quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Gonzagão e o lugar das efemérides para a memória


"Se é dengo a roer
Que tu quer recordar
Tamos aí com meu fole
Pra te ajudar"
Humberto Teixeira em Saudade Dóicanção
gravada por Luiz Gonzaga em 1976 no LP
Capim Novo (RCA-atual Sony Music)

Comemoração de um fato geralmente auspicioso, a efeméride é uma forma de prestarmos atenção ao tempo e rememorarmos acontecimentos do passado, muitas vezes envolvendo figuras públicas. O recurso é bastante utilizado no jornalismo, assim como os obituários e os perfis biográficos, transformando a imprensa numa instância didática e, por isso mesmo, útil, segundo afirma Alberto Dines. No seu artigo "Modo de usar", publicado no site do Observatório da Imprensa, ele informa que esse tipo de pauta foi introduzido no jornalismo brasileiro pelo jornalista e cronista esportivo Armando Nogueira no Jornal do Brasil, configurando-se num "álbum de recortes, agenda (do latim agere, agir), organização de ações, lembretes". Nesse sentido, a efeméride é um convite à memória.

Se o início de 2012 foi marcado pela lembrança na mídia sobre os 30 anos da morte da cantora Elis Regina (1945-1982), o final deste ano está sendo voltado ao centenário de nascimento do sanfoneiro, cantor e compositor Luiz Gonzaga (1912-1989). Famoso por popularizar ritmos tipicamente nordestinos, Gonzagão recebeu o título de "Rei do Baião", sendo considerado hoje um dos ícones da música brasileira de todos os tempos. Asa Branca, composta em parceria com Humberto Teixeira, é a sua canção mais emblemática. A música é considerada um hino do Nordeste por retratar a seca que castiga animais e homens que lá moram, obrigando-lhes a migrar com saudade no coração.

Assim como com Elis, Gonzagão vem recebendo várias homenagens pelo Brasil. Uma das mais importantes foi o filme Gonzaga - De Pai para Filho. Dirigido por Breno Silveira, o longa narra a relação de amor e conflito entre o sanfoneiro e o seu filho, o compositor Gonzaguinha (1945-1991). A trajetória do Rei do Baião é contada desde a fuga da cidade natal, Exu, no sertão de Pernambuco, até a turnê "Vida de Viajante", em 1981, que marcou as pazes com o seu filho. Lançado no dia 26 de outubro, De Pai para Filho já ultrapassou a marca de mais 1 milhão de espectadores em pouco menos de um mês.


Trailer do filme Gonzaga - De Pai para Filho (Brasil, 2012)


Para além de resgatar uma história importante da nossa música brasileira, a cobertura midiática a respeito de Gonzagão é revelador do lugar da memória. Embora esse recurso jornalístico seja antigo, como dissemos, ele adquiriu um valor diferenciado na atualidade, contribuindo por legitimar e enquadrar um certo tipo de memória, sobretudo no contexto de midiatização em que vivemos, marcado pelo predomínio das mediações e das interações baseadas nos meios de comunicação. Ocupando um lugar privilegiado na narrativa de fatos históricos, a mídia vulgariza a própria narrativa histórica, dotando a trajetória de vida de personalidades de uma singularidade. Através da mídia, essa trajetória existe e, a partir do presente, o passado é reinterpretado, analisa Sacramento (2009), ao tratar dos discursos midiáticos a respeito da morte do escritor Dias Gomes, ocorrida em 1999. 

Poderíamos dizer, assim, que os meios se converteriam em gestores da memória. A própria midiagrafia, que revaloriza o discurso biográfico, de acordo com Sodré (2004) e Sacramento (2009), é uma maneira de gerenciar essa memória, com vistas a evitar o esquecimento e também a conferir credibilidade à própria mídia, a partir do momento em que ela reconstrói um outro "real" através das suas práticas discursivas e a forma como ela enquadra o passado no presente. Dessa forma, diz Sacramento, pesquisar sobre a personalidade midiagrafada "é tanto analisar como a mídia escreve uma história quanto mostrar como a mídia se inscreve na história" (p. 136). Seria uma forma de refletir sobre algo mais profundo.

