Comunicação, informação e cidadania: tecendo saberes na saúde é o nome do seminário que minha turma de doutorandos está organizando para os próximos dias 14 e 15 de junho na Fiocruz. A iniciativa surgiu a partir de uma demanda da disciplina "Seminários Avançados de Pesquisa I". A sugestão inicialmente era outra: cada aluno organizar separadamente uma palestra que tivesse a ver com seu projeto de pesquisa. Mas, aproveitando o próprio nome do evento que criamos depois, sugerimos unir interesses teóricos comuns entre os colegas para construir uma proposta mais ampla
Decidimos então criar três mesas temáticas que buscam refletir sobre a construção social da relação saúde-doença, a qualidade da informação para tomada de decisões em saúde e as tecnologias de comunicação e informação na consolidação da cidadania. A proposta é que o evento seja um espaço de aproximações dos discentes, com base em estudos atuais de pesquisadores do campo. Por isso, especialistas de dentro e fora da Fiocruz foram convidados para discutir sobre questões teóricas específicas a esses eixos. O debate será enriquecido com a participação de professores do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (ICICT-Fiocruz).
No fundo, a intenção do seminário é buscar vivenciar um pouco a interdisciplinaridade. Tão decantado na teoria, esse conceito revela-se difícil e complexo de se vivenciar na prática pela necessidade que se coloca de construir um saber solidário na troca de informações, conhecimentos e experiências entre sujeitos de determinado campo científico. "Só há interdisciplinaridade se somos capaz de partilhar o nosso pequeno domínio do saber, se temos coragem necessária de abandonar o conforto da nossa linguagem técnica e para nos aventurarmos num domínio que é de todos de que ninguém é proprietário exclusivo", defende a filósofa portuguesa Olga Pombo no artigo Interdisciplinaridade e integração dos saberes (http://revista.ibict.br/liinc/index.php/liinc/article/viewFile/186/103).
Embora seja uma noção comum ao campo acadêmico, a interdisciplinaridade poderia ser pensada em outras esferas também, fora da área dita "douta". Afinal, nossos saberes são construídos cotidianamente nas trocas com outras pessoas, do vendedor do armazém da esquina ao pós-doutor com décadas de estudo.
Bem, não vou desenvolver essa discussão agora, pois a intenção é apenas divulgar o seminário. Para que se interessa pela comunicação e informação em saúde e estiver pelo Rio de Janeiro, fica a dica. Para saber mais sobre o evento, basta acessar o site do ICICT.
sexta-feira, 1 de junho de 2012
sexta-feira, 4 de maio de 2012
Millôr e suas ironias com o passado
A memória é realmente um assunto vasto e super interessante, ainda mais quando tem a ver com a questão do discurso. Segundo o linguista francês Michel Pêcheux (1938-1983), a memória discursiva se insere em práticas sociais e se caracteriza pelo fato de um já-dito sustentar as relações de sentido entre os discursos. Um espaço móvel de deslocamentos, retomadas e conflitos de regularização da materialidade discursiva. Dessa maneira, a memória seria sempre perturbada a cada acontecimento discursivo novo, desmanchando a regularização existente e fazendo surgir um novo sistema entre elementos novos e antigos.
Em termos de ironia, a memória costuma estar sempre presente para subverter a paráfrase feita. A ideia é justamente retomar palavras já ditas há pouco ou há muito tempo para redizer o contrário ou completamente diferente do sentido primeiro. Comecei a pensar nisso recentemente, depois de tomar contato com os trabalhos produzidos pelo humorista e jornalista carioca Millôr Fernandes (1923-2012) para a revista Veja na primeira metade dos anos 70. Um deles é este abaixo, datado de 14 novembro de 1973:
No exemplo acima, é possível observar não só o humor peculiar do Millôr de criticar as coisas como também o sentido implícito no passado. Semanticamente, o termo "pré-histórico" nos remete a um período anterior aos documentos escritos; um tempo findo bastante longínquo de se imaginar, sobretudo quando os seres representados eram animais hoje extintos. Porém, o que poderia parecer estritamente negativo - afinal o passado sempre é visto como algo velho e ultrapassado - acaba tomando um sentido cômico. Mesmo assim, para que a noção ressignificada faça sentido em nós, é preciso que tenhamos em mente o significado original. Caso contrário, o sarcasmo não fará sentido algum ou, ao menos, não produzirá o efeito desejado. De minha parte, tenho passado os últimos meses de pesquisa descobrindo transversalmente a genialidade do Millôr e constatado cada vez mais o quanto o seu humor faz falta. Salve, querido Millôr! E abaixo aos reais monstros pré-históricos!!
