sexta-feira, 26 de agosto de 2011

A parte que nos (a)parte

- Qual será a parte que nos cabe?
- Será que cabemos todo na parte exposta?
- Ou serão as outras partes que nos cabem realmente?


Apesar de parecerem meio sem sentido, as questões que abrem este post pretendem lançar uma reflexão sobre a questão da imagem da doença. Já há algumas semanas, venho pensando muito sobre o assunto, mas de forma embrionária ainda, tentando traçar um paralelo com a forma como as enfermidades são vistas e compreendidas pelas pessoas a partir da simbologia das imagens criadas socialmente. Pode parecer mais louco ainda, mas isso surgiu forte na minha cabeça com a morte da cantora Amy Winehouse (1983-2011), em julho passado. No final de sua carreira, Amy ficou marcada como uma artista que vinha lutando contra as drogas e a bebida, mas de forma um tanto trágica. Muitos fãs iam a seus shows já com a expectativa de saber se ela conseguiria cantar o show inteiro, devido à exposição do vício, como ocorreu este ano com os espetáculos aqui no Brasil.

Embora fosse uma artista de potencialidade vocal e um talento nato invejável, Amy acabou marcada no final da carreira através da mídia por uma má fama causada pelos vexames públicos nas suas apresentações. Era como uma morte anunciada ainda em vida. A cobertura do falecimento foi um retrato fiel da imagem de uma artista jovem que morreu jovem, aos 27 anos, assim como outros astros do rock and roll, a exemplo de Jim Morrison, Janis Joplin e Jimi Hendrix, "vítima" das drogas e da bebida. Sua morte serviu para alimentar a mídia de matérias e mais matérias sobre os riscos do vício, tomando-a emblemática. O mais interessante é verificar como fatos dessa natureza fazem valer a memória jornalística, no eterno retorno às lembranças e ao jogo de sentidos. Com Elis Regina e Cássia Eller, também houve algo semelhante por parte da mídia, guardadas as devidas diferenças e proporções. Por isso, gosto do esquecer e do lembrar discursivo, pois vemos como a vida funciona em determinadas ocasiões como ciclos de idas e vindas, uma espécie de porvir inesperado-esperado, ainda mais em se tratando do discurso midiático.



Cantora Amy Winehouse, que morreu em julho de 2011 por ingestão de drogas e álcool 


Taxar a Amy como uma cantora que sucumbiu ao vício é rogar-lhe uma imagem que possivelmente a acompanhará pelo resto dos tempos. Não que isso seja uma inverdade, muito pelo contrário. Mas apenas uma forma de consolidar uma imagem após a morte que foi se formando ainda em vida - embora caiba aqui um parêntese que nem sempre determinado fato marca a imagem de alguém ou de alguma coisa, depende do contexto e da trajetória. De toda maneira, a imagem tende a reduzir o todo pela parte, uma "sinédoque discursiva" que imprime um valor globalizante a partir de um pequeno extrato que se torna representativo. Por isso, o título deste post "a parte que nos (a)parte" veio bem a calhar. Porque é reduzindo ao mínimo que podemos compreender ao máximo, dando um sentido utilitário às coisas que nos rodeiam, tendo como ferramenta a linguagem.

A respeito da imagem das doenças, penso aqui em alguns exemplos, como a Aids no início da epidemia nos anos 80, quando era taxada de "a doença dos homossexuais, dos drogados e das prostitutas", os famosos grupos de risco que facilitam a identificação. Hoje, mesmo a doença tendo mudado o perfil, essa imagem  persiste em alguma medida, com menos força evidentemente, mas ainda está presente na nossa cultura.



No início da epidemia, a Aids era denominada como "peste gay"


Outro exemplo é a gripe A(H1N1), comparada no início da pandemia à virulência da sua parente antiga, a gripe espanhola, que dizimou, pelo menos, 22 milhões de pessoas entre 1918 e 1919, mais que os oito milhões mortos na Primeira Guerra Mundial. Neste caso específico, porém, a imagem criada da gripe suína se modificou a partir do comportamento epidemiológico da nova virose, que mostrou uma face bem mais branda que a esperada. No entanto, vimos que restava na memória uma imagem viva, apesar de aparentemente morta, de algo sinistro capaz de afetar a nossa saúde. Então, fiquei pensando mais profundo e metaforicamente que, em tempos de saúde e vida "eterna" a todo custo, "jacaré" não se esquece nunca de nadar de costas com medo das "piranhas"...

