Me vejo o tempo todo começar de novo E ser e ter tudo pela frente Abril, composição de Adriana Calcanhoto gravada por Leila Pinheiro, em 1998, no CD "Na Ponta da Língua" (EMI Music)
Na sucessão regular de eventos ou fenômenos, a sequência construída aponta para o meio, o fim e o início de um ciclo, sob diferentes perspectivas. Os olhos se habituam à cidade. Ela torna-se mais familiar e integra-se ao rastro de recordações, numa visão estrangeira e radicada. O rio que passa no intermédio é também o Rio ribeira onde é possível atracar o barco, fincando raízes. É também o limite do espaço e o remate de uma fase. Fecho de composição e, ao mesmo tempo, preâmbulo. Singela (re)transform(ação).
Neste meio, neste fim e neste início, como em qualquer outra etapa da vida, há um caminho, e não uma pedra, ao contrário do que disse Drummond. Um caminho de direções a marcar e a seguir, um caminho de encontros e de despedidas. Vida de estação. Plataforma de muitas idas e vindas. E, assim, na série de acontecimentos que se segue, a ordem se estabelece e o processo continua, ininterruptas paisagens em todas as estações. Dentro e fora dos trens e em todos os sentidos. Tô chegando, tô partindo, tô ficando.
São só dois lados
da mesma viagem
O trem que chega
é o mesmo trem da partida A hora do encontro é também despedida A plataforma desta estação é a vida deste meu lugar Encontros e Despedidas, canção de Milton Nascimento e Fernando Brandt
e gravada primeiro por Simone, em 1981, no álbum "Amar" (CBS-atual Sony Columbia), depois pelo próprio Milton, em 1985. no LP "Encontros e Despedidas (Barclay Polygram-atual Universal Music) e por Maria Rita, em 2003, em CD "Maria Rita" (Warner Music)
Quando eu estou sozinha no meu canto Penso muito nas pessoas Penso muito nos seus cantos Penso o quanto foi difícil Para cada um falar E sinto o coração se confortar E fico por um tempo - meio assim
Estar no entremeio e concretizar algo em fase de elaboração. Talvez esse seja o sentimento que melhor caiba no comentário desta semana. Tudo na cabeça ainda fluindo sem muita nitidez, apenas sensações no meio da estrada. Pequenos redemoinhos a espirar aqui e acolá no espaço de dentro. Por isso mesmo vem bem a calhar uma brincadeira neologística substantiva com a expressão matutar no título do post.
Bastante utilizado no Nordeste brasileiro, esse lindo verbo intransitivo (que não precisa de outro complemento para significar) deriva da palavra matuto, que quer dizer, em geral, alguém do mato, acanhado, desconfiado e até mesmo ignorante. Matutar, então, representa o ato de refletir, meditar, cogitar. "Parte do tempo esteve à janela, matutando", já escreveu Machado de Assis em Quincas Borba, ao tratar do personagem Rubião, ingênuo rapaz que se torna discípulo do filósofo que dá nome ao referido livro.
E penso em sentimentos meus Penso em sentimentos Quantos edifícios, quantas casas Quanta gente dentro - como será... Que sonhos terão Será tudo em vão Eu juro que não
Matutando sobre leituras que vêm mexendo comigo, desta vez, o pensador alemão Andreas Huyssen com o seu Passados presentes e sua análise a respeito da emergência da memória como uma das preocupações centrais da sociedade ocidental de hoje. Observado desde os anos 80 inicialmente na Europa e nos Estados Unidos, esse fenômeno sociocultural tirou de cena o futuro para colocar no lugar o passado como foco das atenções. Os projetos políticos e as ideologias de outrora caíram por terra, provocando uma nova lógica sensível do sujeito diante do mundo, juntamente com os avanços tecnológicos.
A obsessão contemporânea com o pretérito, que se visualiza numa difusão cada vez maior de práticas memorialísticas na cultura de modo geral, é consequência desse processo. Cultivar o passado significaria, em certa medida, uma forma de (re)afirmação do indivíduo frente a esse mundo. É claro que essa inferência é bem generalista e carece de maior aprofundamento. Por hora, comungo com a ideia do Huyssen (2001, p. 20), quando ele diz que o medo do esquecimento que acompanha a cultura da memória que vivenciamos atualmente é uma maneira de garantir a sobrevivência "em um mundo caracterizado por uma crescente instabilidade do tempo e pelo fracasso do espaço vivido".
