sexta-feira, 22 de abril de 2011

Um pouco de Macabéa

Como será Macabéa na vida? Essa é a pergunta que vem pintando, vez por outra, na minha cabeça nos últimos tempos. Digo isso porque elegi O nome da cidade como minha trilha sonora atual. Composta por Caetano Veloso para o espetáculo A hora da estrela, proposto e encenado em 1984 pela irmã e cantora Maria Bethânia em homenagem ao livro homônimo escrito por Clarice Lispector, a canção tem como influência direta a história da personagem central da obra - a datilógrafa alagoana Macabéa - e do espanto dela como migrante em plena cidade grande, neste caso o Rio de Janeiro.


Cartaz do filme A hora da estrela, de 1985
 

Sempre gostei de A hora da cidade desde que ouvi pela primeira vez na voz de Adriana Calcanhoto, já nos idos dos anos de 1990. Na época, nem sabia que a canção era inspirada na obra de Clarice. Somente há pouco tempo, descobri isso e passei a gostar ainda mais da música porque curto a escritora, o livro, o compositor baiano, a canção inspirada, a compositora gaúcha e a segunda versão. Hoje, morando no Rio, identifico-me um pouco com Macabéa. Mais do que nunca, contemplo e "assunto" a Cidade Maravilhosa com um olhar e atenção de sertanejo que nunca fui realmente, embora isso esteja no meu sangue (já que sou nordestino e a família do meu pai é de Floresta, cidade do sertão pernambucano). Um pouco como Macabéa e as demais pessoas que aqui chegam ao Rio e se veem diante de um lugar tão belo, atraente, parecido e, ao mesmo tempo, tão diferente, diverso e, por vezes, feio, a exemplo dos nordestinos e dos próprios gaúchos, como Adriana.

Dependendo do gosto musical do freguês, posto dois links possíveis de O nome da cidade. A versão primeira, de 1984, mais agreste, com Bethânia, e a outra com Adriana Calcanhoto, de 1992, mais delicada - e a que prefiro, diga-se de passagem, pois só o violão e a voz dela bastam para dizer tudo o que a canção quer dizer:





Cheguei ao nome da cidade
Não à cidade mesma, espessa
Rio que não é rio: imagens
Essa cidade me atravessa
[Caetano Veloso em O Nome da Cidade, gravada primeiramente pela baiana Maria Bethania em 1984 no LP "A beira e o mar" (gravadora Polygram/Universal Music) e posteriormente pela gaúcha Adriana Calcanhoto no seu segundo disco, "Senhas", de 1992 (gravadora Columbia/Sony Music)]


O trecho citado acima é o que mais me pega fundo nos dias de hoje. O Rio de Janeiro me atravessa a alma, cortando o outro Rio, em tudo de bom e ruim que isso pode ter.


Macabéa vê a vida como uma coisa que apenas é porque é: já que sou, o jeito é ser. Ela não se questiona, sua existência é apenas ser, como um cachorro é cachorro sem o saber. Raquítica, sem vocação, sem sonhos e sem objetivos, acredita mesmo ter sido "soprada" no mundo - como quando um cisco é soprado do olho. Tola, solitária, doce e obediente, alimenta a lembrança de uma infância triste e uma saudade do que poderia ter sido e não foi. Seu único luxo é o cinema uma vez por mês e sua única paixão é "goiabada com queijo". A única fantasia que ela se permite é ser uma estrela de cinema. Gosta de acordar bem cedo aos domingos para ficar mais tempo sem fazer nada. No cais do porto sente o coração apertar ao chamado do navio. Não sabe o motivo, nem isso importa, apenas experimenta um raro momento de conforto em sua vida sem relevo, que só brilhará na hora da morte: seu único momento de verdade, decretado por um carro que a atropela e a transforma em estrela. Finalmente, protagonista de sua própria morte, ela "é":

"Hoje é o primeiro dia de minha vida: nasci."

