sexta-feira, 3 de junho de 2011

A vez da voz e a voz da vez

Mais do que uma questão sonora ou mesmo musical, a voz vem assumindo cada vez mais uma posição de destaque nos estudos da linguagem. Cada discurso, cada texto tem a potencialidade de suscitar dentro de si distintos ecos (leia-se aí sentidos) a partir dos significados que são produzidos em sociedade. Isso nos leva a pensar que a nossa fala traz "multidões dentro de nós", remetendo a Inesita Soares de Araújo e Janine Miranda Cardoso no livro Comunicação e Saúde. A linguagem que utilizamos é relacional, depende de referenciais criados anteriormente para constituir sentidos. É claro que não é apenas memória, mas é também memória. Uma miscelânea do antigo com o novo.

Nesse sentido, o conceito de polifonia pode ser considerado constitutivo do discurso. Não é por menos que o russo Mikhail Bakthin (1895-1975) é tão cultuado entre o linguistas hoje. Os estudos dele, já nas primeiras décadas do século XX, davam conta de uma visão de língua não apenas como sistema, mas como algo que mantinha relação direta com o extra-linguístico, como o contexto da fala e o momento histórico. Algo extremamente moderno ainda nos dias de hoje e que só começou a ser valorizado após a morte de Bakthin.


Bakthin pensou a polifonia no contexto da língua

Termo comum à música, a polifonia foi tomada emprestada por Bakhtin para o campo lingüístico ao tratar do romance de Fiódor Dostoiévski (1821-1881), indicando a presença de vozes autônomas dentro do discurso e que coexistem em igualdade de posição. O autor do romance seria, nesse caso, um “orquestrador” num universo plural, tendo as vozes liberdade para concordar ou discordar dele, como se tivessem vida própria. Com as consciências participando em pé de igualdade, a polifonia traria em si a equipolência como característica capital, além de uma interação sem imposição de determinadas vozes sobre outras.

Pensando no nosso mundo da vida - como a professora Regina Marteleto costuma dizer nas suas aulas -, a polifonia é algo que gera reflexão, já que as relações de poder entre as diferentes vozes sociais são desiguais. Todos falam, mas nem sempre as suas vozes têm os mesmos apelo e força. Dependendo da posição ocupada por determinada voz no campo onde o sujeito está inserido, ela pode ser supervalorizada ou até mesmo silenciada. Afinal, vivemos numa arena de embates, seja na casa, na escola, no trabalho e até mesmo na mesa de bar com os amigos, na qual lutamos constantemente (muitas vezes, de maneira inconsciente) a fim de nos colocarmos diante do outro com os nossos pontos de vista, nossas convicções e nossas verdades. Por isso, entendo que a vida da gente é política num sentido mais geral, por sermos cidadãos e convivermos em sociedade.

Não pretendo me estender mais nisso no momento, pois o assunto merece um aprofundamento, inclusive de minha parte. Para não fazer diferente, deixo-os com uma boa letra de canção brasileira para instigar o "matutamento" desta voz que nos persegue, constitui-nos enquanto gente e às vezes nos prega peças. A voz do dono e o dono da voz, do nosso querido Chico Buarque. Composta para o LP "Almanaque", de 1981, a música é uma resposta ao fato de Chico se ver novamente nas mãos da gravadora Polygram/Philips (atual Universal Music), pouco depois de ter rompido com o selo para fazer parte do cast da Ariola e esta ter sido ironicamente vendida para aquela. Preso novamente ao "dono da voz", a "voz do dono" resolveu fazer uma canção cheia de ironias e duplos sentidos. Uma dentre tantas vozes espalhadas por este mundão afora. 