E os morros vão ficando azuis
Sobre essa cidade
Sobre essa cidade
Eu já estou ficando pronta
Para viver a minha idadde
Para entender a liberdade
Para contar para os nossos filhos
Uma história de amor
E, até quem sabe, para fazer o amor
E é bem capaz da gente ser assim
Diante da velocidade do tempo que se instaura e das próprias inovações técnicas que tornam o presente mais fugaz e até mais passado rapidamente, paro um pouco para matutar as imagens e os sons que passam pela janela. Não como Carolina, e sim como meteorológico observador. E aí nesse refletir, meio ignorante, meio tímido, meio cismático, meio profundo, vejo-me com uma música que tive a felicidade de escutar e conhecer ao vivo dias atrás no show Leila Pinheiro Canta Mulheres e admirar de prima. Foi essa canção que inspirou e alinhavou a costura "pré-matura" desta semana que vos escrevo.
E a tarde vai caindo em mim
Sobre essa cidade
E eu fico pensando assim
A Tarde vai caindo em mim
E eu fico pensando assim
[ A Tarde, composição do casal Francis Hime e Olivia Hime ]
Cada nova ideia de autor, cada nova canção traz consigo uma nova imagem-reflexão que carece. Ínspira pura matéria flutuando no leito do pensamento, como notas que são tocadas uma a uma na base do instrumento, preparando a alma da memória para adentrar no rio.
O que mais me comove, em música,
são essas notas soltas - pobres notas únicas -
que do teclado arrancam o afinador de pianos...
Mario Quintana em Meu Trecho Predileto,
extraído do livro Sapato Florido (Editora Globo, 2005)
Referências bibliográficas
ASSIS, Machado de. Quincas Borba. 4. ed. São Paulo: Clube do Livro, 1980.
HUYSSEN, Amdreas. Passados presentes. In: Seduzidos pela memória. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2001.
QUINTANA. Mario. Sapato florido. 2. ed. São Paulo: Globo, 2005.
"Não sei se o acaso quis brincar Ou foi a vida que escolheu Por ironia fez cruzar O seu caminho com o meu" Abel Silva e Ivan Lins em Acaso "O acaso vai me proteger Enquanto eu andar distraído" Sérgio Britto em Epitáfio
Inicialmente, pensei em intitular o post desta semana de O passado no presente e no futuro, em decorrência de certas lembranças que voltaram à tona nos últimos dias. Mas aí depois decidi mudar o título para O acaso da memória. Na semana que passou, fui assistir ao novo espetáculo da Gal Costa, "Recanto", aqui no Rio de Janeiro. Em determinado momento da apresentação, Gal cantou O Amor. Música de Caetano Veloso e Ney Costa Santos, O Amor foi composta sobre um poema do russo Wladimir Maiakovski (1893-1930), considerado um dos principais nomes da vanguarda futurista e um dos maiores poetas do século XX.
Essa canção faz parte do LP "Fantasia", lançado por Gal em 1981 (gravadora Polygram-atual Universal Music). Não é das faixas mais conhecidas do grande público, mas um dos pontos altos do disco, a meu ver. Pois bem, assim que Gal cantou a música, eu me reportei imediatamente à minha infância. Era como se, por um momento, eu tivesse saído da plateia do teatro e voltado no tempo, lá pelos meus 6 ou 7 anos, para a sala da casa de meus pais. O Amor povoa a minha memória musical, assim como tantas outras canções que tocaram na radiola da sala lá de casa. Gal, evidentemente, fazia parte da nossa discoteca.
Gal Costa cantando "O Amor" (Caetano Veloso/Ney Costa Santos/Vladimir Maiakovski) - Show Recanto -
Contracapa do disco "Fantasia", de 1981
Eu me vi, então, sentado no antigo sofá, lendo com curiosidade o encarte do LP, enquanto escutava a bela canção. Tempo em que ainda era possível "degustar" o trabalho de um artista e eu ouvia com prazer e atenção tudo o que rolava em matéria de MPB. Por isso, optei pelo termo "acaso" no título deste post, com o intuito de fazer um trocadilho com a memória. De acordo com o site do Dicionário Michaelis, esse substantivo masculino tem como um dos significados possíveis acontecimento incerto ou imprevisível, casualidade. Também pode ser destino, fortuna, sorte.
Capa do CD "Recanto", lançado em 2011
Para quem lê sobre memória, sabe que o presente é fundamental na evocação do passado. Sendo assim, o acontecimento tem importância vital para a produção de sentidos. Ciente de que guardamos apenas algumas lembranças de cada época de nossa vida, a música tem uma presença muito forte na minha vida e, claro, no meu baú de recordações. Ela seria, então, o ponto de contato com o aspecto social da minha memória. As memórias não são individuais apenas. Elas se ligam à memória coletiva, como diz o sociólogo francês Maurice Halbwachs (1977-1945).
