Mesmo que pareça o mais do mesmo, definitivamente não é. Talvez o aparentemente irrepreensível. Mas, no fundo, a erupção intranquilamente impossível. Como um rebento que brota das pedras, no seco sol. Novas voltas, outras novas que vêm de longe e de perto, bem dentro aqui. Reaparecer sangra lágrimas, gomos, salivas e seivas. Dói. Pulso vital. Sequências que se sucedem regularmente de forma irregular. Como partículas que atomizam o derradeiro instante para, em seguida, renascer primeiro. Blue gardenia.
Nessa insignificância irreal, o momento se revela fundamental para as germinações e para o curso das águas que derivam próximas e para aquelas que flutuam distantes e refletidamente caladas numa saída em beco que (ir)rompe o passado e o futuro, além de denotar singela e discretamente a reflexão calada. Afinal, a vida passa, como as águas do rio e do mar vão e voltam, numa aspiral que curiosamente se completa e se complementa com outras flutuações profundas. E assim vinhas. Simplesmente.
Recordo o passado inteiro
E as voltas que o mundo dá
Meu limão, meu limoeiro
Meu pé de jacarandá [ Ciclo, canção composta por Caetano Veloso e gravada pela irmã Maria Bethânia no LP homônimo lançado em 1983 (Polygram-atual Universal Music) ]
[ Trecho da canção Para viver um grande amor, de Toquinho e Vinicius de Moraes,
gravada pela dupla em 1971 no LP "São demais os perigos desta vida" (RGE) e regravada em 1979 no LP "10 anos de Toquinho e Vinicius" (Polygram-atual Universal Music) ]
"O instante existe e a vida está completa", disse certa vez a voz lírica. Após noites e dias atravessados no vento, passos, ficos. Outros Oceanos. E aí, sem mais nem menos, o som e a asa ritmada chegam de outras terras para dizer daquele instante vital. As cordas e sua velha acústica tipicamente conhecidas. Reencontro bom. E a satisfação de rever um velho amigo tão desejado. Que um dia estarei mudo, sabe-se disso. O texto já nos confirmou. Mas até lá o sangue continua firme. Cheio de noites e dias de desmoronamentos, edificações, permanências e de desfazeres, daqueles coisas fugidias que, por vezes, alegram, por vezes entristecem, por vezes ficam, por vezes passam, portantos sãos.
Neste jogo de palavras e ideias, a subversão com a obra poética da jovem carioca tem uma intenção, assim como o seu Motivo. Uma costura sutil com os ditos e os ainda não-ditos deste blog, afinal o tempo é contínuo intervalo de retomadas e moças construções. E nada melhor para tornar conveniente uma razão própria do discurso, seja ele qual for. Neste instante específico, instaura-se o resgate de canções para dotar os ar de novos ares e a viola de novos violares. Depois do "mais nada", o violão e a voz. Até o Moonlight Serenade:
Elizeth Cardoso e Raphael Rabello (1ª parte)
Elizeth Cardoso e Raphael Rabello (2ª parte)
Elizeth Cardoso e Raphael Rabello (3ª parte)
Espetáculo gravado pela TVE-Brasil em fevereiro de 1990 no Teatro João Caetano dentro do Projeto Seis e Meia-Rio de Janeiro e veiculado após a morte da cantora Elizeth Cardoso, ocorrida em maio do mesmo ano
PS: Este post vai para Ângela e Raphael Pinho. A eles, todas as violas.
Aproveito a apresentação recente de um trabalho meu no 9º Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor), ocorrido aqui no Rio de Janeiro, para escrever o comentário desta semana sobre o forte apelo que a morte por dengue tem na mídia. Na verdade, doenças infecciosas de uma maneira geral chamam a atenção dos veículos de comunicação por representarem risco para as coletividades e estarem atrelados a uma causalidade específica, neste caso a infecção por vírus e bactérias.
Dentro dos critérios de noticiabilidade, a morte é simbólica pela imprevisibilidade e a atualidade do acontecimento, especialmente, se levarmos em conta os critérios que definem a relevância de determinado fato para se transformar em notícia. Na dengue, poderíamos acrescentar também a quantidade de pessoas e lugares envolvidos, a proximidade geográfica e o peso, sobretudo em situações de epidemia, quando a doença costuma se disseminar para um maior número de pessoas. levando a ocorrência de casos e mortes.
