cara de interlocução e compartilhamento de sentidos e ideias. E por que essa e não outra(s)? Porque geralmente somos tentados a pensar na comunicação de forma essencialmente transferencial na qual um emissor que detém o conhecimento atua ativamente transmitindo uma mensagem através de um canal para um receptor muitas vezes passivo, espécie de "tabula rasa", que absorve e digere a informação sem qualquer criticidade.

Evidentemente, essa visão é equivocada, embora ainda esteja em voga e seja defendida por muitos. Independentemente da classe social ou do contexto em que vivemos, cada um de nós possui seus saberes, todos importantes para compreensão do mundo que nos cerca. E, na comunicação, esses saberes entram em negociação. Para incentivar o aleitamento, a proposta da Aliança Mundial em Ação para a Amamentação (WABA) para a campanha deste ano é pensar a comunicação como mais uma dimensão do processo que envolve tempo (da gravidez ao desmame) e lugar (local onde as gestantes, parturientes e seus familiares circulam, como casa, comunidade, posto de saúde etc). Nesse sentido, a comunicação funcionaria como promotora de mais interação e participação na multiplicação de informações, difundindo-as e trocando-as para além de nossas fronteiras a fim de buscarmos diálogo e transformarmos a palavra efetivamente em ação.


Comunicação como interlocução e compartilhamento de sentidos e ideias

Engraçado porque nos dias de hoje somos bombardeados de informações o tempo todo do que fazer ou não fazer para a nossa saúde. Entretanto, nem sempre essa informação se converte em atitude. Ou seja, nem sempre as pessoas mudam seus hábitos simplesmente por ter mais informação. No caso da amamentação, a tarefa parece um tanto difícil, já que o mundo atual "gira" de outra maneira, impondo rotinas e práticas de vida às vezes contrárias ao que se apregoa como as ideais. Muitas vezes, somos tentados a enfatizar apenas as vantagens do leite materno, deixando de lado as dificuldades, muitas vezes bem comuns, especialmente para as mamães de primeira viagem. Não que os benefícios não tenham de ser destacados. Não é isso. Mas é preciso equilibrar as informações, buscando discutir aquilo que ocorre no cotidiano das mulheres e o que pode ser feito desde o período de gestação para  garantir uma amamentação mais tranquila e, se possível, livre de problemas, por meio do que costuma ocorrer no dia a dia com as mães que amamentam.

Embora a WABA tenha ressaltado a comunicação na rede como forma de trabalhar o aleitamento, as conexões podem se dar fora da internet também, já que muitos no Brasil não têm acesso a ela. Levar em conta a realidade local de onde se pretende comunicar é fundamental e ponto primeiro, a fim de que as questões sejam discutidas a partir das situações vivenciadas dentro, e não fora desse lugar. Estabelecer uma interlocução é outro aspecto importante, buscando um diálogo para se discutir sobre a amamentação. De acordo com os Objetivos do Milênio, estabelecidos pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 2000 com base nos maiores problemas mundiais, a amamentação poderia ser inserida em, pelo menos, quatro das oito metas fixadas. Dentre elas:

  • Acabar com a fome e a miséria;
  • Igualidade entre os sexos e valorização da mulher;
  • Reduzir a mortalidade infantil;
  • Melhorar a saúde das gestantes.  

Apesar de sermos tentados a falar de determinados assuntos apenas nas datas comemorativas, o debate deve ocorrer permanentemente, afinal não se amamenta apenas na Semana Mundial, e sim o ano inteiro. Estratégias para sensibilizar e mobilizar também são bem-vindas dentro e fora das campanhas. Este post é uma forma de lançar o assunto para reflexão entre aqueles que leem este blog. Se conseguir tocar ou estimular alguém a fazer alguma coisa, já vai ter valido a iniciativa. Afinal, o papo se enche de grão em grão.


Depoimento da atriz Juliana Paes sobre Campanha de Aleitamento 2011 

Filme oficial da Campanha de Aleitamento 2011

PS: Este post é dedicado à minha prima Nalba Diniz e à minha amiga Letícia Garcia, que acabaram de ter seus bebês nos últimos dias, além da colega de doutorado Irene Rocha Kalil, que está grávida. Parte do que escrevi foi pensando em vocês. Beijos às três!