Uma das constatações é que a construção narrativa dá uma noção aparente de uma unidade identitária ao midiagrafado. "Há, portanto, uma idealização da vida do sujeito biografado como um 'desde sempre': um ser dotado de uma característica única e perene que marcou todas as suas ações ao longo da vida" (SACRAMENTO, 2009, p. 148, grifo do autor). A memória seria, então, um princípio organizador a conferir sentido à trajetória de vida do sujeito, através dos acontecimentos narrados, permitindo uma visão retrospectiva convenientemente disposta de uma trajetória e de uma biografia. Nesse sentido, a memória se associaria à noção de projeto (vista como um procedimento organizado para atingir determinado fim) para "dar significado à vida e às ações dos indivíduos, em outros termos, à própria identidade" (VELHO, 1988, p. 101, grifos do autor); uma identidade social que daria conta, de certo modo, das experiências fragmentadoras do indivíduo.

Não quero me alongar mais no comentário desta semana a fim de não complexificar demais o assunto. Já que tratamos de efemérides e memória em relação a Gonzagão, nada melhor que acionar a própria mídia para contar a história do nosso midiagrafado. Imagens, depoimentos, documentos, fotos e músicas se unem para reconstruir determinados fatos relativos considerados relevantes hoje em dia na trajetória do "Rei do Baião" sob uma ótica bem particular nas comemorações dos seus 100 anos de vida.


Centenário Luiz Gonzaga - Programa Fantástico (TV Globo, edição 27 set. 2012)


"Falta ver, se é que falta, o que serei:
Um rosto recomposto antes do fim,
Um canto de batráquio, mesmo rouco,
Uma vida que corra assim-assim"
José Saramago em Passado, Presente, Futuro, poema
publicado em 1966 no livro Os Poemas Possíveis (Portugália Editora)


Referências bibliográficas
  • DINES, Alberto. Modos de usar. In: Observatório da Imprensa, edição 313, 2005. Disponível em: <http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/modo-de-usar>. Acesso em: 14 dez. 2012.
  • SACRAMENTO, Igor. Memórias póstumas de Dias Gomes. In: Intexto, Porto Alegre: UFRGS, v. 1, n. 20, p. 133-150, janeiro/junho 2009.
  • SODRÉ, Muniz. Prefácio. In: PENA, Felipe. Teoria da biografia sem fim. Rio de Janeiro: Editora Mauad, 2004.
  • VELHO, G. Memória, identidade e projeto: uma visão antropológica. In: Revista Tempo Brasileiro, n. 95, Rio de Janeiro, out-dez, 1988.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

O início, o fim e o meio


Me vejo o tempo todo começar de novo
E ser e ter tudo pela frente
Abril, composição de Adriana Calcanhoto gravada por
Leila Pinheiro, em 1998, no CD "Na Ponta da Língua" (EMI Music)


Na sucessão regular de eventos ou fenômenos, a sequência construída aponta para o meio, o fim e o início de um ciclo, sob diferentes perspectivas. Os olhos se habituam à cidade. Ela torna-se mais familiar e integra-se ao rastro de recordações, numa visão estrangeira e radicada. O rio que passa no intermédio é também o Rio ribeira onde é possível atracar o barco, fincando raízes. É também o limite do espaço e o remate de uma fase. Fecho de composição e, ao mesmo tempo, preâmbulo. Singela (re)transform(ação).

Neste meio, neste fim e neste início, como em qualquer outra etapa da vida, há um caminho, e não uma pedra, ao contrário do que disse Drummond. Um caminho de direções a marcar e a seguir, um caminho de encontros e de despedidas. Vida de estação. Plataforma de muitas idas e vindas. E, assim, na série de acontecimentos que se segue, a ordem se estabelece e o processo continua, ininterruptas paisagens em todas as estações. Dentro e fora dos trens e em todos os sentidos. Tô chegando, tô partindo, tô ficando.