Para que a memória exista e se conserve, é preciso que esteja vinculada a algum grupo. Segundo Halbwachs (2004, p. 169, Tradução Nossa), "a memória dos homens depende dos grupos que a rodeiam e das ideias e imagens nas que os grupos têm o maior interesse". Desse modo, as nossas memórias não estão solitárias no mundo. Elas estão ligadas, de alguma forma, a outras pessoas também.
Memória e sociedade em Halbwachs
"A memória individual não é mais que uma parte e um aspecto da memória do grupo, como de toda impressão e de todo fato, inclusive naquilo que é aparentemente mais íntimo se conserva uma lembrança duradoura na medida em que se refletiu sobre ela; é dizer, se a vinculou com os pensamentos provenientes do meio social" (HALBWACHS, 2004, p. 174, TN). Só o fato de estar escrevendo aqui sobre Gal, o LP que ela gravou em 81, o show que ela está fazendo atualmente e a canção O Amor é uma forma de deixar viva a minha memória, a partir do momento em que eu compartilho meus escritos na internet.
Como um acontecimento imprevisível, essa lembrança da música foi quase que um acaso para mim. Seria uma ideia interessante de comparar minha recordação com alguma coisa que metaforicamente "caiu" na minha frente, já que o termo "acaso" vem do latim a casu, que, por sua vez, deriva de cadere (cair). Sendo assim, termino este post com um trecho do texto original do Maiakovski que inspirou Caetano Veloso e Ney Costa Santos e que bem poderia caracterizar poeticamente a função da memória nestas minhas reflexões:
Ressuscita-me,
nem que seja só porque te esperava
como um poeta
repelindo o absurdo cotidiano!
Ressuscita-me,
nem que seja só por isso!
Vladimir Maiakovski em O Amor
Referências bibliográficas
HALBWACHS, Maurice. Los marcos sociales de la memoria. Caracas: Universidad Central de Venezuela, 2004.
Já faz algum tempo que não escrevo aqui no blog. De certa forma, isso trazia-me certo desconforto pelo desejo de dar continuidade aos textos e não ter inspiração suficiente. Pensar dói, escrever idem, pela humana exigência da consciência e da linguagem. Felizmente, nem tudo estava/está perdido. Eis que me deparo hoje com um lindo vídeo postado recentemente no Youtube da cantora Leila Pinheiro e do compositor Célio Cruz cantando juntos uma composição dele no Projeto Amazônia Convida, em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) do Rio de Janeiro até novembro deste ano.
Aparentemente isso não teria qualquer correlação com a proposta deste blog. Mas foi a declaração da Leila contida no programa do show - a que abre este post - que me deu o estalo para a pertinência com o que venho fazendo. Ambos, projeto de show (da Leila) e projeto de doutorado (meu) têm a ver com trilha, com caminho que se busca fluir. A trilha é plena de possibilidades, afinal existem várias direções possíveis. Na trilha, há as paisagens ao redor, potencialmente diversas, a depender do rumo tomado. Cores, cheiros, visões, sensações, encontros, descobertas, tudo isso vai nos fazendo seguir.
Imagem do programa do show Amazônia Convida, em cartaz no CCBB do Rio de Janeiro
Mas a trilha não é apenas isso. É som também. E na trilha vai se formando discretamente uma outra trilha repleta de canções, como um tapete mágico-sonoro dotando o caminho de intenções bem particulares, amalgamando as faces da vida numa vida toda. Não tinha realmente me dado conta dessa trilha ao fundo. Embora a característica musical sempre estivesse presente lá, ao tratar da trilha, só me vinha à mente a mata imaginária com seus imensos troncos e sua primária cor verde e um trilho a compor o caminho a seguir, deixando para frente e para trás o rastro do que foi e do que virá.
Então, metaforicamente contente e satisfeito de mim, retomo a trilha com uma trilha bem peculiar. Aproveitando o ensejo do Amazônia Convida, destaco o final da apresentação de 25 de setembro de 2012 que reuniu Leila e Célio cantando juntos a tal composição dele que havia mencionado no começo deste post e à qual tive a felicidade de assistir de perto na plateia. Não sei o título da canção. Busquei na internet, mas não consegui descobrir o nome. Sinto por isso. De todo modo, o fundamental é a intenção do gesto e do som. Que eles possam acertar com os intentos puros e simples, justamente os mais profundos...
"Tive a ideia de te entregar um poema cantando rio
Na imagem do teu olhar o sol se vai por um fio"
Célio Cruz
* Dedico a retomada desta trilha à querida Leila Pinheiro, que tanto toca a minha trilha.