Em termos de ironia, a memória costuma estar sempre presente para subverter a paráfrase feita. A ideia é justamente retomar palavras já ditas há pouco ou há muito tempo para redizer o contrário ou completamente diferente do sentido primeiro. Comecei a pensar nisso recentemente, depois de tomar contato com os trabalhos produzidos pelo humorista e jornalista carioca Millôr Fernandes (1923-2012) para a revista Veja na primeira metade dos anos 70. Um deles é este abaixo, datado de 14 novembro de 1973:
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| Produção do humorista Millôr Fernandes publicada na edição de 14 de novembro de 1973 de Veja |
No exemplo acima, é possível observar não só o humor peculiar do Millôr de criticar as coisas como também o sentido implícito no passado. Semanticamente, o termo "pré-histórico" nos remete a um período anterior aos documentos escritos; um tempo findo bastante longínquo de se imaginar, sobretudo quando os seres representados eram animais hoje extintos. Porém, o que poderia parecer estritamente negativo - afinal o passado sempre é visto como algo velho e ultrapassado - acaba tomando um sentido cômico. Mesmo assim, para que a noção ressignificada faça sentido em nós, é preciso que tenhamos em mente o significado original. Caso contrário, o sarcasmo não fará sentido algum ou, ao menos, não produzirá o efeito desejado. De minha parte, tenho passado os últimos meses de pesquisa descobrindo transversalmente a genialidade do Millôr e constatado cada vez mais o quanto o seu humor faz falta. Salve, querido Millôr! E abaixo aos reais monstros pré-históricos!!
sexta-feira, 13 de abril de 2012
Vestígios de memória
Há pequenas impressões finas como um cabelo e que,
uma vez desfeitas na nossa mente, não sabemos aonde
elas nos podem levar. Hibernam, por assim dizer, nalgum
circuito da memória e um dia saltam para fora, como se
acabassem de ser recebidos. Só que, por efeito desse
período de gestação profunda, alimentada ao calor
do sangue e das aquisições da experiência temperada
de cálcio e de ferro e de nitratos, elas aparecem já
no estado adulto e prontas a procriar. Porque as
memórias procriam como se fossem pessoas vivas.
Trecho do romance Antes do degelo (2004 - Guimarães Editores),
de Agustina Bessa-Luís, pseudônimo literário da escritora
portuguesa Maria Agustina Ferreira Teixeira Bessa
A memória é realmente um assunto que rende análises diversas e profundas. Consciência inserida no tempo, como diria o querido poeta português Fernando Pessoa, ela representa a faculdade humana de conservar ou retomar ideias ou imagens. Na mitologia grega, a memória (Mnemosýne) era uma das deusas da primeira geração, com a capacidade de preservar tudo o que ocorria ao longo do tempo, além de mãe das nove Musas, que tinham o poder tanto de revelar quanto de fazer esquecer. Eis, então, a síntese da memória: lembrança e esquecimento a atuarem como forças complementares.
Na nossa vida, seja ela individual ou social, a memória sempre está presente, dando significado, de certo modo, à existência. É a partir das relações feitas com o passado que o presente vai sendo melhor compreendido. Não quero dizer com isso que vivemos em função unicamente do pretérito, mas ele tem sua importância vital, especialmente quando tratamos do discurso jornalístico, que se retroalimenta de analogias com os fatos já ocorridos anteriormente para dar sustentação aos seus enunciados, mesmo que seja só para negá-los.
Agora em 2012, a cobertura dispensada pela imprensa aos 30 anos da morte da cantora Elis Regina (1945-1982) foi, ou melhor, está sendo, algo realmente impressionante. Até 19 de janeiro, dia em que se celebra o falecimento da artista, contabilizei 51 matérias publicadas em jornais e outras quatro matérias em revistas, das quais uma de um semanário de Portugal. Totalizando com o restante dos textos que saíram depois dessa data, foram 98 matérias em periódicos e 12 em revistas. Isso sem contar com as matérias veiculadas em televisões e sites, além dos programas de rádio, que perfazem uma quantidade bem maior de inserções sobre Elis na mídia.