São só dois lados
da mesma viagem
O trem que chega
é o mesmo trem da partida
A hora do encontro
é também despedida
A plataforma desta estação
é a vida deste meu lugar
Encontros e Despedidas, canção de Milton Nascimento e Fernando Brandt
e gravada primeiro por Simone, em 1981, no álbum "Amar" (CBS-atual Sony Columbia), depois pelo próprio Milton, em 1985. no LP "Encontros e Despedidas (Barclay Polygram-atual Universal Music) e por Maria Rita, em 2003, em CD "Maria Rita" (Warner Music)



domingo, 28 de outubro de 2012

Matutanas


Quando eu estou sozinha no meu canto
Penso muito nas pessoas
Penso muito nos seus cantos
Penso o quanto foi difícil
Para cada um falar
E sinto o coração se confortar
E fico por um tempo - meio assim


Estar no entremeio e concretizar algo em fase de elaboração. Talvez esse seja o sentimento que melhor caiba no comentário desta semana. Tudo na cabeça ainda fluindo sem muita nitidez, apenas sensações no meio da estrada. Pequenos redemoinhos a espirar aqui e acolá no espaço de dentro. Por isso mesmo vem bem a calhar uma brincadeira neologística substantiva com a expressão matutar no título do post.

Bastante utilizado no Nordeste brasileiro, esse lindo verbo intransitivo (que não precisa de outro complemento para significar) deriva da palavra matuto, que quer dizer, em geral, alguém do mato, acanhado, desconfiado e até mesmo ignorante. Matutar, então, representa o ato de refletir, meditar, cogitar. "Parte do tempo esteve à janela, matutando", já escreveu Machado de Assis em Quincas Borba, ao tratar do personagem Rubião, ingênuo rapaz que se torna discípulo do filósofo que dá nome ao referido livro.


E penso em sentimentos meus
Penso em sentimentos
Quantos edifícios, quantas casas
Quanta gente dentro - como será...
Que sonhos terão
Será tudo em vão
Eu juro que não


Matutando sobre leituras que vêm mexendo comigo, desta vez, o pensador alemão Andreas Huyssen com o seu Passados presentes e sua análise a respeito da emergência da memória como uma das preocupações centrais da sociedade ocidental de hoje. Observado desde os anos 80 inicialmente na Europa e nos Estados Unidos, esse fenômeno sociocultural tirou de cena o futuro para colocar no lugar o passado como foco das atenções. Os projetos políticos e as ideologias de outrora caíram por terra, provocando uma nova lógica sensível do sujeito diante do mundo, juntamente com os avanços tecnológicos.

A obsessão contemporânea com o pretérito, que se visualiza numa difusão cada vez maior de práticas memorialísticas na cultura de modo geral, é consequência desse processo. Cultivar o passado significaria, em certa medida, uma forma de (re)afirmação do indivíduo frente a esse mundo. É claro que essa inferência é bem generalista e carece de maior aprofundamento. Por hora, comungo com a ideia do Huyssen (2001, p. 20), quando ele diz que o medo do esquecimento que acompanha a cultura da memória que vivenciamos atualmente é uma maneira de garantir a sobrevivência "em um mundo caracterizado por uma crescente instabilidade do tempo e pelo fracasso do espaço vivido".


E os morros vão ficando azuis
Sobre essa cidade
Sobre essa cidade
Eu já estou ficando pronta
Para viver a minha idadde
Para entender a liberdade
Para contar para os nossos filhos
Uma história de amor
E, até quem sabe, para fazer o amor
E é bem capaz da gente ser assim    


Diante da velocidade do tempo que se instaura e das próprias inovações técnicas que tornam o presente mais fugaz e até mais passado rapidamente, paro um pouco para matutar as imagens e os sons que passam pela janela. Não como Carolina, e sim como meteorológico observador. E aí nesse refletir, meio ignorante, meio tímido, meio cismático, meio profundo, vejo-me com uma música que tive a felicidade de escutar e conhecer ao vivo dias atrás no show Leila Pinheiro Canta Mulheres e admirar de prima. Foi essa canção que inspirou e alinhavou a costura "pré-matura" desta semana que vos escrevo.