Um dos cartazes da campanha de combate à dengue de 2009 do Ministério da Saúde
Como risco em potencial, a epidemia traz consigo o medo, levando o poder público a enfatizar o discurso do combate; uma forma de conscientizar a população sobre o controle e a prevenção contra a proliferação do agente causador da doença, o mosquito Aedes aegypti. Nas coberturas jornalísticas sobre a dengue, esse tipo de discurso reforça a corresponsabilidade, delegando para o cidadão parte de suas obrigações. É evidente que o Estado não deve ficar só na adoção de medidas de prevenção.
No entanto, é preciso haver uma melhor adequação da postura do Estado a fim de não culpabilizar única e exclusivamente o cidadão pela situação epidemiológica de determinado local. Infelizmente, isso vem sendo observado com cada vez mais frequência nas falas do poder público e no próprio noticiário, deixando de lado outras questões macro, como o meio ambiente e as condições socioeconômicas, sobre as quais o Estado tem maior ingerência.
As reflexões de hoje são livres poéticas e musicais. Um tanto nostálgicas, é verdade. Têm a ver com as lembranças e as imagens que guardamos especialmente dentro de nós a partir das experiências de vida vividas. Dos lugares, dos cheiros, dos "causos" e das pessoas que encontramos ao longo da trilha. Podem ser memórias bem particulares ou então memórias mais coletivas. Mas evidentemente memórias que marcam particularmente o indivíduo.
Fico aqui com o pensamento da autora Ecléa Bosi, que buscou desvendar em sua obra as narrativas dos velhos, que costumam guardar no tempo a testemunha viva do passado na "substância mesma da sua vida", e como a memória vai se formando a partir dessas lembranças. Uma reconstrução que recompõe no espírito o tempo.
- Caminhando pelas ruas antigas, ele cantarola versos do pernambucano Antônio Maria. Versos de saudade do cotidiano de outrora que fizeram - e fazem - certamente história. Versos de um frevo dolente que batem fundo no coração.
Ai, ai, saudade Saudade tão grande Saudade que eu sinto
Do Clube das Pás, do Vassouras
Passistas traçando tesouras
Nas ruas repletas de lá Batidas de bumbo São maracatus retardados Que voltam pra casa cansados Com seus estandartes no ar
[ Frevo nº 2 do Recife, canção de Antônio Maria composta na década de 50 e resgatada por Maria Bethânia, numa gravação de 1969, ainda no começo da carreira dela ]
O cotidiano, neste caso, tem a ver com a carnis valles, mais precisamente com as brincadeiras do carnaval, uma festa milenar que foi significando e se ressignificando entre diversas culturas na busca por festejar os prazeres da carne. Poderia ser um outro cotidiano. Mas, como o acontecimento se singulariza conforme a força do fato ocorrido, o Carnaval acaba por ser único no mundo das lembranças pela quebra das regras sociais, permitida comumente nos dias de folia, tornando-o digno de história. Eis porque tão único.
-E eis porque, ausente no espaço, o tempo olha-o com curiosidade, buscando o mesmo amparo na ausência, tornando-os mais próximos que antes.
Tempos vivos de memória, que, como diz ainda Ecléa Bosi, "aparece como força subjetiva ao mesmo tempo profunda e ativa, latente e penetrante, oculta e invasora". Memória evocação de vivências. "Enquanto evoca ele está vivendo atualmente e com uma intensidade nova a sua experiência". Memória que conserva o espírito e aquilo que esse espírito faz de si mesmo. Mais do que apenas reviver imagens do passado.
- Desse encontro entre tempo e espaço, ele vai construindo a memória da sua vida, com sons e pensamentos que se compõem, decompõem e recompõem. E aí vai começando a compreender o sentido da saudade na memória ao som de outro frevo longínquo, desta vez do carioca Edu Lobo. Uma canção inspirada no saudoso Antônio Maria durante um inverno brabo em Paris de 1966 e cheia de "flashes e saudades das coisas do Recife", nos tempos em que Edu passava as férias escolares nas casas dos tios em Pernambuco.