Até quem sabe a voz do dono
Gostava do dono da voz
Casal igual a nós, de entrega e de abandono
De guerra e paz, contras e prós

Fizeram bodas de acetato – de fato

Assim como os nossos avós
O dono prensa a voz, a voz resulta um prato
Que gira para todos nós

O dono andava com outras doses
A voz era de um dono só
Deus deu ao dono os dentes, Deus deu ao dono as nozes
Às vozes Deus só deu seu dó

Porém a voz ficou cansada após
Cem anos fazendo a santa
Sonhou se desatar de tantos nós
Nas cordas de outra garganta
A louca escorregava nos lençóis
Chegou a sonhar amantes
E, rouca, regalar os seus bemóis
Em troca de alguns brilhantes

Enfim, a voz firmou contrato
E foi morar com novo algoz
Queria se prensar, queria ser um prato
Girar e se esquecer, veloz

Foi revelada na assembleia – ateia
Aquela situação atroz
A voz foi infiel trocando de traqueia
E o dono foi perdendo a voz

E o dono foi perdendo a linha – que tinha
E foi perdendo a luz e além
E disse: Minha voz, se vós não sereis minha
Vós não sereis de mais ninguém

(O que é bom para o dono é bom para a voz) 


[A voz do dono e o dono da voz, música composta por Chico Buarque e gravada por ele em 1981 no LP "Almanaque" (Ariola-Polygram/atual Universal Music) e por Cida Moreira em 1993 no CD "Cida Moreira Canta Chico Buarque" (gravadora Kuarup)] 

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Gentileza também gera saúde

A ideia deste post nasceu meio que por acaso esta semana. Na última quarta-feira (dia 25/05), estava eu saindo de casa pela manhã apressado em direção à parada de ônibus para ir à Fiocruz quando me deparei com um senhor que nunca vi na vida caminhando de bengala na direção contrária. Até aí, nada demais, a não ser por um singelo, surpreendente e bacana "bom dia" que ele fez questão de me dizer. Eu prontamente respondi o "bom dia" dele com o mesmo entusiasmo e continuei a minha caminhada. Posso dizer que isso mudou o meu dia (sem qualquer conotação de auto-ajuda salvacionista...), trazendo-me um misto de contentamento e satisfação por um atitude aparentemente tão simples.

Fiquei pensando sobre aquele ato gentil o dia inteiro, e até hoje ainda. Num mundo em que as pressões sociais e econômicas sobre o ser humano estão cada vez mais fortes e evidentes e o individualismo se tornou praticamente palavra de ordem, falta tempo para certas "banalidades". Afinal, temos de (sobre)viver...

Por isso mesmo, o título Gentileza também gera saúde não é vão. Ele veio-me à mente segundos após a troca de "bom dia" entre mim e aquele senhor. Porque gentileza, na minha opinião, tem a ver com bem-estar e bem-estar, por sua vez, com saúde. Como já tinha dito num outro post, a Organização Mundial de Saúde (OMS) define a saúde como "um estado de completo bem-estar físico, mental e social". Aliás, como nunca é demais verificar o significado das palavras, segundo o Moderno Dicionário de Língua Portuguesa Michaelis (disponível na internet - http://michaelis.uol.com.br/), bem-estar é definido como "situação agradável do corpo e do espírito; conforto, tranquilidade".

A grande questão é saber como encarar esse bem-estar. A meu ver, existe um aspecto crucial que infelizmente (ou felizmente, depende do ponto de vista de cada um...) faz parte da nossa dita cultura "pós-moderna": não se descobriu ainda a fórmula química do bem-estar a ponto de torná-lo um medicamento. E, não sendo remédio ainda, é impossível de ser comercializado, não gerando consumo, lucro, riqueza.

Profeta Gentileza é autor da frase que leva o seu nome
Aos usuários de saúde de plantão, especialmente àqueles que sempre adoram um "remedinho" e não têm tempo de parar para pensar sobre a vida que os cerca, vamos nos lembrar da célebre frase "Gentileza gera gentileza". Acredito que essa afirmação - criada pelo Profeta Gentileza (1917-1996), conhecido personagem urbano carioca - possa fazer a diferença, se incorporada de fato à nossa vida, proporcionando uma vida mais agradável e consequentemente uma saúde melhor e até mais saudável que aquela que temos hoje. De minha parte, desde ontem, torço para encontrar aqui perto de casa aquele senhor que me dirigiu o "bom dia" com tanta gentileza para lhe dizer o quanto foi bom o meu dia. Por hora, tento me inspirar nele para semear novas gentilezas para outras pessoas. Afinal, não custa nada. É apenas uma questão de atitude!


