sexta-feira, 13 de abril de 2012

Vestígios de memória

Há pequenas impressões finas como um cabelo e que,
uma vez desfeitas na nossa mente, não sabemos aonde
elas nos podem levar. Hibernam, por assim dizer, nalgum 
circuito da memória e um dia saltam para fora, como se
acabassem de ser recebidos. Só que, por efeito desse
período de gestação profunda, alimentada ao calor
do sangue e das aquisições da experiência temperada
de cálcio e de ferro e de nitratos, elas aparecem já
no estado adulto e prontas a procriar. Porque as
memórias procriam como se fossem pessoas vivas.

Trecho do romance Antes do degelo (2004 - Guimarães Editores),
de Agustina Bessa-Luís, pseudônimo literário da escritora
portuguesa Maria Agustina Ferreira Teixeira Bessa


A memória é realmente um assunto que rende análises diversas e profundas. Consciência inserida no tempo, como diria o querido poeta português Fernando Pessoa, ela representa a faculdade humana de conservar ou retomar ideias ou imagens. Na mitologia grega, a memória (Mnemosýne) era uma das deusas da primeira geração, com a capacidade de preservar tudo o que ocorria ao longo do tempo, além de mãe das nove Musas, que tinham o poder tanto de revelar quanto de fazer esquecer. Eis, então, a síntese da memória: lembrança e esquecimento a atuarem como forças complementares.

Na nossa vida, seja ela individual ou social, a memória sempre está presente, dando significado, de certo modo, à existência. É a partir das relações feitas com o passado que o presente vai sendo melhor compreendido. Não quero dizer com isso que vivemos em função unicamente do pretérito, mas ele tem sua importância vital, especialmente quando tratamos do discurso jornalístico, que se retroalimenta de analogias com os fatos já ocorridos anteriormente para dar sustentação aos seus enunciados, mesmo que seja só para negá-los.

Agora em 2012, a cobertura dispensada pela imprensa aos 30 anos da morte da cantora Elis Regina (1945-1982) foi, ou melhor, está sendo, algo realmente impressionante. Até 19 de janeiro, dia em que se celebra o falecimento da artista, contabilizei 51 matérias publicadas em jornais e outras quatro matérias em revistas, das quais uma de um semanário de Portugal. Totalizando com o restante dos textos que saíram depois dessa data, foram 98 matérias em periódicos e 12 em revistas. Isso sem contar com as matérias veiculadas em televisões e sites, além dos programas de rádio, que perfazem uma quantidade bem maior de inserções sobre Elis na mídia.


Esquecimento e lembrança se unem para significar no tempo a memória sobre Elis


Essa constatação torna-se ainda mais interessante se voltarmos ao passado. Nos 10 anos da morte de Elis, os meios de comunicação pareciam não ter o mesmo interesse em falar da cantora como hoje em dia. Naquela época, a memória parecia estar mais próxima do esquecimento. As manchetes da matéria de capa do Caderno 2 do Estado de São de Paulo no dia 19 de janeiro de 1992 ("Os dez anos em que o Brasil esqueceu Elis") e do texto publicado na editoria Ilustrada, da Folha de São Paulo, na mesma data ("Morte de Elis é mal lembrada dez anos depois") exemplifica um pouco do discurso em voga na época. Naquele mesmo ano, a própria biógrafa de Elis, a jornalista Regina Echeverria, declarava à imprensa que Elis estava esquecida, ao constatar uma diminuição nos eventos em nome da cantora, principalmente cinco anos após a sua morte.

Vinte anos depois, a situação se inverte e o esquecimento dá lugar a uma lembrança mais viva do que nunca. Manchetes publicadas este ano não faltam para indicar essa mudança:

  • "Elis na parede da memória" (Pampulha - MG - 7 a 13 jan. 2012);
  • "Memória é reforçada com shows, discos e exposição" (Folha de São Paulo - SP - 9 jan. 2012);
  • "Elis eterna" (Gazeta de Alagoas - AL - 19 jan. 2012);
  • "A voz que não morre" (O Popular - GO - 19 jan. 2012);
  • "Elis revive" (Jornal de Santa Catarina - SC - 19 jan. 2012);
  • "A voz inesquecível" (Diario de Pernambuco - PE - 29 fev. 2012).