Bem, para finalizar esse fragmento de reflexão alinhavando a questão da imagem com a parte, convido-os a escutar o poema de Ferreira Gullar Traduzir-se, musicado pelo compositor cearense Fagner. Uma forma de pensar na imagem como tradução.


- Mas que tradução? 



Traduzir-se, poema de Ferreira Gullar musicado por Fagner e gravado primeiro pela cantora Nara Leão, em 1981, no seu LP "Romance Popular" (Polygram/atual Universal Music), com a participação especial de Fagner; logo depois, ainda no mesmo ano, por Fagner no seu oitavo disco de carreira, intitulado"Traduzir-se" (CBS/atual Sony Music); e, em 2001, pela cantora e compositora Adriana Calcanhoto, no DVD "Público" (Sony/BMG)  

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Saúde nas Américas por Walt Disney

Embora não pareça à primeira vista, o post desta semana guarda estreita relação com o da semana passada sobre memória. Desta vez, trato do passado e do presente das doenças, tomando como ponto de partida o Walt Disney. Ano passado, descobri por intermédio da doutoranda alemã em geografia social Henriette Neef a animação Insects as Carriers of Disease (em inglês, Insetos como Vetores de Doença). Produzido pelos Estúdios Walt Disney em 1944, o desenho de aproximadamente nove minutos de duração conta a história do desleixado Charlie, personagem principal do vídeo.

Reduzido ao tamanho de um inseto, Charlie conhece de perto o perigo das moscas, mosquitos e pulgas, bastante comuns em sua casa e causadores, respectivamente, da disenteria, da malária e do tifo. Sem cuidado com a limpeza da sua residência e a própria higiene pessoal, Charlie é visto como um cara boa-praça que recebe bem todos os visitantes que vão à sua casa, "até os porcos e as galinhas", conforme diz o narrador do filme, em tom de ironia. Já os insetos, alçados à condição de "piores inimigos", são responsáveis por provocar mortes. Nesse sentido, a história do Charlie é emblemática para mostrar de forma um tanto maniqueísta os insetos como "monstros" perigosos capazes de verdadeiras barbaridades, sendo a principal delas transportar os micróbios causadores das moléstias.

Esta semana, ao pesquisar na internet mais informações sobre o filme, constatei que Insects... faz parte de uma série criada por Walt Disney sob o título de Health for the Americas (em inglês, Saúde para as Américas). Essa série foi encomendada pela extinta Agência de Negócios Interamericanos, um serviço governamental dos Estados Unidos que promovia nos anos 40 a cooperação interamericana, principalmente nas áreas comercial e econômica. A proposta do projeto era simples: apresentar problemas de saúde comuns nos países em desenvolvimento da América do Sul e as respectivas soluções que poderiam ser adotadas pelas pessoas para combater esses problemas.


Série apresenta problemas de saúde dos países latino-americanos

Apesar de já ter quase 70 anos, o filme guarda uma atualidade se compararmos ao discurso midiático sobre doenças, sobretudo as infecciosas. O caso da dengue é exemplar para mostrar como o mosquito Aedes aegypti é convertido nas narrativas como o "vilão", inclusive nas estratégias de combate divulgadas pelo poder público através da imprensa nas quais o inseto costuma ser o foco. As epidemias cíclicas registradas no Brasil seriam o ponto de contato entre o ontem e o hoje na produção de sentidos: as epidemias carregando consigo a noção de "mal" sanitário, que potencialmente espalha a doença e o medo entre os cidadãos, e o mosquito, apesar de minúsculo, sendo considerado o grande responsável pela situação, por ser visível e mais fácil de combater no âmbito individual.