FONTE: Wikipédia, a enciclopédia livre (http://pt.wikipedia.org/wiki/Macab%C3%A9a)

sexta-feira, 15 de abril de 2011

A tuberculose, Bandeira e o tango argentino

Num dos muitos papos recentes que tive com Grisel Adissi, uma estudante de pós-graduação em Sociologia da Saúde que está atualmente no Rio de Janeiro fazendo um intercâmbio com a UERJ, descobri algo interessante e inusitado: a tuberculose costumava ser antigamente tema de letras de tangos argentinos. Assim como a hanseníase (antiga lepra), a sífilis e o câncer, a tísica era carregada de significados que excediam a questão biológica. O pé na cultura era - e ainda é - bastante forte. Por isso mesmo, as doenças me interessam tanto. Porque tem o fator cultural bastante entranhado na história delas.

No caso da tuberculose, que lá pelos idos do século XIX era considerada a moléstia dos românticos, a inspiração artística foi bastante fecunda. Mas, durante a conversa com Grisel, não foi a poesia romântica que me veio à cabeça, e sim a do nosso querido Manuel Bandeira (1886-1968) com o seu célebre Pneumotórax, que falava no final do texto em "tocar o tango argentino" como única forma de conviver com a tuberculose. Pimba! Foi aí que entendi a conotação no poema. Sorri de satisfação, com alegria nos olhos.


 O poeta Bandeira teve tuberculose aos 18 anos, tendo vivido até os 82


Pneumotórax

Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse. 

Mandou chamar o médico: 
- Diga trinta e três. 
- Trinta e três... trinta e três... trinta e três... 
- Respire. 

- O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado. 
- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax? 
- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.


[Poema de Manuel Bandeira publicado em Libertinagem, de 1930, seu quarto livro de poemas e o primeiro inteiramente modernista] 


Bandeira descobriu-se tuberculoso (sem qualquer estigma com o uso do qualificativo, por favor, os politicamente corretos de plantão!) aos 18 anos de idade. Era um diagnóstico praticamente fatal na época. Embora tenha sido desenganado pelos médicos levando-o à longa espera da morte, ele só veio a falecer aos 82 anos, contrariando a tudo e a todos. Felicidade a nossa, a dos brasileiros, que tivemos a possibilidade de conviver com este modernista e de ler tão belos poemas dele, revelando que, mesmo no sofrimento, é possível criar inúmeras belezas, ainda mais quando se tem sensibilidade para tanto.

Como viu que eu adorei saber mais sobre tuberculose e tangos, Grisel me indicou um artigo muito interessante do historiador argentino Diego Armus publicado na revista Asclepio, que compartilho com vocês indicando o link do texto na revista:

http://asclepio.revistas.csic.es/index.php/asclepio/article/view/140/137

Para quem quiser ler mais sobre tuberculose, saúde e cultura na Argentina, indico também o artigo dos pesquisadores da UERJ Luiz Antonio de Castro Santos e Lina Faria, disponível na base Scielo e que encontrei há pouco nas minhas buscas pela internet:

http://www.scielo.br/pdf/hcsm/v17n3/15.pdf

Bom, outra opção menos "patológico-histórica" é ler os poemas do Bandeira. Meio pernambucano (de nascença) meio carioca (de adoção), ele tem centenas de maravilhosos poemas e crônicas que revelam o seu modo de ver a vida, sendo na maioria das vezes terno e simples na maneira de dizer as coisas. Como este por exemplo:


"Assim eu quereria meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação."


[Manuel Bandeira em O último poema, extraído do livro Manuel Bandeira: 50 poemas escolhidos pelo autor, da Editora Cosac Naify, São Paulo, 2006, pág. 35.] 