Nós que passamos apressados
Pelas ruas da cidade
Merecemos ler as letras
E as palavras de Gentileza

Por isso eu pergunto
A você no mundo
Se é mais inteligente
O livro ou a sabedoria

O mundo é uma escola
A vida é o circo
Amor palavra que liberta
Já dizia o Profeta

[Gentileza (Marisa Monte), música gravada pela própria Marisa no CD "Memórias, crônicas e declarações de amor", o seu quinto disco de carreira, lançado em 2000 pela EMI] 



sexta-feira, 20 de maio de 2011

Um mergulho possível na trilha

Depois de tanto burilar este blog para "lançá-lo" no mundo - neste caso, para as professoras e colegas de turma da disciplina Portfólio I, do Programa de Pós-graduação em Informação e Comunicação em Saúde (PPGICS/Fiocruz), e eventualmente amigos distantes,- vem aquela indagação: e agora? Como dar conta dessa demanda? Antes, ele estava guardado "a sete chaves" na rede virtual (será mesmo?). Agora, torna-se público para poucos. Os poucos que conheço. E os poucos que evidentemente o lerão.

Não sei se o que aqui está contido interessará realmente a alguém. Talvez somente a mim mesmo, que preciso ir registrando o meu caminhar acadêmico nestes quatro anos de doutorado que virão. De todo modo, este blog não é nem será o "diário da minha vida", digo de antemão. Aqui, farei apenas o registro de coisas relacionadas aos estudos, com uma pitada de lirismo sempre que possível, e algumas impressões da vida que estou vivendo. Afinal, poesia na vida nunca faz mal a ninguém. Evidentemente que a academia faz parte da minha vida nesta etapa da vida. Então, vá lá, de certa forma, terá um pouco de diário aqui... Mas será um diário diferente, conotativamente hipertextual.

Falo isso porque, durante a apresentação deste blog no último dia 18 de maio em sala de aula, um dos comentários feitos era a quantidade de referências no meu discurso a diversas coisas, como ideias, músicas, poesias e outros discursos. Como hipertextos que vão remetendo a outros textos e buscando estabelecer entre si uma interconexão.


Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?
[Carlos Drummond de Andrade em Procura da Poesia, um dos poemas de abertura do livro A rosa do povo, que reúne textos escritos entre 1943 e 1945]


Falo isso porque, durante a apresentação deste blog no último dia 18 de maio em sala de aula, um dos comentários feitos era a quantidade de referências no meu discurso a diversas coisas, como ideias, músicas, poesias e outros discursos. 
Fiquei pensando nisso depois e imagino que essas referências possam estar um tanto exacerbadas atualmente. Na distância, vou buscando estabelecer relações entre as coisas que vou vivenciando para construir novos significados. Talvez as metáforas do mergulho e da trilha sejam um bom exemplo.; Na trilha horizontal e aparentemente certa que sigo, há o mergulho vertical de ir fundo, buscando mais e mais compreender até onde é possível ir. A terra e o mar. Dois mundos aparentemente diferentes, mas superpostos num só. Onde é mergulho e onde é trilha? Não sei ao certo. No momento, ainda estou no possível...

Por favor, compreendamos
Que é o princípio de tudo
Brilhando em nossos corações
E é importante que nós dois saibamos 
Que a vida está mais do que nunca em nossas mãos

E, assim, nessa hora devemos despir
O que seja vaidade, o que seja orgulho
E do modo mais franco de ser
Vamos juntos no nosso mergulho
[Mergulho, música composta por Gonzaguinha e gravada primeiro por Maria Bethânia no LP Talismã (1980), da gravadora Polygram/Universal Music, e logo depois pelo próprio Gonzaguinha no disco Coisa mais maior de grande (1981), da EMI-Odeon]

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Saúde em pauta

Meu doutorado tem como foco o estudo da doença não só como fenômeno biológico, mas também midiático. Evidentemente que, como estou no comecinho do curso, muitas águas ainda vão rolar. De todo modo, é lendo, pesquisando e refletindo que o meu estudo ganhará formas mais delineadas. Por isso mesmo, decidi começar a levantar "devagar, devagarinho" (como diria nosso querido sambista carioca Martinho da Vila) o meu material de pesquisa.