Bom, puxar o fio do novelo da memória das enfermidades traz à tona diversas questões pertinentes ao presente que demandam outro(s) post(s), algo que, com certeza, ocorrerá. Neste momento, o mais interessante é assistir ao Insects as Carriers of Disease. Para quem trabalha com saúde pública, especialmente nas áreas de vigilância ambiental e epidemiologia, o conteúdo do filme poderá suscitar algumas reflexões que gostaria de poder compartilhar posteriormente. Afinal, aproveitando o título de um dos livros da professora de Psicologia Social da USP Ecléa Bosi, "o tempo vivo da memória" diz muito sobre a nossa vida e a nossa história, devolvendo-nos o que o passado percebeu e o presente costuma esquecer. Felizmente, existem os homens e as narrativas para poderem lembrar! Se recordar é viver, como diz a canção popular, assistamos então:

Insects as Carriers of Disease (versão em espanhol)


Filme criado pela Walt Disney Productions em 1994 dentro da série Health for the Americas, sob encomenda da Agência de Negócios Interamericana dos EUA
  
PS: A título de curiosidade e conhecimento, na versão disponível no YouTube em espanhol, o nome do personagem principal do filme é modificado para "John". Entretanto, quem acessar o link do Google Videos (http://video.google.com/videoplay?docid=641174200516837622#) verá que, na versão em inglês, o personagem chama-se originalmente "Charlie", como eu havia dito. Além disso, o narrador não é irônico, como na versão em espanhol, algo importante de ser percebido por modificar o tom do desenho.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

O ontem no amanhã

Tenho pensado muito na memória nesses últimos dias. Aliás, a memória é um dos conceitos-chave para o meu doutorado, acho que já mencionei isso, além de ter lugar cativo na minha memória (desculpem-me pelo trocadilho meio infame!) desde criança. Sempre gostei de ouvir as pessoas mais velhas contando as suas histórias. E, mais do que ouvir as histórias, ver o rosto dessas pessoas e tentar perceber o semblante delas no momento em que as lembranças vinham à tona na mente, especialmente aquelas recordações mais especiais, fossem elas boas ou ruins. É como se determinada janela do consciente se abrisse, evocando informações disponíveis no repositório de experiências vivenciadas.


Memória e atualidade sempre se unem na produção de sentidos

É através da memória que também damos significado à nossa vida. E aí eu escrevo também em defesa da memória, porque geralmente damos mais importância à atualidade, esquecendo-nos de que a remissão ao passado nos ajuda a produzir sentido(s) no presente - ainda mais quando tratamos de linguagem. Aí então a discussão fica ainda mais incorpada, já que, para produzirmos sentido, é preciso que já tenhamos sentidos prévios.


"O dizer não é propriedade particular.
As palavras não são só nossas.
Elas significam pela história e pela língua.
O que é dito em outro lugar também significa nas 'nossas' palavras.
O sujeito diz, pensa que sabe o que diz,
mas não tem acesso ou controle sobre o modo
pelo qual os sentidos se constituem nele"
Eni Orlandi na página 32 do seu livro Análise do discurso,
publicado em 2007 pela Editora Pontes


Confesso que não estava imaginando inicialmente falar sobre memória neste post. Mas as circunstâncias me levaram a tratar do assunto. Justamente porque vejo cada vez mais como a minha memória musical está impregnada de outras memórias, algumas bem distantes de mim mesmo. Dias atrás, ao dar uma fuçada no YouTube (www.youtube.com) atrás de registros musicais raros ainda desconhecidos para mim, deparei-me novamente não sei como com a canção Rio antigo, do Nonato Buzar e do Chico Anísio. Para quem não sabe, Chico, além de comediante, é compositor bem interessante, diga-se de passagem. Já o Nonato, embora não passe de um ilustre desconhecido para a maioria das pessoas, já está no ofício da música há bastante tempo, tendo composto boa parte das mais importantes aberturas de novelas globais, sobretudo nos anos 70. 