Hoje não tem dança Não tem mais menina de trança Nem cheiro de lança no ar Hoje não tem frevo Tem gente que passa com medo E na praça ninguém pra cantar Me lembro tanto
E é tão grande a saudade
Que até parece verdade
Que o tempo ainda pode voltar
[ No Cordão da Saideira, música composta e gravada por Edu Lobo em 1967 e regravada pelo MPB4 em 1968 ]
Embora pareça "falta de", em meio a perdas de coisas já passadas, a saudade dialoga com a memória num ponto de encontro com o futuro. É a comparação entre o passado e o presente que permite ao sujeito ter um grau de satisfação, seja maior ou menor do que já foi e ainda é. Considerando o carnaval um conteúdo socialmente compartilhado, aproveito os escritos de Adriano do Nascimento e Paulo Menandro, professores de Psicologia Social da Universidade Federal do Espírito Santo (da mesma área de Ecléa Bosi), para concordar com o fato de que o saudoso funciona como "articulador de determinado discurso, e não como uma simples adjetivação possível desse mesmo discurso".
Seria o saudoso, então, um dos fios a revelar algo ainda mais profundo que um mero devir. É certo que ele não volta. Porém, reencontra permanentemente em nós nos objetos que nos rodeiam, e não apenas fortemente na velhice, mas nas várias épocas e contextos da vida. Paisagens sonoras de festas e acordes de carnavais e infância, da vida banalmente cotidiana, das sociabilidades que evocam afetos no adulto e no idoso.
- Hoje, a memória não se estabiliza mais na espacialidade das coletividades como antes. Então, ele meio que se perde. E desconfia. E busca uma aproximação metafórica para constituir um novo apoio para essa memória. E as memórias dele em meio a saudades.
As we grow older
The world becomes stranger,
The pattern more complicated
Of dead and living.
Not the intense moment
Isolated, with no before and after,
But a lifetime burning in every moment
And not the lifetime of one man only
But of old stones that can not be deciphrered.
[ Trecho de East Coker, poema de T. S. Eliot publicado em 1940 e que compõe um poema maior intitulado "Four Quartets" ]
Referências bibliográficas
BOSI, E. Memória e sociedade: lembranças de velhos. 15 ed., São Paulo: Companhia das Letras, 2009[1979].
BOSI, E. O tempo vivo da memória: ensaios de Psicologia Social. 2 ed., São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.
NASCIMENTO, A. R. A.; MENANDRO, P. R. M. Memória social e saudade: especificidades e possibilidades de articulação na análise psicossocial de recordações. Memorandum. Belo Horizonte: UFMG; Ribeirão Preto: USP, n. 8, abr. 2005. Disponível em: <http://www.fafich.ufmg.br/~memorandum/artigos08/artigo01.pdf>. Acesso em: 13 out. 2011.
Vez por outra, sempre me vem à cabeça o verbo "parecer" como constitutivo da nossa sociedade, especialmente se pensarmos no fenômeno da medicalização. Já disse a médica e historiadora das ciências francesa Anne Marie Moulin: "O exibicionismo da doença não é mais admissível, reduzido pelo ideal de decência. O corpo é o lugar onde a pessoa deve esforçar-se para parecer que vai bem de saúde”.
É justamente nesse “parecer” que a medicalização se insere como um fenômeno intrínseco à contemporaneidade. A partir do momento em que a saúde se torna mais um “dever” que um “direito” de estar bem, o consumo de medicamentos e a normatização do cuidado com a saúde caracterizam-se como aspectos da medicalização, que não só faz dos remédios artigos de necessidade básica do homem, mas também cria padrões “saudáveis” em prol de uma vida teoricamente “livre” dos riscos que tanto afligem o ser humano.
Bem, não quero escrever muito esta semana. Medicalização terá um post à parte. Por ora, trago uma canção do mestre Gilberto Gil que fala de um assunto aparentemente sem sentido, mas que, a meu ver, tem total sentido com o que escrevo: a aceitação calma e tranquila da morte. Nada mais simples e difícil ao mesmo tempo para uma sociedade que deseja cada vez mais e a todo custo a vida eterna. Sem querer parecer mórbido, eu os convido a escutar a canção composta pelo Gil em meados da década de 70 e a buscar refletir sobre a beleza dos versos no contexto da saúde-doença, sabendo que a morte é algo que também faz parte da vida. Então, que saibamos amar a morte na mesma medida em que buscamos amar a vida, sem parecer absolutamente nada. Apenas ser e estar...