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Saúde nas Américas por Walt Disney

Embora não pareça à primeira vista, o post desta semana guarda estreita relação com o da semana passada sobre memória. Desta vez, trato do passado e do presente das doenças, tomando como ponto de partida o Walt Disney. Ano passado, descobri por intermédio da doutoranda alemã em geografia social Henriette Neef a animação Insects as Carriers of Disease (em inglês, Insetos como Vetores de Doença). Produzido pelos Estúdios Walt Disney em 1944, o desenho de aproximadamente nove minutos de duração conta a história do desleixado Charlie, personagem principal do vídeo.

Reduzido ao tamanho de um inseto, Charlie conhece de perto o perigo das moscas, mosquitos e pulgas, bastante comuns em sua casa e causadores, respectivamente, da disenteria, da malária e do tifo. Sem cuidado com a limpeza da sua residência e a própria higiene pessoal, Charlie é visto como um cara boa-praça que recebe bem todos os visitantes que vão à sua casa, "até os porcos e as galinhas", conforme diz o narrador do filme, em tom de ironia. Já os insetos, alçados à condição de "piores inimigos", são responsáveis por provocar mortes. Nesse sentido, a história do Charlie é emblemática para mostrar de forma um tanto maniqueísta os insetos como "monstros" perigosos capazes de verdadeiras barbaridades, sendo a principal delas transportar os micróbios causadores das moléstias.

Esta semana, ao pesquisar na internet mais informações sobre o filme, constatei que Insects... faz parte de uma série criada por Walt Disney sob o título de Health for the Americas (em inglês, Saúde para as Américas). Essa série foi encomendada pela extinta Agência de Negócios Interamericanos, um serviço governamental dos Estados Unidos que promovia nos anos 40 a cooperação interamericana, principalmente nas áreas comercial e econômica. A proposta do projeto era simples: apresentar problemas de saúde comuns nos países em desenvolvimento da América do Sul e as respectivas soluções que poderiam ser adotadas pelas pessoas para combater esses problemas.


Série apresenta problemas de saúde dos países latino-americanos

Apesar de já ter quase 70 anos, o filme guarda uma atualidade se compararmos ao discurso midiático sobre doenças, sobretudo as infecciosas. O caso da dengue é exemplar para mostrar como o mosquito Aedes aegypti é convertido nas narrativas como o "vilão", inclusive nas estratégias de combate divulgadas pelo poder público através da imprensa nas quais o inseto costuma ser o foco. As epidemias cíclicas registradas no Brasil seriam o ponto de contato entre o ontem e o hoje na produção de sentidos: as epidemias carregando consigo a noção de "mal" sanitário, que potencialmente espalha a doença e o medo entre os cidadãos, e o mosquito, apesar de minúsculo, sendo considerado o grande responsável pela situação, por ser visível e mais fácil de combater no âmbito individual.

Bom, puxar o fio do novelo da memória das enfermidades traz à tona diversas questões pertinentes ao presente que demandam outro(s) post(s), algo que, com certeza, ocorrerá. Neste momento, o mais interessante é assistir ao Insects as Carriers of Disease. Para quem trabalha com saúde pública, especialmente nas áreas de vigilância ambiental e epidemiologia, o conteúdo do filme poderá suscitar algumas reflexões que gostaria de poder compartilhar posteriormente. Afinal, aproveitando o título de um dos livros da professora de Psicologia Social da USP Ecléa Bosi, "o tempo vivo da memória" diz muito sobre a nossa vida e a nossa história, devolvendo-nos o que o passado percebeu e o presente costuma esquecer. Felizmente, existem os homens e as narrativas para poderem lembrar! Se recordar é viver, como diz a canção popular, assistamos então:

Insects as Carriers of Disease (versão em espanhol)


Filme criado pela Walt Disney Productions em 1994 dentro da série Health for the Americas, sob encomenda da Agência de Negócios Interamericana dos EUA
  