Durante muitos anos, eu nem sabia o título da canção Rio antigo. Tinha ouvido em algum lugar quando criança (com certeza, não foi na discoteca lá de casa) e isso ficou. Sempre que escutava, batia uma saudade e uma nostalgia de um tempo que nunca vivi. Ou que tinha vivido em vidas passadas. Ou simplesmente na vida de outras tantas canções que povoaram - e ainda povoam - o meu inconsciente particular-coletivo. Por isso, as diversas menções feitas pelo Nonato e pelo Chico Anísio aos "velhos tempos" têm um sabor especial hoje em dia em pleno Rio. Porque, em certa medida, vou tentando resgatar imaginariamente um pouco da beleza antiga da Cidade Maravilhosa a partir do que eu ouvia dos meus pais, familiares, leituras, vídeos, filmes e músicas. Toda uma memória que foi se formando internamente a partir de dados externos a mim. Que bom! Assim o Rio e eu vamos nos aproximando pouco a pouco para "trocar umas ideias" e reencontrar a cidade antiga na cidade nova na alegria de ver a história se formando a partir de tudo aquilo vivido.

- E ver e entender a beleza do verso "...o ontem no amanhã..." tanto na música quanto na nossa vida de maneira geral. Como nos velhos (e nos novos!) tempos. Que essa outra memória me ajude a refletir melhor sobre a memória da minha pesquisa.


Rio antigo, composição de Nonato Buzar e Chico Anísio gravada pela cantora Alcione em 1979 no LP Gostoso Veneno (gravadora Philips-Polygram/atual Universal Music), o quinto disco de carreira da "Marrom" 

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Belas noites de São João

É engraçado como a distância nos aproxima mais de nossa cultura local. Eita, saudade danada das fogueiras e do calor junino do Nordeste! Por mais curiosidade e vontade que tenha de me conectar com o mundo de fora, minha identidade sempre será marcada pela minha cultura, minha história. Que bom ter essa memória afetiva e social! Hoje, mais do que nunca, sei que ela estará comigo onde quer que eu vá, seja aqui, ali ou alhures. Por isso mesmo, orgulho-me de ser recifense, nordestino, brasileiro, sul-americano, planetário, desejando poder compartilhar minha cultura com outras culturas. Global sempre com pé na regionalidade. Olhemos, então, para o céu no dia de hoje. Ele deve estar lindo e em festa...


Olha pro céu, meu amor
Vê como ele está lindo
Olha pra aquele balão multicor
Como no céu vai sumindo

Foi numa noite igual a esta
Que tu me deste o teu coração
O céu estava assim em festa
Pois era noite de São João

Havia balões no ar
Xote e baião no salão
E no terreiro o teu o olhar
Que incendiou o meu coração
[Olha pro céu, canção de Luiz Gonzaga e José Fernandes, datada de 1951 e gravada pelo próprio Gonzagão e diversos outros artistas]



sexta-feira, 17 de junho de 2011

A epidemiologia e o poder dos números

Desde que comecei a atuar na área da saúde, tive, de cara, uma identificação muito grande com a epidemiologia. Por estudar a distribuição da saúde-doença nas populações ou em grupos de pessoas, esse campo de estudo traz consigo um saber que é muito caro: o de determinar os fatores que condicionam e determinam a ocorrência dos fenômenos nas coletividades. Sempre me interessei por conhecer mais sobre o funcionamento das sociedades, sendo na saúde então o aprofundamento analítico tende a ser cada vez maior, pela quantidade de indicadores e outros dados que quantificam os riscos.


Aos profissionais da mídia, o saber da epidemiologia é um prato cheio. Foi para mim durante um bom tempo em que trabalhei em jornal e, posteriormente, em assessoria de imprensa. Os números reinam absolutos, uma vez que concretizam para as pessoas - nós, reles mortais,- a real situação dos problemas e agravos de saúde. Na produção da notícia, os números ainda ajudam a construir as manchetes das matérias, algo extremamente interessante para o discurso jornalístico. A gripe A(H1N1), a popular suína, e a contaminação pela dita "superbactéria" Escherichia coli são dois exemplos recentes do uso dos dados epidemiológicos por parte da mídia.