Se a morte faz parte da vida
E se vale a pena viver
Então morrer vale a pena
Se a gente teve o tempo para crescer
Crescer para viver de fato
O ato de amar e sofrer
Se a gente teve esse tempo
Então vale a pena morrer [Então vale a pena, música composta por Gilberto Gil e gravada pela cantora Simone em 1978 no seu LP "Cigarra" (gravadora EMI-Odeon)]
A reflexão desta semana surgiu de um detalhe banal. No finalzinho da reportagem de capa da revista Veja sobre o câncer do ator global Reynaldo Gianecchini (edição 2235 - ano 44 - nº 38), o texto fez questão de ressaltar que o artista, mesmo de cabeça raspada propositalmente (antecipando os efeitos da quimioterapia), ainda continuava com a beleza intacta. Entre parênteses, a frase funcionou como um comentário dentro do próprio texto, uma espécie de texto paralelo. Achei pitoresco e, por isso mesmo, decidi analisar esse fato à luz da compreensão cultural que temos a respeito de doença.
Eis o trecho da reportagem:
Câncer do ator Reynaldo Gianecchini é capa de Veja
"Na quinta-feira passada, o ator apareceu pela primeira vez desde a alta hospitalar. Gianecchini passeou com a ex-mulher, a atriz Marília Gabriela, pelas ruas do bairro paulistano dos Jardins. No rosto, o sorriso aberto e a simpatia de sempre. Exibia a cabeça raspada, antecipando um dos efeitos externos da quimioterapia. A imagem do ator (sim, ele continua muito bonito) era de otimismo, confiança e serenidade"
[VEJA - No espírito da cura - edição 2235, ano 44, nº 38, 21 set 2011]
Jornalisticamente (e por que não dizer também culturalmente?), a referência à beleza do ator tem um sentido de ser. Conhecido como um dos galãs mais jovens da televisão brasileira, Gianecchini trabalha em cima da sua imagem pública, tanto a do corpo malhado quanto a do rosto bonito, dignos de alçá-lo à condição de símbolo sexual. Sendo assim, essa manutenção da imagem lhe é bastante cara; uma moeda de troca que vale dinheiro e confere status de celebridade a ele. Não seria de se espantar o fato de a Veja enfatizar aos leitores que ele continua "muito bonito", especialmente às fãs que o veneram e o desejam.
Imediamente eu me lembrei da escritora, ativista e ensaísta americana Susan Sontag (1933-2004). Nas suas análises sobre as metáforas e interpretações sobre as doenças na nossa sociedade, ela considerou o rosto como uma parte privilegiada do corpo, importante para constatação da "beleza ou da ruína física" de um indivíduo. Para tanto, ela tomou como referência as imagens dos santos cristãos em que a expressão do martírio do corpo não condizia com a aparência do rosto. Para Sontag, havia um abismo surpreendente entre os dois, já que o rosto muitas vezes demonstrava não sofrer diante das atrocidades sofridas pelo corpo. "O próprio conceito de pessoa, de dignidade, depende da separação entre rosto e corpo, da possibilidade de que o rosto esteja isento - ou que ele próprio se isente - do que está acontecendo com o corpo", avaliou a escritora.
Sabemos que nem todas as doenças provocam o mesmo sentimento diante dos efeitos sobre o rosto e o corpo. Os males do coração e a gripe, exemplificou Susan Sontag, não causam terror profundo nas pessoas por não danificarem o rosto. Na avaliação dela, as doenças mais temidas são aquelas que, de certa maneira, "animalizam" o doente (o "rosto leonino" do leproso - ou, como preferem as autoridades públicas brasileiras numa assepsia sui generis mundialmente,- do hanseniano) ou que conotam putrefação (a exemplo da sífilis ou da própria Aids no início da epidemia, quando o tratamento ainda não dava conta de proteger o organismo dos pacientes à ação do HIV).