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| Esquecimento e lembrança se unem para significar no tempo a memória sobre Elis |
Essa constatação torna-se ainda mais interessante se voltarmos ao passado. Nos 10 anos da morte de Elis, os meios de comunicação pareciam não ter o mesmo interesse em falar da cantora como hoje em dia. Naquela época, a memória parecia estar mais próxima do esquecimento. As manchetes da matéria de capa do Caderno 2 do Estado de São de Paulo no dia 19 de janeiro de 1992 ("Os dez anos em que o Brasil esqueceu Elis") e do texto publicado na editoria Ilustrada, da Folha de São Paulo, na mesma data ("Morte de Elis é mal lembrada dez anos depois") exemplifica um pouco do discurso em voga na época. Naquele mesmo ano, a própria biógrafa de Elis, a jornalista Regina Echeverria, declarava à imprensa que Elis estava esquecida, ao constatar uma diminuição nos eventos em nome da cantora, principalmente cinco anos após a sua morte.
Vinte anos depois, a situação se inverte e o esquecimento dá lugar a uma lembrança mais viva do que nunca. Manchetes publicadas este ano não faltam para indicar essa mudança:
- "Elis na parede da memória" (Pampulha - MG - 7 a 13 jan. 2012);
- "Memória é reforçada com shows, discos e exposição" (Folha de São Paulo - SP - 9 jan. 2012);
- "Elis eterna" (Gazeta de Alagoas - AL - 19 jan. 2012);
- "A voz que não morre" (O Popular - GO - 19 jan. 2012);
- "Elis revive" (Jornal de Santa Catarina - SC - 19 jan. 2012);
- "A voz inesquecível" (Diario de Pernambuco - PE - 29 fev. 2012).
Esse avivamento da memória tem a ver não só com o mito criado em torno de Elis ainda em vida e enfatizado após a morte precoce, mas também com as homenagens promovidas em seu nome. A mais recente, e também a mais 'robusta', partiu da família dela, com o anúncio de shows de Maria Rita (filha caçula de Elis), realização de exposição itinerante por algumas capitais brasileiras, documentário e lançamento de livro novo contando a trajetória da cantora. O anúncio do megaprojeto, ainda em 2011, fez com que a mídia ficasse atenta para isso, intensificando o noticiário.
Artisticamente, acredito que Elis esteja inserida no rol dos artistas que gozam de particular prestígio, capaz de "manter vivo o interesse que despertam" e "levar à busca do aprofundamento e da renovação do conhecimento", como diria o professor assistente doutor da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp) Wilton Carlos da Silva (2009). Pensando nele, as narrativas jornalísticas contribuiriam para o chamado "biografismo" de Elis, bem como uma forma de visualizar nitidamente o papel da memória na contemporaneidade.
Traçando um paralelo entre os campos da cultura e da saúde, poderíamos pensar também num biografismo sobre as doenças? Guardando as devidas singularidades e contextos diversos, acredito que sim. Falo com pouca propriedade, afinal seria necessário um aprofundamento sobre o que vem a ser biografismo nos estudos de memória. Porém, se observarmos o noticiário acerca da pandemia recente da gripe A(H1N1) em 2009, que trouxe à tona a memória da gripe espanhola do início do século XX, vemos que algumas doenças epidêmicas - encaradas quase que como "entes" - dialogam com os grupos sociais aos quais estão inseridos e são privilegiadas conforme o contexto, alterando a própria memória social. O que foi ontem pode não ser o mesmo hoje. Da mesma maneira, o que é hoje pode não ser o mesmo amanhã. Resta saber se o que foi ontem não será o mesmo amanhã. Bem, só o tempo é que vai nos dizer. Por hora, apenas a música é quem diz.
[ Trecho do show "Transversal do Tempo", apresentado por Elis Regina e César & Cia no Teatro Villaret, em Lisboa (Portugal), no ano de 1978. A música que aparece no vídeo é Nada será como antes, composta pela dupla Milton Nascimento e Ronaldo Bastos e gravada pela cantora em 1972 no LP "Elis" (Philips-atual Universal Music) ]
Referências bibliográficas
- BRITO, P. Elis na parede da memória. In: Pampulha, Belo Horizonte, 7 a 13 jan. 2012. Reportagem, p. 3.
- CONTENTE, R. Nunca houve outra Elis. In: Jornal do Commercio, Recife, 19 jan. 2012. Caderno C, p. 4.
- ECHEVERRIA, R. Furacão Elis. 2. ed. rev. e atual. São Paulo: Globo, 1994.
- FARIA, A. de; MENDES, T. Elis eterna. In. Gazeta de Alagoas, Maceió, 19 jan. 2012. Caderno B, p. B1.