Ainda quando cursava o mestrado, fui procurar saber mais sobre a epidemiologia, até porque o meu projeto teve o intuito de refletir sobre o discurso da dengue na mídia. Nesse sentido, os registros da doença tinham suma importância para mim na construção dos sentidos. Aí, lendo um pouco sobre a constituição da epidemiologia, descobri um aspecto que muito me agradou: esta ciência tinha parentesco com a comunicação. Apesar das diferenças existentes, ambas fazem parte das ciências sociais, com o diferencial de a epidemiologia ainda ser constituída pela estatística e a medicina clínica. No caso da epidemiologia, as ciências sociais ajudam a analisar as questões da saúde pública no âmbito das coletividades, os aspectos sociais do mundo humano, como diz o nosso Wikipédia, tão caro "companheiro" de pesquisa nos dias de hoje.


Saúde-doença é o foco de estudo da epidemiologia

Esta semana, ao me preparar para um seminário sobre epidemiologia e risco no PPGICS/Fiocruz, dentro dos trabalhos previstos para o doutorado, comecei a refletir um pouco mais sobre o poder dos números para a epidemiologia a partir de uma certa "matematização" na leitura dos eventos da saúde. É inegável a contribuição dessa ciência para a sociedade por buscar compreender as condições de saúde das populações, dando subsídios consequentemente para se prevenir a ocorrência de doenças e se promover a saúde. No entanto, os cálculos construídos pela área ao longo do tempo assumiram uma super importância, deixando de lado as questões socioculturais. Não é por menos que se critica atualmente uma certa distância assumida pela epidemiologia em relação às questões sociais, defendendo uma reaproximação na avaliação da saúde.


Leio essa "matemática" da vida em que vivemos como algo intrínseco do contexto contemporâneo. À medida que progredimos, temos a necessidade de regular o mundo, controlá-lo, na tentativa de reduzir as incertezas e garantir a tão sonhada segurança total. Segundo Grácia Gondim, no livro "O território e o processo saúde-doença", uma das fontes de risco e insegurança nas sociedades pré-modernas estava nos fatos do mundo físico. "Porém, com o advento da modernidade e com a proliferação dos sistemas peritos [sistemas que buscam regular a vida social por meio de estratégias que têm como parâmetro o cálculo probabilístico do risco, orientando assim a vida social], os riscos tendem a ocorrer justamente pela busca de controle e segurança", afirma a autora.

Riscos crescem à medida que o homem busca controlar o mundo

A grande "novidade" é que o controle não será possível jamais. Por mais que o homem queira e busque formas de intervir sobre os riscos que ele mesmo construiu e sistematizou ao longo do tempo e do espaço, a vida sempre será aberta ao acaso e aos imprevistos que a vida nos prega vez por outra. Por isso mesmo, no final deste post, rio com uma ponta de satisfação e ironia, lembrando-me de um trechinho da sábia canção "Da lama ao caos", do Chico Science, que retrata bem a postura do homem diante deste "mundo de Deus":

Que eu me organizando posso desorganizar
Que eu desorganizando posso me organizar
Que eu me desorganizando posso me organizar
[Da lama ao caos, canção composta por Chico Science e gravada no CD de mesmo nome pela gravadora Chaos/Sony Music (1994)] 

E assim vamos nos organizando, desorganizando, desorganizando, organizando...

sexta-feira, 3 de junho de 2011

A vez da voz e a voz da vez

Mais do que uma questão sonora ou mesmo musical, a voz vem assumindo cada vez mais uma posição de destaque nos estudos da linguagem. Cada discurso, cada texto tem a potencialidade de suscitar dentro de si distintos ecos (leia-se aí sentidos) a partir dos significados que são produzidos em sociedade. Isso nos leva a pensar que a nossa fala traz "multidões dentro de nós", remetendo a Inesita Soares de Araújo e Janine Miranda Cardoso no livro Comunicação e Saúde. A linguagem que utilizamos é relacional, depende de referenciais criados anteriormente para constituir sentidos. É claro que não é apenas memória, mas é também memória. Uma miscelânea do antigo com o novo.