Câncer de mama influenciou obra de Susan Sontag
"`Por trás de alguns dos juízos morais feitos em relação às doenças, encontram-se juízos estéticos a respeito do belo e do feio, do limpo e do sujo, do conhecido e do estranho ou insólito. [...] Mais importante do que a intensidade do desfiguramento é ele refletir um processo subjacente e progressivo de dissolução da pessoa. A varíola também desfigura; mas as marcas que ficam não pioram. Pelo contrário: são justamente as marcas do sobrevivente. Já as marcas no rosto do leproso, do sifilítico, do aidético assinalam uma mutação, uma dissolução progressiva; algo orgânico."
Susan Sontag no livro Aids e suas metáforas (São Paulo: Companhia das Letras, p. 49, 1989)
Evidentemente, é preciso considerar o contexto em que a análise da Sontag foi feita. Fim dos anos 80, em pleno auge da Aids no mundo. O aparecimento dessa "nova" doença sexualmente transmissível fez o mundo reviver o medo da desfiguração do corpo e do rosto, assim como havia ocorrido com a lepra e a sífilis em séculos anteriores, só que desta vez sob holofotes midiáticos. Semelhante às antigas pestes do passado, a Aids era interpretada como sinal de castigo divino, ressuscitando a intolerância e o preconceito, além de revelar publicamente a imagem negativa do doente, que se consumia em direção à morte inevitável, pondo em xeque o aparente controle que parecia haver sobre as doenças infecciosas.
Num contraponto à imagem positiva e bela do Gianecchini careca, podemos lembrar da imagem negativa e "em decomposição" do compositor e cantor Cazuza (1958-1990) estampada na capa da mesma Veja pouco antes de morrer. Em 24 de abril de 1989, o semanário estampava a fotografia do roqueiro com um semblante magro e coloração de pele diferente da normal, possivelmente consequência dos efeitos da Aids e da medicação utilizada na época para controlar a doença. Um exemplo público em que se via/lia o drama pessoal de um artista de renome e a visão do processo de adoecimento, da transfiguração explícita do rosto e do organismo como um todo e da luta contra a morte.
Drama da Aids em Cazuza é capa de Veja em 1989
Embora guardadas as diferenças entre o câncer e a Aids ontem e hoje, os discursos produzidos pela imprensa revelam a importância dada ainda hoje ao rosto. Os exemplos de Gianecchini e Cazuza em Veja são exemplares nesse sentido. Na verdade, o que está por trás da preocupação com o rosto e com a beleza em si é o medo da morte. A doença significaria uma ameaça à vida. No caso do câncer, mesmo com todo o avanço da medicina, o temor ainda é visivelmente concreto, apesar de numa escala menor, se compararmos com a situação da doença no passado. Diferentemente da tuberculose, que trazia consigo uma ideia de lirismo e refinamento (a poesia romântica do século XIX está aí para provar), o câncer é visto, muitas vezes, como um mal potencialmente doloroso e, por isso mesmo, temível.
Na reportagem sobre o câncer de Gianecchini, a Veja também fala do ator e modelo galês radicado na Austrália Andy Whitfield (1972-2011), que faleceu dias atrás, em 11 de setembro, em decorrência do mesmo grupo de tumores que acomete o artista brasileiro, um linfoma não Hodgkin T que ataca o sistema linfático. Neste momento, os holofotes da imprensa para o assunto seriam mais que pertinentes, dada a atualidade da morte. Por isso mesmo, o comentário à beleza "intacta" do Gianecchini torna-se mais compreensível. A meu ver, o rosto significaria metaforicamente o locus de resistência pública do ator na luta contra o câncer, sempre pensando na velha concepção de embate entre o indivíduo contra a doença "inimiga" que o aflige. Uma força estética que representaria, mais profundamente, uma experiência histórica e filosófica do homem enquanto ser no mundo.
Nesta sexta 9 de setembro, proferi uma palestra sobre a importância da comunicação para a proteção, apoio e promoção do aleitamento materno. Organizado pela Sociedade Pernambucana de Pediatria, o evento ocorreu no auditório Alice Figueira, que fica no Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (Imip), no Recife. Foi uma oportunidade interessante de discutir com profissionais de saúde de diversas formações sobre a inserção da comunicação no que diz respeito ao aleitamento materno.