E a tarde vai caindo em mim
Sobre essa cidade
E eu fico pensando assim
A Tarde vai caindo em mim
E eu fico pensando assim
 [ A Tarde, composição do casal Francis Hime e Olivia Hime ]




Cada nova ideia de autor, cada nova canção traz consigo uma nova imagem-reflexão que carece. Ínspira pura matéria flutuando no leito do pensamento, como notas que são tocadas uma a uma na base do instrumento, preparando a alma da memória para adentrar no rio. 


O que mais me comove, em música,
são essas notas soltas - pobres notas únicas -
que do teclado arrancam o afinador de pianos...
Mario Quintana em Meu Trecho Predileto,
extraído do livro Sapato Florido (Editora Globo, 2005)  



Referências bibliográficas
  • ASSIS, Machado de. Quincas Borba. 4. ed. São Paulo: Clube do Livro, 1980.
  • HUYSSEN, Amdreas. Passados presentes. In: Seduzidos pela memória. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2001.
  • QUINTANA. Mario. Sapato florido. 2. ed. São Paulo: Globo, 2005.

domingo, 14 de outubro de 2012

O acaso da memória


"Não sei se o acaso quis brincar
Ou foi a vida que escolheu
Por ironia fez cruzar
O seu caminho com o meu"
Abel Silva e Ivan Lins em Acaso

"O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar distraído"
Sérgio Britto em Epitáfio


Inicialmente, pensei em intitular o post desta semana de O passado no presente e no futuro, em decorrência de certas lembranças que voltaram à tona nos últimos dias. Mas aí depois decidi mudar o título para O acaso da memória. Na semana que passou, fui assistir ao novo espetáculo da Gal Costa, "Recanto", aqui no Rio de Janeiro. Em determinado momento da apresentação, Gal cantou O Amor. Música de Caetano Veloso e Ney Costa Santos, O Amor foi composta sobre um poema do russo Wladimir Maiakovski (1893-1930), considerado um dos principais nomes da vanguarda futurista e um dos maiores poetas do século XX.

Essa canção faz parte do LP "Fantasia", lançado por Gal em 1981 (gravadora Polygram-atual Universal Music). Não é das faixas mais conhecidas do grande público, mas um dos pontos altos do disco, a meu ver. Pois bem, assim que Gal cantou a música, eu me reportei imediatamente à minha infância. Era como se, por um momento, eu tivesse saído da plateia do teatro e voltado no tempo, lá pelos meus 6 ou 7 anos, para a sala da casa de meus pais. O Amor povoa a minha memória musical, assim como tantas outras canções que tocaram na radiola da sala lá de casa. Gal, evidentemente, fazia parte da nossa discoteca.



Gal Costa cantando "O Amor" (Caetano Veloso/Ney Costa Santos/Vladimir Maiakovski) - Show Recanto - 



Contracapa do disco "Fantasia", de 1981
Eu me vi, então, sentado no antigo sofá, lendo com curiosidade o encarte do LP, enquanto escutava a bela canção. Tempo em que ainda era possível "degustar" o trabalho de um artista e eu ouvia com prazer e atenção tudo o que rolava em matéria de MPB. Por isso, optei pelo termo "acaso" no título deste post, com o intuito de fazer um trocadilho com a memória. De acordo com o site do Dicionário Michaelis, esse substantivo masculino tem como um dos significados possíveis acontecimento incerto ou imprevisível, casualidade. Também pode ser destino, fortuna, sorte.