- GARCIA, L. L. Os dez anos em que o Brasil esqueceu Elis. In: Estado de São Paulo, São Paulo, 19 jan. 1992. Caderno 2, p. 1.
- GIRON, L. A. Morte de Elis é mal lembrada dez anos depois. In: Folha de São Paulo, São Paulo, 19 jan. 1992. Ilustrada, p. 5.
- IENSEN, J. Elis revive. In: Jornal de Santa Catarina, Blumenau, 19 jan. 2012. Lazer, p. 1,4 e 5.
- MAGIOLI, A. A voz inesquecível. In: Diario de Pernambuco, Recife, 29 fev. 2012. Viver, p. E6.
- PRETO, M. Memória é reforçada com shows, discos e exposição. In: Folha de São Paulo, São Paulo, 9 jan. 2012. Ilustrada, p. E1.
- QUEIROZ, R. A voz que não morre. In: O Popular, Goiânia, 19 jan. 2012. Magazine, p.1.
- SILVA, W. C. L. da. Biografias: construção e reconstrução da memória. In: Fronteiras - Revista de História, v. 11, n. 20, jul./dez. 2009. p. 151-66.
sexta-feira, 30 de março de 2012
Perspectivas temporais para a doença
As doenças representam uma experiência privada e pública, ao mesmo tempo, por afetar o organismo do indivíduo, bem como a sociedade como um todo. A dimensão biológica, base da biomedicina, torna-se então insuficiente para compreender o significado da moléstia, sendo necessária também uma reflexão sobre a dimensão sociocultural, igualmente importante para o entendimento do que vem a ser doença. O campo jornalístico, arena à qual eu faço parte e me interesso em estudar, integra essa segunda dimensão, produzindo sentidos. Embora não seja a única instância, a mídia é sempre importante de ser considerada nos estudos sobre saúde.
Essa importância não vem de hoje. Há décadas, o poder público se vale dos meios de comunicação para divulgar as suas ações. A criação do Serviço de Propaganda e Educação Sanitária, em 1923, dentro do Departamento Nacional de Saúde Pública (o equivalente hoje ao Ministério da Saúde), é um exemplo dessa preocupação governamental quase secular em comunicar suas iniciativas para a população num espírito de "pedagogia civilizatória", segundo analisa a cientista social Janine Cardoso, numa entrevista à Revista Radis em dezembro de 2010 (http://www.ensp.fiocruz.br/radis/revista-radis/100/reportagens/entrevista-janine-cardoso-%E2%80%9Cnovo-campo-tem-marca-do-processo-da-reforma) e no livro Comunicação e Saúde, escrito em parceria com a professora Inesita Soares de Araújo.
Nas últimas décadas, os meios de comunicação vêm adquirindo uma importância cada vez maior na produção de sentidos, contribuindo para tornar a doença uma experiência cada vez mais pública e para dar "vida" aos acontecimentos do passado e do presente, alçando-os à condição de históricos, como diz a pesquisadora Ana Paula Goulart Ribeiro, comunicóloga e historiadora de formação. Dos anos 80 para cá, enfermidades como a Aids, a dengue e a gripe A(H1N1) ganharam uma expressão forte nos media, tornando-se notícia.
Pensando no processo de agendamento, a mídia atuaria na seleção sob dois aspectos: tanto na escolha dos assuntos a serem publicizados quanto no enquadramento desses assuntos selecionados. Para falar sobre determinado tema, não seria possível falar de qualquer jeito, mas de determinado jeito, salientando alguns elementos específicos na interpretação dos acontecimentos. Do ponto de vista imagético, por exemplo, a ideia que se tinha da Aids era dos doentes com condição física fragilizada, caminhando em direção à morte. Já com relação à gripe suína, a principal imagem que vem às nossas mentes através da imprensa são as pessoas usando máscara para evitar a contaminação pelo vírus.
A saliência conferida a determinados elementos de um assunto no trabalho jornalístico está presente na Análise do Discurso, já que os acontecimentos são enunciados a partir de um determinado viés. O jogo existente na definição dos diferentes enquadramentos das enfermidade revela como esses moldes são utilizados para interpretar a realidade, sendo importante para construção de uma concepção de doença, bem como para entendermos as estratégias adotadas pelos veículos de comunicação.