Esse avivamento da memória tem a ver não só com o mito criado em torno de Elis ainda em vida e enfatizado após a morte precoce, mas também com as homenagens promovidas em seu nome. A mais recente, e também a mais 'robusta', partiu da família dela, com o anúncio de shows de Maria Rita (filha caçula de Elis), realização de exposição itinerante por algumas capitais brasileiras, documentário e lançamento de livro novo contando a trajetória da cantora. O anúncio do megaprojeto, ainda em 2011, fez com que a mídia ficasse atenta para isso, intensificando o noticiário.

Artisticamente, acredito que Elis esteja inserida no rol dos artistas que gozam de particular prestígio, capaz de "manter vivo o interesse que despertam" e "levar à busca do aprofundamento e da renovação do conhecimento", como diria o professor assistente doutor da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp) Wilton Carlos da Silva (2009). Pensando nele, as narrativas jornalísticas contribuiriam para o chamado "biografismo" de Elis, bem como uma forma de visualizar nitidamente o papel da memória na contemporaneidade.

Traçando um paralelo entre os campos da cultura e da saúde, poderíamos pensar também num biografismo sobre as doenças? Guardando as devidas singularidades e contextos diversos, acredito que sim. Falo com pouca propriedade, afinal seria necessário um aprofundamento sobre o que vem a ser biografismo nos estudos de memória. Porém, se observarmos o noticiário acerca da pandemia recente da gripe A(H1N1) em 2009, que trouxe à tona a memória da gripe espanhola do início do século XX, vemos que algumas doenças epidêmicas - encaradas quase que como "entes" - dialogam com os grupos sociais aos quais estão inseridos e são privilegiadas conforme o contexto, alterando a própria memória social. O que foi ontem pode não ser o mesmo hoje. Da mesma maneira, o que é hoje pode não ser o mesmo amanhã. Resta saber se o que foi ontem não será o mesmo amanhã. Bem, só o tempo é que vai nos dizer. Por hora, apenas a música é quem diz.



[ Trecho do show "Transversal do Tempo", apresentado por Elis Regina e César & Cia no Teatro Villaret, em Lisboa (Portugal), no ano de 1978. A música que aparece no vídeo é Nada será como antes, composta pela dupla Milton Nascimento e Ronaldo Bastos e gravada pela cantora em 1972 no LP "Elis" (Philips-atual Universal Music) ] 



Referências bibliográficas

  • BRITO, P. Elis na parede da memória. In: Pampulha, Belo Horizonte, 7 a 13 jan. 2012. Reportagem, p. 3.
  • CONTENTE, R. Nunca houve outra Elis. In: Jornal do Commercio, Recife, 19 jan. 2012. Caderno C, p. 4.
  • ECHEVERRIA, R. Furacão Elis. 2. ed. rev. e atual. São Paulo: Globo, 1994.
  • FARIA, A. de; MENDES, T. Elis eterna. In. Gazeta de Alagoas, Maceió, 19 jan. 2012. Caderno B, p. B1.
  • GARCIA, L. L. Os dez anos em que o Brasil esqueceu Elis. In: Estado de São Paulo, São Paulo, 19 jan. 1992. Caderno 2, p. 1.
  • GIRON, L. A. Morte de Elis é mal lembrada dez anos depois. In: Folha de São Paulo, São Paulo, 19 jan. 1992. Ilustrada, p. 5. 
  • IENSEN, J. Elis revive. In: Jornal de Santa Catarina, Blumenau, 19 jan. 2012. Lazer, p. 1,4 e 5. 
  • MAGIOLI, A. A voz inesquecível. In: Diario de Pernambuco, Recife, 29 fev. 2012. Viver, p. E6.
  • PRETO, M. Memória é reforçada com shows, discos e exposição. In: Folha de São Paulo, São Paulo, 9 jan. 2012. Ilustrada, p. E1.
  • QUEIROZ, R. A voz que não morre. In: O Popular, Goiânia, 19 jan. 2012. Magazine, p.1.
  • SILVA, W. C. L. da. Biografias: construção e reconstrução da memória. In: Fronteiras - Revista de História, v. 11, n. 20, jul./dez. 2009. p. 151-66.   

sexta-feira, 30 de março de 2012

Perspectivas temporais para a doença

As doenças representam uma experiência privada e pública, ao mesmo tempo, por afetar o organismo do indivíduo, bem como a sociedade como um todo. A dimensão biológica, base da biomedicina, torna-se então insuficiente para compreender o significado da moléstia, sendo necessária também uma reflexão sobre a dimensão sociocultural, igualmente importante para o entendimento do que vem a ser doença. O campo jornalístico, arena à qual eu faço parte e me interesso em estudar, integra essa segunda dimensão, produzindo sentidos. Embora não seja a única instância, a mídia é sempre importante de ser considerada nos estudos sobre saúde.