Nesse sentido, o conceito de polifonia pode ser considerado constitutivo do discurso. Não é por menos que o russo Mikhail Bakthin (1895-1975) é tão cultuado entre o linguistas hoje. Os estudos dele, já nas primeiras décadas do século XX, davam conta de uma visão de língua não apenas como sistema, mas como algo que mantinha relação direta com o extra-linguístico, como o contexto da fala e o momento histórico. Algo extremamente moderno ainda nos dias de hoje e que só começou a ser valorizado após a morte de Bakthin.


Bakthin pensou a polifonia no contexto da língua

Termo comum à música, a polifonia foi tomada emprestada por Bakhtin para o campo lingüístico ao tratar do romance de Fiódor Dostoiévski (1821-1881), indicando a presença de vozes autônomas dentro do discurso e que coexistem em igualdade de posição. O autor do romance seria, nesse caso, um “orquestrador” num universo plural, tendo as vozes liberdade para concordar ou discordar dele, como se tivessem vida própria. Com as consciências participando em pé de igualdade, a polifonia traria em si a equipolência como característica capital, além de uma interação sem imposição de determinadas vozes sobre outras.

Pensando no nosso mundo da vida - como a professora Regina Marteleto costuma dizer nas suas aulas -, a polifonia é algo que gera reflexão, já que as relações de poder entre as diferentes vozes sociais são desiguais. Todos falam, mas nem sempre as suas vozes têm os mesmos apelo e força. Dependendo da posição ocupada por determinada voz no campo onde o sujeito está inserido, ela pode ser supervalorizada ou até mesmo silenciada. Afinal, vivemos numa arena de embates, seja na casa, na escola, no trabalho e até mesmo na mesa de bar com os amigos, na qual lutamos constantemente (muitas vezes, de maneira inconsciente) a fim de nos colocarmos diante do outro com os nossos pontos de vista, nossas convicções e nossas verdades. Por isso, entendo que a vida da gente é política num sentido mais geral, por sermos cidadãos e convivermos em sociedade.

Não pretendo me estender mais nisso no momento, pois o assunto merece um aprofundamento, inclusive de minha parte. Para não fazer diferente, deixo-os com uma boa letra de canção brasileira para instigar o "matutamento" desta voz que nos persegue, constitui-nos enquanto gente e às vezes nos prega peças. A voz do dono e o dono da voz, do nosso querido Chico Buarque. Composta para o LP "Almanaque", de 1981, a música é uma resposta ao fato de Chico se ver novamente nas mãos da gravadora Polygram/Philips (atual Universal Music), pouco depois de ter rompido com o selo para fazer parte do cast da Ariola e esta ter sido ironicamente vendida para aquela. Preso novamente ao "dono da voz", a "voz do dono" resolveu fazer uma canção cheia de ironias e duplos sentidos. Uma dentre tantas vozes espalhadas por este mundão afora. 



Até quem sabe a voz do dono
Gostava do dono da voz
Casal igual a nós, de entrega e de abandono
De guerra e paz, contras e prós

Fizeram bodas de acetato – de fato

Assim como os nossos avós
O dono prensa a voz, a voz resulta um prato
Que gira para todos nós

O dono andava com outras doses
A voz era de um dono só
Deus deu ao dono os dentes, Deus deu ao dono as nozes
Às vozes Deus só deu seu dó

Porém a voz ficou cansada após
Cem anos fazendo a santa
Sonhou se desatar de tantos nós
Nas cordas de outra garganta
A louca escorregava nos lençóis
Chegou a sonhar amantes
E, rouca, regalar os seus bemóis
Em troca de alguns brilhantes

Enfim, a voz firmou contrato
E foi morar com novo algoz
Queria se prensar, queria ser um prato
Girar e se esquecer, veloz

Foi revelada na assembleia – ateia
Aquela situação atroz
A voz foi infiel trocando de traqueia
E o dono foi perdendo a voz