Capa do CD "Recanto", lançado em 2011
Para quem lê sobre memória, sabe que o presente é fundamental na evocação do passado. Sendo assim, o acontecimento tem importância vital para a produção de sentidos. Ciente de que guardamos apenas algumas lembranças de cada época de nossa vida, a música tem uma presença muito forte na minha vida e, claro, no meu baú de recordações. Ela seria, então, o ponto de contato com o aspecto social da minha memória. As memórias não são individuais apenas. Elas se ligam à memória coletiva, como diz o sociólogo francês Maurice Halbwachs (1977-1945).

Para que a memória exista e se conserve, é preciso que esteja vinculada a algum grupo. Segundo Halbwachs (2004, p. 169, Tradução Nossa), "a memória dos homens depende dos grupos que a rodeiam e das ideias e imagens nas que os grupos têm o maior interesse". Desse modo, as nossas memórias não estão solitárias no mundo. Elas estão ligadas, de alguma forma, a outras pessoas também.

Memória e sociedade em Halbwachs
"A memória individual não é mais que uma parte e um aspecto da memória do grupo, como de toda impressão e de todo fato, inclusive naquilo que é aparentemente mais íntimo se conserva uma lembrança duradoura na medida em que se refletiu sobre ela; é dizer, se a vinculou com os pensamentos provenientes do meio social" (HALBWACHS, 2004, p. 174, TN). Só o fato de estar escrevendo aqui sobre Gal, o LP que ela gravou em 81, o show que ela está fazendo atualmente e a canção O Amor é uma forma de deixar viva a minha memória, a partir do momento em que eu compartilho meus escritos na internet.

Como um acontecimento imprevisível, essa lembrança da música foi quase que um acaso para mim. Seria uma ideia interessante de comparar minha recordação com alguma coisa que metaforicamente "caiu" na minha frente, já que o termo "acaso" vem do latim a casu, que, por sua vez, deriva de cadere (cair). Sendo assim, termino este post com um trecho do texto original do Maiakovski que inspirou Caetano Veloso e Ney Costa Santos e que bem poderia caracterizar poeticamente a função da memória nestas minhas reflexões:


Ressuscita-me,
nem que seja só porque te esperava
como um poeta
repelindo o absurdo cotidiano!
Ressuscita-me,
nem que seja só por isso!
Vladimir Maiakovski em O Amor


Referências bibliográficas
  • HALBWACHS, Maurice. Los marcos sociales de la memoria. Caracas: Universidad Central de Venezuela, 2004.

sábado, 6 de outubro de 2012

Em meio à trilha, a metáfora surpresa


"...Eu senti isso como uma trilha
literalmente uma trilha sonora e
uma trilha no meio da mata...
Fui andando naquele pico de
floresta com
esta trilha ao fundo..."
Leila Pinheiro 


Já faz algum tempo que não escrevo aqui no blog. De certa forma, isso trazia-me certo desconforto pelo desejo de dar continuidade aos textos e não ter inspiração suficiente. Pensar dói, escrever idem, pela humana exigência da consciência e da linguagem. Felizmente, nem tudo estava/está perdido. Eis que me deparo hoje com um lindo vídeo postado recentemente no Youtube da cantora Leila Pinheiro e do compositor Célio Cruz cantando juntos uma composição dele no Projeto Amazônia Convida, em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) do Rio de Janeiro até novembro deste ano.

Aparentemente isso não teria qualquer correlação com a proposta deste blog. Mas foi a declaração da Leila contida no programa do show - a que abre este post - que me deu o estalo para a pertinência com o que venho fazendo. Ambos, projeto de show (da Leila) e projeto de doutorado (meu) têm a ver com trilha, com caminho que se busca fluir. A trilha é plena de possibilidades, afinal existem várias direções possíveis. Na trilha, há as paisagens ao redor, potencialmente diversas, a depender do rumo tomado. Cores, cheiros, visões, sensações, encontros, descobertas, tudo isso vai nos fazendo seguir.