Essa importância não vem de hoje. Há décadas, o poder público se vale dos meios de comunicação para divulgar as suas ações. A criação do Serviço de Propaganda e Educação Sanitária, em 1923, dentro do Departamento Nacional de Saúde Pública (o equivalente hoje ao Ministério da Saúde), é um exemplo dessa preocupação governamental quase secular em comunicar suas iniciativas para a população num espírito de "pedagogia civilizatória", segundo analisa a cientista social Janine Cardoso, numa entrevista à Revista Radis em dezembro de 2010 (http://www.ensp.fiocruz.br/radis/revista-radis/100/reportagens/entrevista-janine-cardoso-%E2%80%9Cnovo-campo-tem-marca-do-processo-da-reforma) e no livro Comunicação e Saúde, escrito em parceria com a professora Inesita Soares de Araújo.

Nas últimas décadas, os meios de comunicação vêm adquirindo uma importância cada vez maior na produção de sentidos, contribuindo para tornar a doença uma experiência cada vez mais pública e para dar "vida" aos acontecimentos do passado e do presente, alçando-os à condição de históricos, como diz a pesquisadora Ana Paula Goulart Ribeiro, comunicóloga e historiadora de formação. Dos anos 80 para cá, enfermidades como a Aids, a dengue e a gripe A(H1N1) ganharam uma expressão forte nos media, tornando-se notícia.

Pensando no processo de agendamento, a mídia atuaria na seleção sob dois aspectos: tanto na escolha dos assuntos a serem publicizados quanto no enquadramento desses assuntos selecionados. Para falar sobre determinado tema, não seria possível falar de qualquer jeito, mas de determinado jeito, salientando alguns elementos específicos  na interpretação dos acontecimentos. Do ponto de vista imagético, por exemplo, a ideia que se tinha da Aids era dos doentes com condição física fragilizada, caminhando em direção à morte. Já com relação à gripe suína, a principal imagem que vem às nossas mentes através da imprensa são as pessoas usando máscara para evitar a contaminação pelo vírus.


A imagem dos doentes com máscaras foi bastante vista na pandemia da gripe A(H1N1)

A saliência conferida a determinados elementos de um assunto no trabalho jornalístico está presente na Análise do Discurso, já que os acontecimentos são enunciados a partir de um determinado viés. O jogo existente na definição dos diferentes enquadramentos das enfermidade revela como esses moldes são utilizados para interpretar a realidade, sendo importante para construção de uma concepção de doença, bem como para entendermos as estratégias adotadas pelos veículos de comunicação.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Nova estação

Ser como um rio que deflui
Silencioso dentro da noite
Não temer as trevas da noite
Se há estrelas nos céus, refleti-las
E se os céus se pejam de nuvens
Como o rio as nuvens são água
Refleti-las também sem mágoa
Nas profundidas tranquilas
[ O Rio, poema escrito por Manuel Bandeira ]


Mesmo que pareça o mais do mesmo, definitivamente não é. Talvez o aparentemente irrepreensível. Mas, no fundo, a erupção intranquilamente impossível. Como um rebento que brota das pedras, no seco sol. Novas voltas, outras novas que vêm de longe e de perto, bem dentro aqui. Reaparecer sangra lágrimas, gomos, salivas e seivas. Dói. Pulso vital. Sequências que se sucedem regularmente de forma irregular. Como partículas que atomizam o derradeiro instante para, em seguida, renascer primeiro. Blue gardenia.

Nessa insignificância irreal, o momento se revela fundamental para as germinações e para o curso das águas que derivam próximas e para aquelas que flutuam distantes e refletidamente caladas numa saída em beco que (ir)rompe o passado e o futuro, além de denotar singela e discretamente a reflexão calada. Afinal, a vida passa, como as águas do rio e do mar vão e voltam, numa aspiral que curiosamente se completa e se complementa com outras flutuações profundas. E assim vinhas. Simplesmente.