PS: A título de curiosidade e conhecimento, na versão disponível no YouTube em espanhol, o nome do personagem principal do filme é modificado para "John". Entretanto, quem acessar o link do Google Videos (http://video.google.com/videoplay?docid=641174200516837622#) verá que, na versão em inglês, o personagem chama-se originalmente "Charlie", como eu havia dito. Além disso, o narrador não é irônico, como na versão em espanhol, algo importante de ser percebido por modificar o tom do desenho.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

A tuberculose, Bandeira e o tango argentino

Num dos muitos papos recentes que tive com Grisel Adissi, uma estudante de pós-graduação em Sociologia da Saúde que está atualmente no Rio de Janeiro fazendo um intercâmbio com a UERJ, descobri algo interessante e inusitado: a tuberculose costumava ser antigamente tema de letras de tangos argentinos. Assim como a hanseníase (antiga lepra), a sífilis e o câncer, a tísica era carregada de significados que excediam a questão biológica. O pé na cultura era - e ainda é - bastante forte. Por isso mesmo, as doenças me interessam tanto. Porque tem o fator cultural bastante entranhado na história delas.

No caso da tuberculose, que lá pelos idos do século XIX era considerada a moléstia dos românticos, a inspiração artística foi bastante fecunda. Mas, durante a conversa com Grisel, não foi a poesia romântica que me veio à cabeça, e sim a do nosso querido Manuel Bandeira (1886-1968) com o seu célebre Pneumotórax, que falava no final do texto em "tocar o tango argentino" como única forma de conviver com a tuberculose. Pimba! Foi aí que entendi a conotação no poema. Sorri de satisfação, com alegria nos olhos.


 O poeta Bandeira teve tuberculose aos 18 anos, tendo vivido até os 82


Pneumotórax

Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse. 

Mandou chamar o médico: 
- Diga trinta e três. 
- Trinta e três... trinta e três... trinta e três... 
- Respire. 

- O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado. 
- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax? 
- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.


[Poema de Manuel Bandeira publicado em Libertinagem, de 1930, seu quarto livro de poemas e o primeiro inteiramente modernista] 


Bandeira descobriu-se tuberculoso (sem qualquer estigma com o uso do qualificativo, por favor, os politicamente corretos de plantão!) aos 18 anos de idade. Era um diagnóstico praticamente fatal na época. Embora tenha sido desenganado pelos médicos levando-o à longa espera da morte, ele só veio a falecer aos 82 anos, contrariando a tudo e a todos. Felicidade a nossa, a dos brasileiros, que tivemos a possibilidade de conviver com este modernista e de ler tão belos poemas dele, revelando que, mesmo no sofrimento, é possível criar inúmeras belezas, ainda mais quando se tem sensibilidade para tanto.

Como viu que eu adorei saber mais sobre tuberculose e tangos, Grisel me indicou um artigo muito interessante do historiador argentino Diego Armus publicado na revista Asclepio, que compartilho com vocês indicando o link do texto na revista:

http://asclepio.revistas.csic.es/index.php/asclepio/article/view/140/137

Para quem quiser ler mais sobre tuberculose, saúde e cultura na Argentina, indico também o artigo dos pesquisadores da UERJ Luiz Antonio de Castro Santos e Lina Faria, disponível na base Scielo e que encontrei há pouco nas minhas buscas pela internet:

http://www.scielo.br/pdf/hcsm/v17n3/15.pdf

Bom, outra opção menos "patológico-histórica" é ler os poemas do Bandeira. Meio pernambucano (de nascença) meio carioca (de adoção), ele tem centenas de maravilhosos poemas e crônicas que revelam o seu modo de ver a vida, sendo na maioria das vezes terno e simples na maneira de dizer as coisas. Como este por exemplo:


"Assim eu quereria meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação."


[Manuel Bandeira em O último poema, extraído do livro Manuel Bandeira: 50 poemas escolhidos pelo autor, da Editora Cosac Naify, São Paulo, 2006, pág. 35.]