Recebi de uma amiga uma mensagem desejando um Feliz Dia do Amigo e fiquei contente pela lembrança. Não só gentileza é saúde, como também (e principalmente!) amizade. Faz bem ao coração e à alma. Por isso, resolvi compartilhar com os amigos queridos a alegria deste dia. Embora hoje seja a data comemorativa oficial, a celebração deve ser permanente, o ano inteiro. Amigo é pedra preciosa pelo bem querer desprendido e humano. Amigo simplesmente é e ponto final. Como diria liricamente o poeta Vinicius de Moraes:
"[...] um ser que a vida não explica
Que só se vai ao ver outro nascer
E o espelho de minha alma multiplica"
Vinicius de Moraes em Soneto do Amigo
Não pretendo discorrer muito hoje. Apenas parar um pouco, lembrar dos amigos e, na medida do possível, enviar uma palavra de carinho, mesmo que em pensamento. Como neste post, em que destaco com total pertinência a canção "Amigo é casa", do pernambucano Capiba (1904-1997) e do carioca Hermínio Bello de Carvalho, resgatada em 2008 por Simone e Zélia Duncan no DVD de mesmo nome. Gosto muito desse título porque acho que traduz o que representa, de fato, um amigo de verdade na nossa vida. Segue abaixo o link desse choro na voz das duas cantoras citadas e um trecho da letra da música:
"Amigo é feito casa que se faz aos poucos
e com paciência para durar para sempre
Mas é preciso ter muito tijolo e terra
preparar reboco, construir tramelas
Usar a sapiência de um João-de-barro
que constrói com arte a sua residência
Há que o alicerce seja muito resistente
que às chuvas e aos ventos
possa então a proteger"
Capiba e Hermínio Bello de Carvalho em Amigo é casa
Urdidura é um termo próprio à costura. Ele se refere aos fios estendidos longitudinalmente em um tear e através dos quais é lançada a trama. Também diz respeito à tramoia, maquinação, enredo e entrelaçamento. Neste post, a urdidura tem todos esses sentidos e outros mais, levando-se em conta os resultados do seminário Comunicação, Informação e Cidadania: Tecendo Saberes na Saúde. Organizado pela minha turma de doutorandos do PPGICS e realizado nos últimos dias 14 e 15 de junho no ICICT-Fiocruz, no Rio de Janeiro, o evento superou as expectativas, a começar pela proposta idealizada.
Inicialmente, pretendia-se apenas reunir conceitos caros aos projetos de pesquisa em desenvolvimento por mim e meus companheiros do curso em mesas temáticas. Só que o trabalho em conjunto e o compromisso de querer fazer o melhor acabou reverberando positivamente no evento. A urdidura das palestras e, sobretudo, das discussões levantadas a partir das falas dos convidados gerou um tecido de saberes com cores e formas interessantes de se ver e ouvir. Em parte, essa trama foi decorrente dos palestrantes.
Papel da biomedicina na construção social de saúde e doença foi discutido no evento
Sem uma articulação prévia entre eles, todos os pesquisadores convidados souberam dialogar com os temas propostos e ainda lançar indiretamente reflexões para temáticas dos outros participantes de forma bastante positiva. As mesas tinham como eixo geral de discussão o papel da biomedicina na construção social sobre saúde e doença, as contribuições da comunicação e da informação em saúde para consolidação da cidadania e a qualidade da informação e a informação para qualidade em saúde.
Seis palestras foram realizadas nos dois dias. Nelas, foram abordados:
a construção social das doenças: o caso da doença de Chagas e seu enquadramento pela medicina tropical (Simone Petraglia Kropf - COC-Fiocruz);
o movimento médico-sanitarista e a difusão da ideologia da maternidade científica no início do século XX (Maria Martha de Luna Freire - UFF);
o governo eletrônico e sua contribuição para a saúde como direito à cidadania (Ricardo Ismael de Carvalho - PUC-Rio);
as contribuições da comunicação e informação em saúde para cidadania (Suzy dos Santos - ECO-UFRJ);
decisões de saúde baseadas em evidências: qual o papel da informação científica nesse processo (Maria Cristiane Barbosa Galvão - USP)
a informação com perspectiva em qualidade em saúde (Ilara Hämmerli Sozzi de Moraes - ENSP-Fiocruz).
Há que se ressaltar o papel dos debatedores no evento. Cada professor que participou das mesas soube tirar proveito das falas, fomentando as discussões que desejávamos. Para o público que esteve presente e para nós, doutorandos, evidentemente, isso foi muito bom porque gerou questionamentos, provocações e análises. No meu caso, pude repensar o projeto de pesquisa em vários aspectos, a começar pelo conceito de doença.