1ª capa de Veja sobre saúde, de 1972
No meu levantamento preliminar às capas de Veja, identifiquei algo interessante. Do número 1 (lançado no dia 11 de setembro de 1968) ao número 590 (publicado em 26 de dezembro de 1979) - portanto pouco mais de uma década -, a saúde foi capa de cinco edições da revista, das quais todas tratando de doenças. Duas enfocaram a epidemia de meningite (que assolava o Brasil nos anos 1970, tornando-se um grave problema de saúde pública em plena ditadura militar), duas abordaram a questão do câncer e uma outra trouxe como tema principal os problemas do coração. A título de comparação, contabilizei que, em 2010, Veja publicou nove capas sobre saúde, sendo que apenas uma tratou de doença, neste caso a obesidade. Dessas nove capas, quatro vieram atreladas a como a ciência poderia ajudar na saúde das pessoas.

Última capa de Veja de 2010 sobre saúde
É curioso verificar o quanto a saúde está cada vez mais na pauta da mídia. Evidentemente que apenas a contabilidade de capas de um semanário não evidencia isso. Mas é um indicativo de que o assunto interessa à sociedade, já que é ela quem consome as notícias. Não é para menos. Saúde é considerado um bem. Tem implicações sociais, legais e econômicas. A definição da Organização Mundial de Saúde (OMS) confere ao homem a garantia da saúde, ao considerá-la "um estado de completo bem-estar físico, mental e social". Com o passar do tempo, esse valor positivo, incluindo múltiplos fatores que não apenas a "ausência de doença", acabou tornando a saúde algo inatingível. Completo bem-estar físico, mental e social é difícil de ter e mensurar, ainda mais nos dias de hoje.

Sem querer esgotar essa discussão sobre saúde, vejo o quanto compor o arquivo é importante para uma pesquisa. Um dos conceitos cruciais na obra do filósofo francês Michel Foucault (1926-1984), arquivo é um sistema que rege o aparecimento de enunciados como acontecimentos singulares num determinado contexto, espécie de "lei" do que pode ser dito em determinada época. Nesse sentido, a formação do meu arquivo terá de vir atrelada a um bom conhecimento do momento em que os discursos circularam para compreender por que saúde tem tanto destaque mais hoje, e não ontem. Até isso ocorrer, muitos e profundos mergulhos ainda virão...

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Tô chegando!

Quase dois meses se passaram desde a minha chegada no Rio e agora tenho a possibilidade de visitar a minha família em Pernambuco. Não pude fazer isso na Semana Santa, mas compensarei um pouquinho nestes cinco dias que virão, aproveitando a comemoração do Dia das Mães.

A ida também possui um outro propósito: tenho uma audiência marcada no Juizado Especial Cível de Olinda (o popular Pequenas Causas) contra a Tambaú por ter quase ingerido ano passado um caco de vidro encontrado dentro de um dos famosos tabletes de goiabada comercializados pela empresa. Depois de eu ser considerado "equivocado" pelo Serviço de Controle de Qualidade da fábrica (que me disse por telefone sem nem ter visto o vidro que era apenas um "açúcar cristalizado" - como se eu não fosse capaz de discernir açúcar de vidro...), resolvi ajuizar uma ação por danos morais. Não pelo dinheiro, mas pela atenção que a empresa deve não só com relação à produção de seus produtos, mas também aos seus consumidores. A audiência foi marcada, há quase um ano, antes mesmo de me inscrever na seleção do doutorado. Como calhou de ser marcada para 10 de maio, um dia após a comemoração das Mães, foi ótimo para unir o útil ao agradável.