E o dono foi perdendo a linha – que tinha
E foi perdendo a luz e além
E disse: Minha voz, se vós não sereis minha
Vós não sereis de mais ninguém

(O que é bom para o dono é bom para a voz) 


[A voz do dono e o dono da voz, música composta por Chico Buarque e gravada por ele em 1981 no LP "Almanaque" (Ariola-Polygram/atual Universal Music) e por Cida Moreira em 1993 no CD "Cida Moreira Canta Chico Buarque" (gravadora Kuarup)] 

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Gentileza também gera saúde

A ideia deste post nasceu meio que por acaso esta semana. Na última quarta-feira (dia 25/05), estava eu saindo de casa pela manhã apressado em direção à parada de ônibus para ir à Fiocruz quando me deparei com um senhor que nunca vi na vida caminhando de bengala na direção contrária. Até aí, nada demais, a não ser por um singelo, surpreendente e bacana "bom dia" que ele fez questão de me dizer. Eu prontamente respondi o "bom dia" dele com o mesmo entusiasmo e continuei a minha caminhada. Posso dizer que isso mudou o meu dia (sem qualquer conotação de auto-ajuda salvacionista...), trazendo-me um misto de contentamento e satisfação por um atitude aparentemente tão simples.

Fiquei pensando sobre aquele ato gentil o dia inteiro, e até hoje ainda. Num mundo em que as pressões sociais e econômicas sobre o ser humano estão cada vez mais fortes e evidentes e o individualismo se tornou praticamente palavra de ordem, falta tempo para certas "banalidades". Afinal, temos de (sobre)viver...

Por isso mesmo, o título Gentileza também gera saúde não é vão. Ele veio-me à mente segundos após a troca de "bom dia" entre mim e aquele senhor. Porque gentileza, na minha opinião, tem a ver com bem-estar e bem-estar, por sua vez, com saúde. Como já tinha dito num outro post, a Organização Mundial de Saúde (OMS) define a saúde como "um estado de completo bem-estar físico, mental e social". Aliás, como nunca é demais verificar o significado das palavras, segundo o Moderno Dicionário de Língua Portuguesa Michaelis (disponível na internet - http://michaelis.uol.com.br/), bem-estar é definido como "situação agradável do corpo e do espírito; conforto, tranquilidade".

A grande questão é saber como encarar esse bem-estar. A meu ver, existe um aspecto crucial que infelizmente (ou felizmente, depende do ponto de vista de cada um...) faz parte da nossa dita cultura "pós-moderna": não se descobriu ainda a fórmula química do bem-estar a ponto de torná-lo um medicamento. E, não sendo remédio ainda, é impossível de ser comercializado, não gerando consumo, lucro, riqueza.

Profeta Gentileza é autor da frase que leva o seu nome
Aos usuários de saúde de plantão, especialmente àqueles que sempre adoram um "remedinho" e não têm tempo de parar para pensar sobre a vida que os cerca, vamos nos lembrar da célebre frase "Gentileza gera gentileza". Acredito que essa afirmação - criada pelo Profeta Gentileza (1917-1996), conhecido personagem urbano carioca - possa fazer a diferença, se incorporada de fato à nossa vida, proporcionando uma vida mais agradável e consequentemente uma saúde melhor e até mais saudável que aquela que temos hoje. De minha parte, desde ontem, torço para encontrar aqui perto de casa aquele senhor que me dirigiu o "bom dia" com tanta gentileza para lhe dizer o quanto foi bom o meu dia. Por hora, tento me inspirar nele para semear novas gentilezas para outras pessoas. Afinal, não custa nada. É apenas uma questão de atitude!


Nós que passamos apressados
Pelas ruas da cidade
Merecemos ler as letras
E as palavras de Gentileza

Por isso eu pergunto
A você no mundo
Se é mais inteligente
O livro ou a sabedoria

O mundo é uma escola
A vida é o circo
Amor palavra que liberta
Já dizia o Profeta

[Gentileza (Marisa Monte), música gravada pela própria Marisa no CD "Memórias, crônicas e declarações de amor", o seu quinto disco de carreira, lançado em 2000 pela EMI]