Cidadania e qualidade da informação foram foco de discussão em outras duas mesas
Sabendo que a doença significa uma forma de representação da sociedade, e não apenas um fenômeno biológico que se manifesta no organismo de um indivíduo, o conceito de framing, abordado no seminário sob a ótica da História da Medicina, pode ser interessante de ser aprofundado. Em linhas gerais, framing é considerado o produto de um ato de enquadramento pelos sujeitos em determinadas circunstâncias históricas e sociais. Assim, o significado de uma enfermidade não seria apenas decorrente do campo biomédico, mas também consequência de um processo de lutas e negociações ocorridas no seio social.
Além disso, outros pontos levantados no seminário foram extremamente importantes. Entre eles, o papel dos meios de comunicação como retroalimentadores de normas biomédicas, a importância dos estudos científicos na produção de "verdades" e a consciência de que nem as informações com qualidade muito menos as evidências de pesquisa são neutras. Aliás, como nada na vida é totalmente neutro, por mais que possa parecer.
No fim das contas, acredito que conseguimos transformar os fios num pano bacana e contribuir, de alguma maneira, para o campo da comunicação e da informação em saúde. Evidentemente, não foi uma contribuição de grande vulto. Mas, a nosso modo, pudemos incentivar a indagação entre as pessoas, seja para a prática de pesquisa, seja para prática da própria vida mesmo. Pois, aproveitando a fala da professora Ilara, que fechou o ciclo das palestras com uma citação do escritor português José Saramago (1922-2010):
"A prioridade absoluta tem de ser o SER HUMANO. Acima dessa, não reconheço nenhum outra prioridade."
É curioso rememorar o passado através das lembranças vividas. Nos últimos dias, papeando com um novo amigo num boteco aqui do Rio, acabamos trazendo à tona lembranças musicais antigas que marcaram nossas infâncias e adolescências. A canção, especialmente a brasileira, sempre esteve presente desde a mais tenra idade. Tanto que não consigo lembrar, ao certo, do primeiro contato com a música. Nas minhas memórias mais longínquas, ela já estava lá, em grande parte porque minha família apreciava escutar discos, como aprecia até hoje. Então, isso acabou sendo assimilado naturalmente por mim.
Na infame fase das lambadas, entre fim dos anos 80 e início dos 90, eu simplesmente odiava tudo o que tinha a ver com esse gênero musical. Então, artista que se meteu a cantar modismos acabava virando farinha de um saco só que eu não queria abrir mais. Foi o que ocorreu com a Elba Ramalho. Sempre admirei a sua identidade nordestina. Tinha a impressão de ser uma jóia bruta no jeito de cantar e se expressar e, por isso mesmo, tão especial e bonita. Quando criança, gostava de vê-la e escutá-la cantando frevos, especialmente. Entretanto, na época dos hits "Doida" e "Ouro puro" (auge dos sintetizadores e instrumentos eletrônicos na MPB), acabei identificando-os com as lambadas e isso me fez perder um pouco o interesse e encanto por ela. Hoje, evidentemente, isso mudou.
Falo sobre o assunto retomando um pouco do post Memórias e saudades do Recife em carnis valles. Com o passar do tempo, as memórias tendem a se aplainar, em grande parte pela maior distância com o fato vivenciado e o próprio processo de envelhecimento. Então, o que era uma coisa tão grandiosa antes pode não ser o mesmo hoje em dia. Também mudamos com o tempo, então as vivências evocadas tomam um outro sentido. Bem, tudo isso aqui é apenas uma maneira de dizer que, já na fase adulta, continuo admirando muito ver a Elba cantar e não achando mais tão odioso assim os antigos hits. Também pudera. Comparados aos sucessos de hoje, eles são verdadeiros clássicos do cancioneiro popular...
E eu, assim como o Drummond, amo o perdido. Entretanto, e felizmente, meu coração não se confundiu, como o dele. Talvez porque as coisas tangíveis ainda sejam sensíveis à palma da minha mão. E "as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão".
[ Elba no programa Globo de Ouro, da Rede Globo, em 1988, cantando o pout-pourri com as músicas: Energia (Lula Queiroga), Quero mais (Naldo Cordel), Banho de cheiro (Carlos Fernando), De volta pro aconchego (Dominguinhos/Naldo Cordel) e Doida (Naldo Cordel) ]
PS: Agradeço a Leandro Arraes pela indicação do vídeo. Valeu, Leandro!