Nessa visita repleta de saudades - das refeições em volta da mesa com a família, das cervejas e cafés com os amigos, das brincadeiras com carrinhos, Playmobils & Cia com o meu sobrinho e das estripulias com Zuca (o meu gato) -, mais uma vez uma música na cabeça. Tô voltando, de Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro, na voz de Simone. É uma das primeiras canções que me lembro de escutar na antiga radiola de casa quando era criança por intermédio de meus pais, que adoravam ouvir a baiana no início da sua carreira.

Pode ir armando o coreto
E preparando aquele feijão preto
Eu tô voltando
Põe meia dúzia de Brahma pra gelar
Muda a roupa de cama
Eu tô voltando



Como a letra fala de um cara que está distante e diz para a mulher ir se preparando, pois ele está voltando para casa, então achei que poderia ter a ver comigo. Digo poderia porque a música é considerada um dos hinos da anistia de 1979, quando os brasileiros exilados que cometeram crimes políticos foram perdoados pelo governo militar e tiveram a possibilidade de retornar para o seu País. Como não sou exilado muito menos anistiado, resolvi então fuçar a internet para saber mais sobre Tô voltando e poder identificar algo comigo. Para a minha satisfação, descobri que a música, a princípio, não foi composta pensando nessa questão política. Na verdade, a canção teve como mote o cansaço de Tapajós após mais de um mês de turnê pelo Nordeste e a saudade de sua casa, no Rio.

Pelo fato de a música ter sido gravada por Simone pouco antes do retorno dos exilados, possivelmente a sociedade usou o tema para torná-lo trilha da anistia por ter uma correlação forte com o retorno deles ao Brasil. E aí é a mídia (especialmente a televisão) aproveitou aquele negócio para compor as suas imagens, popularizando ainda mais a canção. O que corrobora com a ideia de que os propósitos de um sujeito ou de um grupo de sujeitos - sejam quais forem - podem tomar um outro rumo, às vezes completamente diferente, quando circulam no meio social. Viva à linguagem e as suas múltiplas possibilidades!!

Satisfeito com a minha descoberta - que pode ser conferida por vocês no livro História das minhas canções (escrito pelo próprio Paulo César Pinheiro e lançado no ano passado) - finalizo este post com o vídeo da Simone no musical Grandes nomes, da TV Globo, em março de 1980, em que ela canta Tô voltando e um trechinho de Começar de novo, da dupla Ivan Lins e Vitor Martins. De quebra, a história de Pinheiro sobre a canção. Agora, posso cantá-la mais tranquilo, com a licença dos poetas. Gente, Tô voltando!! 


  