Recordo o passado inteiro
E as voltas que o mundo dá
Meu limão, meu limoeiro
Meu pé de jacarandá
[ Ciclo, canção composta por Caetano Veloso e gravada pela irmã Maria Bethânia no LP homônimo lançado em 1983 (Polygram-atual Universal Music) ] 

   

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Viol(ares)

Eu não ando só
Só ando em boa companhia
Com meu violão
Minha canção e a poesia
 [ Trecho da canção Para viver um grande amor, de Toquinho e Vinicius de Moraes,
gravada pela dupla em 1971 no LP "São demais os perigos desta vida" (RGE) e regravada em 1979 no LP "10 anos de Toquinho e Vinicius" (Polygram-atual Universal Music) ]


"O instante existe e a vida está completa", disse certa vez a voz lírica. Após noites e dias atravessados no vento, passos, ficos. Outros Oceanos. E aí, sem mais nem menos, o som e a asa ritmada chegam de outras terras para dizer daquele instante vital. As cordas e sua velha acústica tipicamente conhecidas. Reencontro bom. E a satisfação de rever um velho amigo tão desejado. Que um dia estarei mudo, sabe-se disso. O texto já nos confirmou. Mas até lá o sangue continua firme. Cheio de noites e dias de desmoronamentos, edificações, permanências e de desfazeres, daqueles coisas fugidias que, por vezes, alegram, por vezes entristecem, por vezes ficam, por vezes passam, portantos sãos.

Neste jogo de palavras e ideias, a subversão com a obra poética da jovem carioca tem uma intenção, assim como o seu Motivo. Uma costura sutil com os ditos e os ainda não-ditos deste blog, afinal o tempo é contínuo intervalo de retomadas e moças construções. E nada melhor para tornar conveniente uma razão própria do discurso, seja ele qual for. Neste instante específico, instaura-se o resgate de canções para dotar os ar de novos ares e a viola de novos violares. Depois do "mais nada", o violão e a voz. Até o Moonlight Serenade:


Elizeth Cardoso e Raphael Rabello (1ª parte)

Elizeth Cardoso e Raphael Rabello (2ª parte)     

Elizeth Cardoso e Raphael Rabello (3ª parte)

Espetáculo gravado pela TVE-Brasil em fevereiro de 1990
no Teatro João Caetano dentro do Projeto Seis e Meia-Rio de Janeiro
e veiculado após a morte da cantora Elizeth Cardoso, ocorrida em maio do mesmo ano 


PS: Este post vai para Ângela e Raphael Pinho. A eles, todas as violas.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

A morte por dengue e a corresponsabilidade na mídia

Aproveito a apresentação recente de um trabalho meu no 9º Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor), ocorrido aqui no Rio de Janeiro, para escrever o comentário desta semana sobre o forte apelo que a morte por dengue tem na mídia. Na verdade, doenças infecciosas de uma maneira geral chamam a atenção dos veículos de comunicação por representarem risco para as coletividades e estarem atrelados a uma causalidade específica, neste caso a infecção por vírus e bactérias.

Dentro dos critérios de noticiabilidade, a morte é simbólica pela imprevisibilidade e a atualidade do acontecimento, especialmente, se levarmos em conta os critérios que definem a relevância de determinado fato para se transformar em notícia. Na dengue, poderíamos acrescentar também a quantidade de pessoas e lugares envolvidos, a proximidade geográfica e o peso, sobretudo em situações de epidemia, quando a doença costuma se disseminar para um maior número de pessoas. levando a ocorrência de casos e mortes.


Um dos cartazes da campanha de combate à dengue de 2009 do Ministério da Saúde


Como risco em potencial, a epidemia traz consigo o medo, levando o poder público a enfatizar o discurso do combate; uma forma de conscientizar a população sobre o controle e a prevenção contra a proliferação do agente causador da doença, o mosquito Aedes aegypti. Nas coberturas jornalísticas sobre a dengue, esse tipo de discurso reforça a corresponsabilidade, delegando para o cidadão parte de suas obrigações. É evidente que o Estado não deve ficar só na adoção de medidas de prevenção.