Não temos como negar o papel da comunicação. Na nossa vida, somos permeados por ela, já que envolve a troca de informações através de sistemas simbólicos. Formas de comunicação existem várias. Mas procurei me deter numa concepção bastante cara de interlocução e compartilhamento de sentidos e ideias. E por que essa e não outra(s)? Porque geralmente somos tentados a pensar na comunicação de forma essencialmente transferencial na qual um emissor que detém o conhecimento atua ativamente transmitindo uma mensagem através de um canal para um receptor muitas vezes passivo, espécie de "tabula rasa", que absorve e digere a informação sem qualquer criticidade.
Evidentemente, essa visão é equivocada, embora ainda esteja em voga e seja defendida por muitos. Independentemente da classe social ou do contexto em que vivemos, cada um de nós possui seus saberes, todos importantes para compreensão do mundo que nos cerca. E, na comunicação, esses saberes entram em negociação. Para incentivar o aleitamento, a proposta da Aliança Mundial em Ação para a Amamentação (WABA) para a campanha deste ano é pensar a comunicação como mais uma dimensão do processo que envolve tempo (da gravidez ao desmame) e lugar (local onde as gestantes, parturientes e seus familiares circulam, como casa, comunidade, posto de saúde etc). Nesse sentido, a comunicação funcionaria como promotora de mais interação e participação na multiplicação de informações, difundindo-as e trocando-as para além de nossas fronteiras a fim de buscarmos diálogo e transformarmos a palavra efetivamente em ação.
Comunicação como interlocução e compartilhamento de sentidos e ideias
Engraçado porque nos dias de hoje somos bombardeados de informações o tempo todo do que fazer ou não fazer para a nossa saúde. Entretanto, nem sempre essa informação se converte em atitude. Ou seja, nem sempre as pessoas mudam seus hábitos simplesmente por ter mais informação. No caso da amamentação, a tarefa parece um tanto difícil, já que o mundo atual "gira" de outra maneira, impondo rotinas e práticas de vida às vezes contrárias ao que se apregoa como as ideais. Muitas vezes, somos tentados a enfatizar apenas as vantagens do leite materno, deixando de lado as dificuldades, muitas vezes bem comuns, especialmente para as mamães de primeira viagem. Não que os benefícios não tenham de ser destacados. Não é isso. Mas é preciso equilibrar as informações, buscando discutir aquilo que ocorre no cotidiano das mulheres e o que pode ser feito desde o período de gestação para garantir uma amamentação mais tranquila e, se possível, livre de problemas, por meio do que costuma ocorrer no dia a dia com as mães que amamentam.
Embora a WABA tenha ressaltado a comunicação na rede como forma de trabalhar o aleitamento, as conexões podem se dar fora da internet também, já que muitos no Brasil não têm acesso a ela. Levar em conta a realidade local de onde se pretende comunicar é fundamental e ponto primeiro, a fim de que as questões sejam discutidas a partir das situações vivenciadas dentro, e não fora desse lugar. Estabelecer uma interlocução é outro aspecto importante, buscando um diálogo para se discutir sobre a amamentação. De acordo com os Objetivos do Milênio, estabelecidos pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 2000 com base nos maiores problemas mundiais, a amamentação poderia ser inserida em, pelo menos, quatro das oito metas fixadas. Dentre elas:
Acabar com a fome e a miséria;
Igualidade entre os sexos e valorização da mulher;
Reduzir a mortalidade infantil;
Melhorar a saúde das gestantes.
Apesar de sermos tentados a falar de determinados assuntos apenas nas datas comemorativas, o debate deve ocorrer permanentemente, afinal não se amamenta apenas na Semana Mundial, e sim o ano inteiro. Estratégias para sensibilizar e mobilizar também são bem-vindas dentro e fora das campanhas. Este post é uma forma de lançar o assunto para reflexão entre aqueles que leem este blog. Se conseguir tocar ou estimular alguém a fazer alguma coisa, já vai ter valido a iniciativa. Afinal, o papo se enche de grão em grão.
Depoimento da atriz Juliana Paes sobre Campanha de Aleitamento 2011
Filme oficial da Campanha de Aleitamento 2011
PS: Este post é dedicado à minha prima Nalba Diniz e à minha amiga Letícia Garcia, que acabaram de ter seus bebês nos últimos dias, além da colega de doutorado Irene Rocha Kalil, que está grávida. Parte do que escrevi foi pensando em vocês. Beijos às três!