Maurício (Tapajós)... me ligou pra falar sobre uma idéia que tivera no caminho de volta. Cansado da tensão de palco (sem o hábito de cantar pra o público) e de tanta farra, bateu nele, já no finalzinho, uma saudade imensa de casa, da mulher, dos filhos, do Leblon, do Rio. E de Tapajós pra Tapajós ele dizia, às vésperas do retorno:
- Nem acredito que eu tô voltando...
E esse mote não o abandonou mais. Só podia dar samba... Com o violão na mão e o fone preso entre o ombro e a orelha cantarolou pra mim rascunho da melodia em que se repetia o "tô voltando".
- Quê que você acha, parceiro?
- Acho ótimo, gordo. Tô indo pra aí. Ainda agüentas maia um uísque?
Passamos o resto do dia dando a forma à composição. Na manhã seguinte, já em meu escritório, fui burilando a letra. Era simples e popular a canção e os versos foram fluindo. Eu, que já passara tanto por isso, tantas as viagens que fizera, enormes as saudades de casa, sabia bem do assunto que devia abordar. O papo era recorrente à nossa profissão. Toda a classe artística sentia profundamente essa ânsia de regresso depois de cada temporada. E todos queriam as mesmas coisas que eu rabiscava agora naquele samba. Ficou lindo o que a gente fez, e cheio de empatia. Era cantar uma vez e na segunda todos acompanhavam. Virava logo coro. Fácil de decorar. Senti imediatamente cheiro de sucesso. Simone estava escolhendo repertório para seu disco anual. Mostramos pra baiana. Ela veio que veio:
- Esse é meu!
Foi pro estúdio e arrebentou. Era 1979, e o samba ganhou o Brasil. Só dava ele nas rádios, "Estourou no Nordeste!" era a expressão bem-humorada que se usava na época, para designar a música que ganhava as paradas nacionalmente.
Agora vocês vejam como a arte tem seus mistérios... Pouco tempo depois, estava eu vendo o Jornal Nacional da TV Globo cujo tema central era o dia do retorno dos exilados políticos ao nosso país, tendo sido conquistado, com muita luta doa que ficaram encarando o regime militar, a anistia ampla, geral e irrestrita, quando, pra minha surpresa, no avião lotado por nossos companheiros, entre entrevistas e choros ao vivo, entoou-se, numa só voz, o "Tô voltando". A cena foi uma pancada no meu coração. A emoção tomou conta de mim e as lágrimas correram no meu rosto. Minha voz embargou. Os pelos eriçaram. Estufavam as veias e os nervos retesavam. Tive que respirar fundo e sair da frente da tevê pra não enfartar. A música tinha tomado outra conotação a partir dali. Virara o hino dos exilados. E é assim que é vista até hoje, pra meu regozijo. E é assim que pensam que ela foi feita, pra minha satisfação. O que mostra que o destino das canções não está em nossas mãos. Elas são o que elas quiserem ser, acima dos motivos por que foram feitas. Que bom que ela tenha virado o que virou. Ergo um brinde a isso. Sempre.
[PINHEIRO, P. C. Histórias das minhas canções. São Paulo: Leya Brasil, 2010] 

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Anômalo e anormalidade

As aulas deste primeiro semestre no Programa de Pós-graduação em Informação e Comunicação em Saúde (PPGICS), vinculado ao Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (ICICT/Fiocruz) têm sido muito interessantes. Todas, de alguma forma, trazem uma reflexão diferenciada e instigante no campo interdisciplinar da comunicação, da informação e da saúde. No caso do professor Carlos Estellita, a aula em que ele tratou das contribuições de Georges Canguilhem (1904-1995) para a filosofia moderna trouxe à tona em mim, mais uma vez, a questão da "anomalia" e do "anormal", duas questões discutidas pelo médico e filósofo francês.


Médico e filósofo, Canguilhem se inscreve na epistemologia histórica francesa


Segundo observação feita por Canguilhem no seu livro O normal e o patológico - fruto da sua tese de doutorado em medicina -, "anomalia" é um substantivo que, no francês (anomalie), carece de adjetivo, enquanto que o adjetivo "anormal" (ou anormal, em francês), por sua vez, não tem substantivo na língua francesa, provocando uma aproximação errônea entre os termos. Eis o que diz o filósofo na obra citada, tomando como base o livro Vocabulaire philosophique, de Lalande:


"O Vocabulaire de Lalande explica que uma confusão de etimologia contribuiu para essa aproximação de anomalia e anormal. Anomalia vem do grego anomalia que significa desigualdade, aspereza; omalos designa, em grego, o que é uniforme, regular, liso; de modo que anomalia é, etimologicamente, an-omalos, o que é desigual, rugoso, irregular, no sentido que se dá a essas palavras, ao falar de um terreno. Ora, frequentemente houve enganos a respeito da etimologia do termo anomalia derivando-o não de omalos, mas de nomos que significa lei, segundo a composição a-nomos. Esse erro de etimologia encontra-se, precisamente, no Dictionnaire de Médecine de Littré e Robin. Ora, o nomos grego e o norma latino têm sentidos vizinhos, lei e regra tendem a se confundir. Assim, como todo o rigor semântico, anomalia designa um fato, é um termo descritivo, ao passo que anormal implica referência a um valor, é um termo apreciativo, normativo, mas a troca de processos gramaticais corretos acarretou uma confusão dos sentidos respectivos de anomalia e anormal. Anormal tornou-se um conceito descritivo e anomalia tornou-se um conceito normalitivo". (CANGUILHEM, 2002[1966], p. 101)