No entanto, é preciso haver uma melhor adequação da postura do Estado a fim de não culpabilizar única e exclusivamente o cidadão pela situação epidemiológica de determinado local. Infelizmente, isso vem sendo observado com cada vez mais frequência nas falas do poder público e no próprio noticiário, deixando de lado outras questões macro, como o meio ambiente e as condições socioeconômicas, sobre as quais o Estado tem maior ingerência.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Memórias e saudades do Recife em carnis valles

As reflexões de hoje são livres poéticas e musicais. Um tanto nostálgicas, é verdade. Têm a ver com as lembranças e as imagens que guardamos especialmente dentro de nós a partir das experiências de vida vividas. Dos lugares, dos cheiros, dos "causos" e das pessoas que encontramos ao longo da trilha. Podem ser memórias bem particulares ou então memórias mais coletivas. Mas evidentemente memórias que marcam particularmente o indivíduo.

Fico aqui com o pensamento da autora Ecléa Bosi, que buscou desvendar em sua obra as narrativas dos velhos, que costumam guardar no tempo a testemunha viva do passado na "substância mesma da sua vida", e como a memória vai se formando a partir dessas lembranças. Uma reconstrução que recompõe no espírito o tempo.


- Caminhando pelas ruas antigas, ele cantarola versos do pernambucano Antônio Maria. Versos de saudade do cotidiano de outrora que fizeram - e fazem - certamente história. Versos de um frevo dolente que batem fundo no coração.




Ai, ai, saudade
Saudade tão grande
Saudade que eu sinto
Do Clube das Pás, do Vassouras
Passistas traçando tesouras
Nas ruas repletas de lá
Batidas de bumbo 
São maracatus retardados
Que voltam pra casa cansados
Com seus estandartes no ar
[ Frevo nº 2 do Recife, canção de Antônio Maria composta na década de 50 e resgatada por Maria Bethânia, numa gravação de 1969, ainda no começo da carreira dela ]


O cotidiano, neste caso, tem a ver com a carnis valles, mais precisamente com as brincadeiras do carnaval, uma festa milenar que foi significando e se ressignificando entre diversas culturas na busca por festejar os prazeres da carne. Poderia ser um outro cotidiano. Mas, como o acontecimento se singulariza conforme a força do fato ocorrido, o Carnaval acaba por ser único no mundo das lembranças pela quebra das regras sociais, permitida comumente nos dias de folia, tornando-o digno de história. Eis porque tão único.


- E eis porque, ausente no espaço, o tempo olha-o com curiosidade, buscando o mesmo amparo na ausência, tornando-os mais próximos que antes.


Tempos vivos de memória, que, como diz ainda Ecléa Bosi, "aparece como força subjetiva ao mesmo tempo profunda e ativa, latente e penetrante, oculta e invasora". Memória evocação de vivências. "Enquanto evoca ele está vivendo atualmente e com uma intensidade nova a sua experiência". Memória que conserva o espírito e aquilo que esse espírito faz de si mesmo. Mais do que apenas reviver imagens do passado.


- Desse encontro entre tempo e espaço, ele vai construindo a memória da sua vida, com sons e pensamentos que se compõem, decompõem e recompõem. E aí vai começando a compreender o sentido da saudade na memória ao som de outro frevo longínquo, desta vez do carioca Edu Lobo. Uma canção inspirada no saudoso Antônio Maria durante um inverno brabo em Paris de 1966 e cheia de "flashes e saudades das coisas do Recife", nos tempos em que Edu passava as férias escolares nas casas dos tios em Pernambuco. 




  Hoje não tem dança
Não tem mais menina de trança
Nem cheiro de lança no ar
Hoje não tem frevo
Tem gente que passa com medo
E na praça ninguém pra cantar
Me lembro tanto
E é tão grande a saudade
Que até parece verdade
Que o tempo ainda pode voltar
[ No Cordão da Saideira, música composta e gravada por Edu Lobo em 1967 e regravada pelo MPB4 em 1968 ]

Embora pareça "falta de", em meio a perdas de coisas já passadas, a saudade dialoga com a memória num ponto de encontro com o futuro. É a comparação entre o passado e o presente que permite ao sujeito ter um grau de satisfação, seja maior ou menor do que já foi e ainda é. Considerando o carnaval um conteúdo socialmente compartilhado, aproveito os escritos de Adriano do Nascimento e Paulo Menandro, professores de Psicologia Social da Universidade Federal do Espírito Santo (da mesma área de Ecléa Bosi), para concordar com o fato de que o saudoso funciona como "articulador de determinado discurso, e não como uma simples adjetivação possível desse mesmo discurso".