Essa importância não vem de hoje. Há décadas, o poder público se vale dos meios de comunicação para divulgar as suas ações. A criação do Serviço de Propaganda e Educação Sanitária, em 1923, dentro do Departamento Nacional de Saúde Pública (o equivalente hoje ao Ministério da Saúde), é um exemplo dessa preocupação governamental quase secular em comunicar suas iniciativas para a população num espírito de "pedagogia civilizatória", segundo analisa a cientista social Janine Cardoso, numa entrevista à Revista Radis em dezembro de 2010 (http://www.ensp.fiocruz.br/radis/revista-radis/100/reportagens/entrevista-janine-cardoso-%E2%80%9Cnovo-campo-tem-marca-do-processo-da-reforma) e no livro Comunicação e Saúde, escrito em parceria com a professora Inesita Soares de Araújo.
Nas últimas décadas, os meios de comunicação vêm adquirindo uma importância cada vez maior na produção de sentidos, contribuindo para tornar a doença uma experiência cada vez mais pública e para dar "vida" aos acontecimentos do passado e do presente, alçando-os à condição de históricos, como diz a pesquisadora Ana Paula Goulart Ribeiro, comunicóloga e historiadora de formação. Dos anos 80 para cá, enfermidades como a Aids, a dengue e a gripe A(H1N1) ganharam uma expressão forte nos media, tornando-se notícia.
Pensando no processo de agendamento, a mídia atuaria na seleção sob dois aspectos: tanto na escolha dos assuntos a serem publicizados quanto no enquadramento desses assuntos selecionados. Para falar sobre determinado tema, não seria possível falar de qualquer jeito, mas de determinado jeito, salientando alguns elementos específicos na interpretação dos acontecimentos. Do ponto de vista imagético, por exemplo, a ideia que se tinha da Aids era dos doentes com condição física fragilizada, caminhando em direção à morte. Já com relação à gripe suína, a principal imagem que vem às nossas mentes através da imprensa são as pessoas usando máscara para evitar a contaminação pelo vírus.
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| A imagem dos doentes com máscaras foi bastante vista na pandemia da gripe A(H1N1) |
A saliência conferida a determinados elementos de um assunto no trabalho jornalístico está presente na Análise do Discurso, já que os acontecimentos são enunciados a partir de um determinado viés. O jogo existente na definição dos diferentes enquadramentos das enfermidade revela como esses moldes são utilizados para interpretar a realidade, sendo importante para construção de uma concepção de doença, bem como para entendermos as estratégias adotadas pelos veículos de comunicação.
sexta-feira, 16 de março de 2012
Nova estação
Ser como um rio que deflui
Silencioso dentro da noite
Não temer as trevas da noite
Se há estrelas nos céus, refleti-las
E se os céus se pejam de nuvens
Como o rio as nuvens são água
Refleti-las também sem mágoa
Nas profundidas tranquilas
[ O Rio, poema escrito por Manuel Bandeira ]
Mesmo que pareça o mais do mesmo, definitivamente não é. Talvez o aparentemente irrepreensível. Mas, no fundo, a erupção intranquilamente impossível. Como um rebento que brota das pedras, no seco sol. Novas voltas, outras novas que vêm de longe e de perto, bem dentro aqui. Reaparecer sangra lágrimas, gomos, salivas e seivas. Dói. Pulso vital. Sequências que se sucedem regularmente de forma irregular. Como partículas que atomizam o derradeiro instante para, em seguida, renascer primeiro. Blue gardenia.
Nessa insignificância irreal, o momento se revela fundamental para as germinações e para o curso das águas que derivam próximas e para aquelas que flutuam distantes e refletidamente caladas numa saída em beco que (ir)rompe o passado e o futuro, além de denotar singela e discretamente a reflexão calada. Afinal, a vida passa, como as águas do rio e do mar vão e voltam, numa aspiral que curiosamente se completa e se complementa com outras flutuações profundas. E assim vinhas. Simplesmente.