Embora essa peculiaridade exista na língua francesa, o mesmo não ocorre no português. Na nossa língua, há o adjetivo anômalo e o substantivo anormalidade. Essa observação me veio à tona inicialmente nas aulas da disciplina Comunicação e Discurso, ministrada pela professora Cristina Teixeira de Melo, do Programa de Pós-graduação em Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco (PPGCOM/UFPE), no início do ano passado, lá no Recife, num momento em que eu acabara o mestrado e não queria parar de estudar. Então, como aluno ouvinte, lá fui eu me meter com Foucault, Canguilhem e suas reflexões "cabeçudas" (tomando emprestado um termo da professora Cristina).

Depois, já no Rio, ao indagar o professor Estellita sobre o mesmo assunto, resolvi buscar mais informações a respeito. Primeiro, fui ao site do Moderno Dicionário da Língua Portuguesa, o Michaelis (http://michaelis.uol.com.br/). Lá, para a minha surpresa, descobri que a palavra anômalo deriva do grego (anómalos), tem como sinôminos - olhem aí a confusão! - "aberrante, desigual, excepcional, irregular, anormal" e, na história natural, diz respeito a "seres que se afastam do tipo ou norma a que pertencem". Já anormalidade significa, de acordo com o Dicionário Aurélio (1986, p. 126, grifo nosso), "qualidade ou estado do que é anormal, abnormalidade, abnormidade, anomalia". Complementando o nosso  pensamento, Houaiss (2009, p. 141, grifo nosso) afirma, entre outras coisas, que anormalidade é algo que "foge à norma, situação ou fato anormal, anomalia".

Pode parecer uma besteira essa discussão semântica, mas percebe-se que a associação feita entre anomalia x anormalidade e anômalo x anormal é evidente, indicando que os termos se confundem. Eu acredito que isso guarde relação direta com o próprio francês, que associou o adjetivo anormal ao substantivo anomalia.  Não podemos nos esquecer da influência secular e direta que o Brasil teve da cultura francesa. Levando-se em conta que as duas línguas são originárias do latim, não é de se estranhar as semelhanças.

Para mim, o interesse em "desvendar" essa questão é buscar compreender o estatuto do patológico na cultura atual. Não é fácil mesmo, ainda mais quando se tenta aprofundar Canguilhem. A cabeça dá, muitas vezes, um "tilte" e aí eu fico, se brincar, sem nem saber mais o que é adjetivo ou substantivo (poderiam me definir isso, por favor?). Brincadeiras à parte, vejo que anômalo e anormalidade tem a ver com norma, um conceito caro a Canguilhem e, posteriormente, a Foucault - mas isso é assunto para um outro post. Por hora, atenho-me a uma das ideias defendidas em O normal e o patológico de que anomalia não pode ser confundido com doença, embora isso possa parecer à primeira vista. "O anormal não é o patológico. Patológico implica em pathos, sentimento direto e concreto de sofrimento e impotência, sentimento de vida contrariada. Mas o patológico é realmente o anormal" (CANGUILHEM, 2002[1966], p. 106, grifos do autor).

Por fim, outra frase emblemática do próprio Canguilhem, retirada da mesma obra, de que:

"O patológico não é a ausência de norma biológica, é uma norma diferente, mas comparativamente repelida pela vida" (2002[1966], p. 113-4)    


Pausa para reflexão...


