Interessante ver como a memória transparece em pensamentos, vontades e projetos. Na música, uma das iniciativas mais recentes vem sendo encabeçada pelo ex-titã Charles Gavin. Histórias & Memórias Música Pop Brasileira - misto de palestra, entrevista e show - une música e bate-papo, rememorando fatos e canções marcantes na carreira de artistas da música brasileira. Em 2012, a iniciativa foi realizada em Brasília (outubro) e no Rio de Janeiro (novembro). Na capital federal, o projeto contou com a presença de Hyldon e Danilo Caymmi. No Rio,os convidados foram Joyce, Wilson das Neves e Leila Pinheiro.
Para além da delícia de escutar a história e as histórias em prosa e melodia desses artistas, o projeto é revelador da importância que a memória assume na nossa cultura. Há uma necessidade vital na contemporaneidade de se evitar o esquecimento e, por isso, iniciativas como o projeto Histórias... visam ao resgate de parte da memória da MPB.
Dos shows para a internet, as apresentações foram condensadas em vídeos curtinhos e disponibilizados no youtube (www.youtube.com) ainda em dezembro de 2012 para o deleite dos fãs. Aos que estiveram presentes a alguns dos pockets shows promovidos, como eu, esses vídeos representam um pouco do que foram aqueles momentos em que a memória se tornou o fio condutor a costurar a trajetória narrativa dos artistas.
Diz o sociólogo francês Maurice Halbwachs (2006) que as testemunhas orais ou escritas nos ajudam a corroborar ou recordar uma lembrança. Atualmente, a mídia - incluindo aí a internet - seria um desses testemunhos relevantes. A memória midiática seria, então, memória social e situação social de memória, uma vez que produz lembranças para falar a um público não só contemporâneo, como também distante e futuro, segundo defende Gérard Namer (1987), outro sociológico francês.
Por ser um grupo normativo, que acumula memórias e se legitima por esse acúmulo, a mídia se configura num objeto importante de ser estudado. Consolida-se como uma comunidade interpretativa que mantém o público pelas suas histórias, narrativas, retóricas e, principalmente, a maneira como o conhecimento é representado nesses relatos.
Dos vídeos disponíveis do projeto Histórias & Memórias Música Pop Brasileira, selecionei os três da temporada carioca, que contou com a participação da compositora Joyce, da cantora Leila Pinheiro e do baterista Wilson das Neves. Três momentos distintos e bem descontraídos de música e narrativa. Como não consegui inserir diretamente neste post os vídeos aos quais me refiro, decidi informar o link para quem tiver interesse em assisti-los.
Largo Elis Regina - Vila do IAPI - Bairro Passo d'Areia - Porto Alegre (RS)
Essa lembrança talvez nem seja nossa,
mas de alguém que, pensando em nós, só possa
mandar um eco do seu pensamento
nessa mensagem pelos céus perdida
Mário Quintana em "A Cor do Invisível"
Não estava pensando em escrever comentário esta semana. Mas um breve post no Facebook escrito por mim sobre a cantora Elis Regina me fez bater o desejo inesperado de desenvolver um pouco mais sobre o comentário no meu blog. Para "variar", a memória é o fio condutor das reflexões, afinal é o conceito que mais mexe com a minha cabeça em função do doutorado. E por que Elis? Porque ela representa um case bastante interessante de como a memória a respeito de um ídolo musical significa na nossa cultura.
Falecida em 19 de janeiro de 1982, Elis marcou a música. Ainda hoje é considerada a maior cantora brasileira. A morte polêmica, provocada pela overdose de cocaína e álcool, arregimentou uma legião de fãs e admiradores, mostrando o quanto era querida pelo país. O seu velório atraiu cerca de 25 mil pessoas ao extinto Teatro Bandeirantes, em São Paulo. O Corpo de Bombeiros foi acionado para levar o seu caixão até o Cemitério do Morumbi, onde foi enterrada. Milhares de pessoas seguiram o cortejo a pé e outros tantos renderam homenagens no trajeto, jogando flores e papel picado das janelas dos edifícios.
Na época, a TV Globo acionou um helicóptero para fazer a cobertura do cortejo. Apesar de ser algo comum hoje, na época, a estratégia era arrojada, indicando a força de Elis. As demais emissoras de televisão, bem como jornais e revistas, renderam bastante espaço para tratar da morte da cantora. Antes dela, somente Francisco Alves e Carmem Miranda tinham causado tanta comoção nacional. Logo Elis, que era taxada por alguns críticos de música como uma cantora de elite... Por ser uma cria da televisão dos anos 60, justamente num momento de consolidação desse tipo de veículo, e por ter trilhado a carreira também pela TV, a popularidade da Pimentinha se mostrou mais forte do que se poderia supor. Tudo isso somado ao seu temperamento forte, à voz inconfundível e ao repertório de peso gravado ao longo da vida contribuiu para torná-la, nas palavras da própria imprensa, uma espécie de repórter do seu tempo, auxiliando na construção de uma identidade relevante.