Imagem do programa do show Amazônia Convida, em cartaz no CCBB do Rio de Janeiro


Mas a trilha não é apenas isso. É som também. E na trilha vai se formando discretamente uma outra trilha repleta de canções, como um tapete mágico-sonoro dotando o caminho de intenções bem particulares, amalgamando as faces da vida numa vida toda. Não tinha realmente me dado conta dessa trilha ao fundo. Embora a característica musical sempre estivesse presente lá, ao tratar da trilha, só me vinha à mente a mata imaginária com seus imensos troncos e sua primária cor verde e um trilho a compor o caminho a seguir, deixando para frente e para trás o rastro do que foi e do que virá.  

Então, metaforicamente contente e satisfeito de mim, retomo a trilha com uma trilha bem peculiar. Aproveitando o ensejo do Amazônia Convida, destaco o final da apresentação de 25 de setembro de 2012 que reuniu Leila e Célio cantando juntos a tal composição dele que havia mencionado no começo deste post e à qual tive a felicidade de assistir de perto na plateia. Não sei o título da canção. Busquei na internet, mas não consegui descobrir o nome. Sinto por isso. De todo modo, o fundamental é a intenção do gesto e do som. Que eles possam acertar com os intentos puros e simples, justamente os mais profundos...



"Tive a ideia de te entregar um poema cantando rio
Na imagem do teu olhar o sol se vai por um fio"
Célio Cruz

* Dedico a retomada desta trilha à querida Leila Pinheiro, que tanto toca a minha trilha.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

No Amigo, a Casa

Recebi de uma amiga uma mensagem desejando um Feliz Dia do Amigo e fiquei contente pela lembrança. Não só gentileza é saúde, como também (e principalmente!) amizade. Faz bem ao coração e à alma. Por isso, resolvi compartilhar com os amigos queridos a alegria deste dia. Embora hoje seja a data comemorativa oficial, a celebração deve ser permanente, o ano inteiro. Amigo é pedra preciosa pelo bem querer desprendido e humano. Amigo simplesmente é e ponto final. Como diria liricamente o poeta Vinicius de Moraes:


"[...] um ser que a vida não explica
Que só se vai ao ver outro nascer
E o espelho de minha alma multiplica"
Vinicius de Moraes em Soneto do Amigo 


Não pretendo discorrer muito hoje. Apenas parar um pouco, lembrar dos amigos e, na medida do possível, enviar uma palavra de carinho, mesmo que em pensamento. Como neste post, em que destaco com total pertinência a canção "Amigo é casa", do pernambucano Capiba (1904-1997) e do carioca Hermínio Bello de Carvalho, resgatada em 2008 por Simone e Zélia Duncan no DVD de mesmo nome. Gosto muito desse título porque acho que traduz o que representa, de fato, um amigo de verdade na nossa vida. Segue abaixo o link desse choro na voz das duas cantoras citadas e um trecho da letra da música:



"Amigo é feito casa que se faz aos poucos
e com paciência para durar para sempre
Mas é preciso ter muito tijolo e terra
preparar reboco, construir tramelas
Usar a sapiência de um João-de-barro
que constrói com arte a sua residência
Há que o alicerce seja muito resistente
que às chuvas e aos ventos
possa então a proteger"
Capiba e Hermínio Bello de Carvalho em Amigo é casa

sexta-feira, 22 de junho de 2012

No meio das urdiduras

Urdidura é um termo próprio à costura. Ele se refere aos fios estendidos longitudinalmente em um tear e através dos quais é lançada a trama. Também diz respeito à tramoia, maquinação, enredo e entrelaçamento. Neste post, a urdidura tem todos esses sentidos e outros mais, levando-se em conta os resultados do seminário Comunicação, Informação e Cidadania: Tecendo Saberes na Saúde. Organizado pela minha turma de doutorandos do PPGICS e realizado nos últimos dias 14 e 15 de junho no ICICT-Fiocruz, no Rio de Janeiro, o evento superou as expectativas, a começar pela proposta idealizada.