Recordo o passado inteiro
E as voltas que o mundo dá
Meu limão, meu limoeiro
Meu pé de jacarandá
[ Ciclo, canção composta por Caetano Veloso e gravada pela irmã Maria Bethânia no LP homônimo lançado em 1983 (Polygram-atual Universal Music) ]
[ Ciclo, canção composta por Caetano Veloso e gravada pela irmã Maria Bethânia no LP homônimo lançado em 1983 (Polygram-atual Universal Music) ]
sexta-feira, 25 de novembro de 2011
Viol(ares)
Eu não ando só
Só ando em boa companhia
Com meu violão
Minha canção e a poesia
[ Trecho da canção Para viver um grande amor, de Toquinho e Vinicius de Moraes,
gravada pela dupla em 1971 no LP "São demais os perigos desta vida" (RGE) e regravada em 1979 no LP "10 anos de Toquinho e Vinicius" (Polygram-atual Universal Music) ]
"O instante existe e a vida está completa", disse certa vez a voz lírica. Após noites e dias atravessados no vento, passos, ficos. Outros Oceanos. E aí, sem mais nem menos, o som e a asa ritmada chegam de outras terras para dizer daquele instante vital. As cordas e sua velha acústica tipicamente conhecidas. Reencontro bom. E a satisfação de rever um velho amigo tão desejado. Que um dia estarei mudo, sabe-se disso. O texto já nos confirmou. Mas até lá o sangue continua firme. Cheio de noites e dias de desmoronamentos, edificações, permanências e de desfazeres, daqueles coisas fugidias que, por vezes, alegram, por vezes entristecem, por vezes ficam, por vezes passam, portantos sãos.
Neste jogo de palavras e ideias, a subversão com a obra poética da jovem carioca tem uma intenção, assim como o seu Motivo. Uma costura sutil com os ditos e os ainda não-ditos deste blog, afinal o tempo é contínuo intervalo de retomadas e moças construções. E nada melhor para tornar conveniente uma razão própria do discurso, seja ele qual for. Neste instante específico, instaura-se o resgate de canções para dotar os ar de novos ares e a viola de novos violares. Depois do "mais nada", o violão e a voz. Até o Moonlight Serenade:
Elizeth Cardoso e Raphael Rabello (1ª parte)
Elizeth Cardoso e Raphael Rabello (2ª parte)
Elizeth Cardoso e Raphael Rabello (3ª parte)
Espetáculo gravado pela TVE-Brasil em fevereiro de 1990
no Teatro João Caetano dentro do Projeto Seis e Meia-Rio de Janeiro
e veiculado após a morte da cantora Elizeth Cardoso, ocorrida em maio do mesmo ano
PS: Este post vai para Ângela e Raphael Pinho. A eles, todas as violas.
sexta-feira, 11 de novembro de 2011
A morte por dengue e a corresponsabilidade na mídia
Aproveito a apresentação recente de um trabalho meu no 9º Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor), ocorrido aqui no Rio de Janeiro, para escrever o comentário desta semana sobre o forte apelo que a morte por dengue tem na mídia. Na verdade, doenças infecciosas de uma maneira geral chamam a atenção dos veículos de comunicação por representarem risco para as coletividades e estarem atrelados a uma causalidade específica, neste caso a infecção por vírus e bactérias.
Dentro dos critérios de noticiabilidade, a morte é simbólica pela imprevisibilidade e a atualidade do acontecimento, especialmente, se levarmos em conta os critérios que definem a relevância de determinado fato para se transformar em notícia. Na dengue, poderíamos acrescentar também a quantidade de pessoas e lugares envolvidos, a proximidade geográfica e o peso, sobretudo em situações de epidemia, quando a doença costuma se disseminar para um maior número de pessoas. levando a ocorrência de casos e mortes.
Dentro dos critérios de noticiabilidade, a morte é simbólica pela imprevisibilidade e a atualidade do acontecimento, especialmente, se levarmos em conta os critérios que definem a relevância de determinado fato para se transformar em notícia. Na dengue, poderíamos acrescentar também a quantidade de pessoas e lugares envolvidos, a proximidade geográfica e o peso, sobretudo em situações de epidemia, quando a doença costuma se disseminar para um maior número de pessoas. levando a ocorrência de casos e mortes.
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| Um dos cartazes da campanha de combate à dengue de 2009 do Ministério da Saúde |
Como risco em potencial, a epidemia traz consigo o medo, levando o poder público a enfatizar o discurso do combate; uma forma de conscientizar a população sobre o controle e a prevenção contra a proliferação do agente causador da doença, o mosquito Aedes aegypti. Nas coberturas jornalísticas sobre a dengue, esse tipo de discurso reforça a corresponsabilidade, delegando para o cidadão parte de suas obrigações. É evidente que o Estado não deve ficar só na adoção de medidas de prevenção.
No entanto, é preciso haver uma melhor adequação da postura do Estado a fim de não culpabilizar única e exclusivamente o cidadão pela situação epidemiológica de determinado local. Infelizmente, isso vem sendo observado com cada vez mais frequência nas falas do poder público e no próprio noticiário, deixando de lado outras questões macro, como o meio ambiente e as condições socioeconômicas, sobre as quais o Estado tem maior ingerência.
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