Seria o saudoso, então, um dos fios a revelar algo ainda mais profundo que um mero devir. É certo que ele não volta. Porém, reencontra permanentemente em nós nos objetos que nos rodeiam, e não apenas fortemente na velhice, mas nas várias épocas e contextos da vida. Paisagens sonoras de festas e acordes de carnavais e infância, da vida banalmente cotidiana, das sociabilidades que evocam afetos no adulto e no idoso.


- Hoje, a memória não se estabiliza mais na espacialidade das coletividades como antes. Então, ele meio que se perde. E desconfia. E busca uma aproximação metafórica para constituir um novo apoio para essa memória. E as memórias dele em meio a saudades.


As we grow older
The world becomes stranger,
The pattern more complicated
Of dead and living.
Not the intense moment
Isolated, with no before and after,
But a lifetime burning in every moment
And not the lifetime of one man only
But of old stones that can not be deciphrered.
[ Trecho de East Coker, poema de T. S. Eliot publicado em 1940 e que compõe um poema maior intitulado "Four Quartets" ]


Referências bibliográficas

BOSI, E. Memória e sociedade: lembranças de velhos. 15 ed., São Paulo: Companhia das Letras, 2009[1979].
BOSI, E. O tempo vivo da memória: ensaios de Psicologia Social. 2 ed., São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.
NASCIMENTO, A. R. A.; MENANDRO, P. R. M. Memória social e saudade: especificidades e possibilidades de articulação na análise psicossocial de recordações. Memorandum. Belo Horizonte: UFMG; Ribeirão Preto: USP, n. 8, abr. 2005. Disponível em: <http://www.fafich.ufmg.br/~memorandum/artigos08/artigo01.pdf>. Acesso em: 13 out. 2011.
NOGUEIRA JR., A. Projeto releituras. Disponível em: <http://www.releituras.com/antoniomaria_bio.asp>. Acesso em: 14 out. 2011.
SITE OFICIAL EDU LOBO. Disponível em: <http://www.edulobo.com.br/site/>. Acesso em: 14 out. 2011.
WIKIPÉDIA. Desenvolvido pela Wikimedia Foundation. Apresenta conteúdo enciclopédico. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Carnaval>. Acesso em: 14 out. 2011.

        

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

No tempo em que...

Vez por outra, sempre me vem à cabeça o verbo "parecer" como constitutivo da nossa sociedade, especialmente se pensarmos no fenômeno da medicalização. Já disse a médica e historiadora das ciências francesa Anne Marie Moulin: "O exibicionismo da doença não é mais admissível, reduzido pelo ideal de decência. O corpo é o lugar onde a pessoa deve esforçar-se para parecer que vai bem de saúde”.

É justamente nesse “parecer” que a medicalização se insere como um fenômeno intrínseco à contemporaneidade. A partir do momento em que a saúde se torna mais um “dever” que um “direito” de estar bem, o consumo de medicamentos e a normatização do cuidado com a saúde caracterizam-se como aspectos da medicalização, que não só faz dos remédios artigos de necessidade básica do homem, mas também cria padrões “saudáveis” em prol de uma vida teoricamente “livre” dos riscos que tanto afligem o ser humano.

Bem, não quero escrever muito esta semana. Medicalização terá um post à parte. Por ora, trago uma canção do mestre Gilberto Gil que fala de um assunto aparentemente sem sentido, mas que, a meu ver, tem total sentido com o que escrevo: a aceitação calma e tranquila da morte. Nada mais simples e difícil ao mesmo tempo para uma sociedade que deseja cada vez mais e a todo custo a vida eterna. Sem querer parecer mórbido, eu os convido a escutar a canção composta pelo Gil em meados da década de 70 e a buscar refletir sobre a beleza dos versos no contexto da saúde-doença, sabendo que a morte é algo que também faz parte da vida. Então, que saibamos amar a morte na mesma medida em que buscamos amar a vida, sem parecer absolutamente nada. Apenas ser e estar...


Se a morte faz parte da vida
E se vale a pena viver
Então morrer vale a pena
Se a gente teve o tempo para crescer

Crescer para viver de fato
O ato de amar e sofrer
Se a gente teve esse tempo
Então vale a pena morrer
[Então vale a pena, música composta por Gilberto Gil e gravada pela cantora Simone em 1978 no seu LP "Cigarra" (gravadora EMI-Odeon)]