Inicialmente, pretendia-se apenas reunir conceitos caros aos projetos de pesquisa em desenvolvimento por mim e meus companheiros do curso em mesas temáticas. Só que o trabalho em conjunto e o compromisso de querer fazer o melhor acabou reverberando positivamente no evento. A urdidura das palestras e, sobretudo, das discussões levantadas a partir das falas dos convidados gerou um tecido de saberes com cores e formas interessantes de se ver e ouvir. Em parte, essa trama foi decorrente dos palestrantes.


Papel da biomedicina na construção social de saúde e doença foi discutido no evento


Sem uma articulação prévia entre eles, todos os pesquisadores convidados souberam dialogar com os  temas propostos e ainda lançar indiretamente reflexões para temáticas dos outros participantes de forma bastante positiva. As mesas tinham como eixo geral de discussão o papel da biomedicina na construção social sobre saúde e doença, as contribuições da comunicação e da informação em saúde para consolidação da cidadania e a qualidade da informação e a informação para qualidade em saúde.

Seis palestras foram realizadas nos dois dias. Nelas, foram abordados:

  • a construção social das doenças: o caso da doença de Chagas e seu enquadramento pela medicina tropical (Simone Petraglia Kropf - COC-Fiocruz);
  • o movimento médico-sanitarista e a difusão da ideologia da maternidade científica no início do século XX (Maria Martha de Luna Freire - UFF);
  • o governo eletrônico e sua contribuição para a saúde como direito à cidadania (Ricardo Ismael de Carvalho - PUC-Rio);
  • as contribuições da comunicação e informação em saúde para cidadania (Suzy dos Santos - ECO-UFRJ);
  • decisões de saúde baseadas em evidências: qual o papel da informação científica nesse processo (Maria Cristiane Barbosa Galvão - USP)
  • a informação com perspectiva em qualidade em saúde (Ilara Hämmerli Sozzi de Moraes - ENSP-Fiocruz). 

Há que se ressaltar o papel dos debatedores no evento. Cada professor que participou das mesas soube tirar proveito das falas, fomentando as discussões que desejávamos. Para o público que esteve presente e para nós, doutorandos, evidentemente, isso foi muito bom porque gerou questionamentos, provocações e análises. No meu caso, pude repensar o projeto de pesquisa em vários aspectos, a começar pelo conceito de doença. 


Cidadania e qualidade da informação foram foco de discussão em outras duas mesas


Sabendo que a doença significa uma forma de representação da sociedade, e não apenas um fenômeno biológico que se manifesta no organismo de um indivíduo, o conceito de framing, abordado no seminário sob a ótica da História da Medicina, pode ser interessante de ser aprofundado. Em linhas gerais, framing é considerado o produto de um ato de enquadramento pelos sujeitos em determinadas circunstâncias históricas e sociais. Assim, o significado de uma enfermidade não seria apenas decorrente do campo biomédico, mas também consequência de um processo de lutas e negociações ocorridas no seio social.

Além disso, outros pontos levantados no seminário foram extremamente importantes. Entre eles, o papel dos meios de comunicação como retroalimentadores de normas biomédicas, a importância dos estudos científicos na produção de "verdades" e a consciência de que nem as informações com qualidade muito menos as evidências de pesquisa são neutras. Aliás, como nada na vida é totalmente neutro, por mais que possa parecer.

No fim das contas, acredito que conseguimos transformar os fios num pano bacana e contribuir, de alguma maneira, para o campo da comunicação e da informação em saúde. Evidentemente, não foi uma contribuição de grande vulto. Mas, a nosso modo, pudemos incentivar a indagação entre as pessoas, seja para a prática de pesquisa, seja para prática da própria vida mesmo. Pois, aproveitando a fala da professora Ilara, que fechou o ciclo das palestras com uma citação do escritor português José Saramago (1922-2010):


"A prioridade absoluta tem de ser o SER HUMANO. Acima dessa, não reconheço nenhum outra prioridade."