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Sugestões de leituras

Pesquisando o catálogo disponível na página de Ensino do PPGICS sobre as novas aquisições (http://157.86.8.13/ensino/arquivo/5055/novas_aquisicoes_mes_de_abril.pdf), interessei-me por alguns títulos em especial. Acredito que podem me ajudar a pensar melhor sobre o que significa a doença, o percurso de uma pesquisa de comunicação e o papel das mídias na atualidade. Divido essas indicações com vocês:


FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. 38. ed. Petrópolis: Vozes, 2010.
Localização na Biblioteca do ICICT: BR15.1 PPGICS 302.23098 M386d

A análise da evolução histórica do poder da legislação penal e dos métodos coercitivos e punitivos empreendida por Foucault será interessante para refletir sobre a questão da disciplina e da própria relação entre saber e poder (o poder produzindo o saber, que, por sua vez, legitima e reproduz o próprio poder)




GONDAR, Jô; DODEBEI, Vera (Org.). O que é memória social. Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria, 2005
Localização na Biblioteca do ICICT: BR15.1 PPGICS 305 Q311

O livro é resultado de pesquisas feitas no Programa de Pós-graduação em Memória Social da UNIRIO. A obra defende a construção de um novo conceito de memória social. Como memória é um conceito muito caro para mim, acredito que a leitura suscitará um aprofundamento, especialmente porque defende a memória como algo em construção, inclusive para além do próprio indivíduo.



MARCONDES FILHO, Ciro. O escavador de silêncios: formas de construir e de desconstruir sentidos na comunicação: nova teoria da comunicação II. São Paulo: Paulus, 2004.
Localização na Biblioteca do ICICT: BR15.1 PPGICS 302.2 M321e

Análises sobre a comunicação nunca são demais. Muito pelo contrário! Neste livro, a proposta é rever a comunicação desde os tempos idos da filosofia até os dias atuais. Nesse sentido, o autor defende a comunicação como pertencente inicialmente ao campo da filosofia e depois a outros campos, como à linguística e à semiologia.



MATTELART, Armand; MATTELART, Michele. Pensar as mídias. São Paulo: Edições Loyola, 2004.
Localização na Biblioteca do ICICT: BR15.1 PPGICS 302.23 M435p

Estudar as mídias é estudar sobre a representação que a sociedade faz de si mesma. A proposta dos Mattelart nesta obra é trazer um outro olhar sobre o assunto, enfocando especialmente o sistema televisivo.





SFEZ, Lucien. A comunicação. São Paulo: Martins Fontes, 2007.
Localização na Biblioteca do ICICT: : BR15.1 PPGICS 302.2 S522c

Como nada li ainda a respeito do que Sfez escreveu, talvez seja interessante debutar nesta obra. Estudioso da teoria da comunicação, ele se ancora em Jürgen Habermas, Jacques Ellul e Pierre Legendre para tratar da comunicação a partir de três metáforas: a da máquina (representação), a do organismo (expressão) e a do Frankenstein (confusão).

sexta-feira, 1 de abril de 2011

A toda hora rola uma história

Os inícios sempre trazem consigo uma certa expectativa. Ainda mais quando os inícios são carregados de novidades. Então, neste "início novo" de blog que concretiza o meu percurso do doutorado, nada mais sintomático que postar uma música. Para debutar, um belo e bom (qualquer semelhança com a filosofia é mera coincidência...) samba de Paulinho da Viola. Foi a primeira canção que tocou na minha cabeça pouco depois que cheguei aqui no Rio de Janeiro, no último mês de março. Reflete não só a minha nova fase acadêmica como uma nova etapa da vida que estou experimentando e aprendendo aos poucos. Sem mais delongas, ouçamos/leiamos o que o mestre tem a nos dizer - talvez pensar na música até me sirva no futuro, quando eu estiver imerso, de fato e completamente, na pesquisa:




"A toda hora rola uma história
Que é preciso estar atento 
A todo instante rola um movimento 
Que muda o rumo dos ventos 
Quem sabe remar não estranha
Vem chegando a luz de um novo dia
O jeito é criar um novo samba
Sem rasgar a velha fantasia"
[Rumo dos Ventos (Paulinho da Viola) - Gravado originalmente pelo próprio Paulinho em 1982 para o seu LP "A toda hora rola uma estória", da Atlantic/WEA]