Referências bibliográficas

CANGUILHEM, G. O normal e o patológico, trad. Maria Thereza Redig de Carvalho Barrocas e Luiz Octavio Ferreira Barreto Leite. 4. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2002[1966].
FERREIRA, A. B. de H. Novo Dicionário de Língua Portuguesa. 2.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.
HOUAISS, A.  Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009.
MICHAELIS. Moderno dicionário da língua portuguesa. São Paulo: Companhia Melhoramentos, 1998-2009. Disponível em: <http://michaelis.uol.com.br/>. Acessado em: 29 abr. 2011.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Um pouco de Macabéa

Como será Macabéa na vida? Essa é a pergunta que vem pintando, vez por outra, na minha cabeça nos últimos tempos. Digo isso porque elegi O nome da cidade como minha trilha sonora atual. Composta por Caetano Veloso para o espetáculo A hora da estrela, proposto e encenado em 1984 pela irmã e cantora Maria Bethânia em homenagem ao livro homônimo escrito por Clarice Lispector, a canção tem como influência direta a história da personagem central da obra - a datilógrafa alagoana Macabéa - e do espanto dela como migrante em plena cidade grande, neste caso o Rio de Janeiro.


Cartaz do filme A hora da estrela, de 1985
 

Sempre gostei de A hora da cidade desde que ouvi pela primeira vez na voz de Adriana Calcanhoto, já nos idos dos anos de 1990. Na época, nem sabia que a canção era inspirada na obra de Clarice. Somente há pouco tempo, descobri isso e passei a gostar ainda mais da música porque curto a escritora, o livro, o compositor baiano, a canção inspirada, a compositora gaúcha e a segunda versão. Hoje, morando no Rio, identifico-me um pouco com Macabéa. Mais do que nunca, contemplo e "assunto" a Cidade Maravilhosa com um olhar e atenção de sertanejo que nunca fui realmente, embora isso esteja no meu sangue (já que sou nordestino e a família do meu pai é de Floresta, cidade do sertão pernambucano). Um pouco como Macabéa e as demais pessoas que aqui chegam ao Rio e se veem diante de um lugar tão belo, atraente, parecido e, ao mesmo tempo, tão diferente, diverso e, por vezes, feio, a exemplo dos nordestinos e dos próprios gaúchos, como Adriana.

Dependendo do gosto musical do freguês, posto dois links possíveis de O nome da cidade. A versão primeira, de 1984, mais agreste, com Bethânia, e a outra com Adriana Calcanhoto, de 1992, mais delicada - e a que prefiro, diga-se de passagem, pois só o violão e a voz dela bastam para dizer tudo o que a canção quer dizer:





Cheguei ao nome da cidade
Não à cidade mesma, espessa
Rio que não é rio: imagens
Essa cidade me atravessa
[Caetano Veloso em O Nome da Cidade, gravada primeiramente pela baiana Maria Bethania em 1984 no LP "A beira e o mar" (gravadora Polygram/Universal Music) e posteriormente pela gaúcha Adriana Calcanhoto no seu segundo disco, "Senhas", de 1992 (gravadora Columbia/Sony Music)]


O trecho citado acima é o que mais me pega fundo nos dias de hoje. O Rio de Janeiro me atravessa a alma, cortando o outro Rio, em tudo de bom e ruim que isso pode ter.


Macabéa vê a vida como uma coisa que apenas é porque é: já que sou, o jeito é ser. Ela não se questiona, sua existência é apenas ser, como um cachorro é cachorro sem o saber. Raquítica, sem vocação, sem sonhos e sem objetivos, acredita mesmo ter sido "soprada" no mundo - como quando um cisco é soprado do olho. Tola, solitária, doce e obediente, alimenta a lembrança de uma infância triste e uma saudade do que poderia ter sido e não foi. Seu único luxo é o cinema uma vez por mês e sua única paixão é "goiabada com queijo". A única fantasia que ela se permite é ser uma estrela de cinema. Gosta de acordar bem cedo aos domingos para ficar mais tempo sem fazer nada. No cais do porto sente o coração apertar ao chamado do navio. Não sabe o motivo, nem isso importa, apenas experimenta um raro momento de conforto em sua vida sem relevo, que só brilhará na hora da morte: seu único momento de verdade, decretado por um carro que a atropela e a transforma em estrela. Finalmente, protagonista de sua própria morte, ela "é":

"Hoje é o primeiro dia de minha vida: nasci."

FONTE: Wikipédia, a enciclopédia livre (http://pt.wikipedia.org/wiki/Macab%C3%A9a)