Uma trajetória tão marcante não poderia resultar em outra coisa a não ser saudade. Por isso, a memória em torno dela suscita uma leitura muito particular. Mesmo com momentos mais mornos, como no início da década de 90, quando parecia ter sido esquecida, Elis sempre foi motivo de pautas jornalísticas. A partir dos 20 anos de sua morte, a situação mudou de figura. Recentemente, em 2012, seu nome voltou à cena em razão das comemorações organizadas pelos filhos João Marcello, Pedro Mariano e Maria Rita em homenagem à mãe. Juntamente com os 30 anos da morte, que por si só costuma gerar cobertura, bem ao gosto das datas comemorativas, os novos projetos estimularam mais de uma centena de pautas nos veículos, alimentando ainda mais as lembranças em torno da cantora.
Ao falar sobre Elis, a mídia contribui para tornar viva a memória, além de se reafirmar como um lugar de memória na contemporaneidade, trazendo à tona um termo cunhado pelo historiador francês Pierre Nora. Lugar de aparência material e de constituição de arquivos de monta, além de configuração de uma aura simbólica sobre si mesma, garantindo a cristalização das lembranças e, principalmente, a veiculação delas para a sociedade. Lugar também de legitimação dos meios, estabelecendo um pacto simbólico com a audiência de autoridade na representação do conhecimento sobre a cantora. Espaço de poder.
A internet é um bom exemplo desse lugar de memória na atualidade. No Google, existem hoje, 3,4 milhões de links a respeito de Elis. O Youtube registra 43 mil resultados com o seu nome. Evidentemente que nem tudo term a ver com Elis. Mas é verdade que um bom acervo já foi constituído nos últimos anos com textos, imagens e áudios da cantora em sites e blogs, oportunizando o acesso da informação, sobretudo, para as novas gerações que nasceram após 1982 e não tiveram a chance de vê-la ao vivo.
Acervo Elis Regina - Casa de Cultura Mário Quintana - Porto Alegre (RS)
Inspirado nas reflexões do filósofo francês Michel Foucault (1926-1984), Pierre Nora considera que a moderna memória está ligada aos arquivos. Nesse sentido, a vivência de parte importante dessa memória vem sendo feita coletivamente na virtualidade das tecnologias, e não mais entre grupos físicos, como em tempos antigos. Eis aí a simbologia dos meios de comunicação na preservação das lembranças. Por isso, neste 19 de janeiro de 2013, fica difícil pensar em 31 anos "sem" Elis, já que essa preposição indica ausência, exclusão. A matéria pode até não estar presente entre nós. Porém, a memória, essa parece estar mais presente do que nunca. Mais adequado, então, seria dizer, 31 anos "com" Elis.
Poderia ficar aqui desenvolvendo mais, já que Elis se configura num ponto de partida para muitas reflexões. Mas, dada a extensão deste post, finalizo-o com o texto do escritor Luís Fernando Veríssimo publicado no jornal Zero Hora de Porto Alegre (RS), em 19 de janeiro de 1983, um ano após a morte de Elis. Acho que exprime e arremata bem o sentido da memória em relação à nossa querida Pimentinha e indiretamente num sentido mais amplo:
A voz continua, viva e límpida. Continua nos discos e nas fitas. E continua, ainda mais límpida e mais viva, na nossa memória.
O resto é como um desenho feito a lápis, sem fixador, que vai se apagando com o tempo. O que ela fez, o que ela disse, o que disseram dela...
A voz não se apaga. O disco pode arranhar, a fita pode gastar, mas a voz que a gente guarda na memória continua tão nítida que até atrapalha: não podemos ouvir outra cantora sem ouvir, junto, a voz dela, e comparar. É covardia. Ninguém mais canta como ela. Era uma baixinha complicada.
Uma pimenta, planta miúda e ardente. Tinha de saber como lidar, senão ela queimava. Morreu e se transformou num milagre de botânica.
Hoje é uma flor que a música brasileira usa atrás da orelha.
E o seu nome é sempre-viva.
Ela usava a voz como um instrumento.
Ela era isso, um instrumento de sopro. Como o piston, que também é pequeno e difícil mas canta como um anjo.
Só que os instrumentos, bem cuidados, duram cem anos.
E ela não se cuidou. Acabou antes do tempo.
Mas a voz continua, viva e límpida.
Continua nos discos e nas fitas. E ainda mais viva e límpida na nossa saudade
Luís Fernando Veríssimo em "Sempre-Viva!"
ELIS EM TEMPOS E ESPAÇOS DIVERSOS:
Lúcia Esparadrapo / Mudei de Ideia / Você Abusou / Mas que Doidice / Desacato (Antônio Carlos e Jocafi)
Rosa Morena (Dorival Caymmi)
Corcovado (Tom Jobim)
Canção do Sal (Milton Nascimento)
Plataforma (João Bosco/Aldir Blanc)
Ilusão à Toa (Jonnhy Alf)
"Ninguém está mais vivo que Elis Regina. Influência, exemplo, paradigma, deusa, musa. Seu legado humano e artístico é de tal ordem que, a alegria de tê-la conhecido sobrepuja o luto. [...] Ouvir Elis é para sempre." Aldir Blanc
Comemoração de um fato geralmente auspicioso, a efeméride é uma forma de prestarmos atenção ao tempo e rememorarmos acontecimentos do passado, muitas vezes envolvendo figuras públicas. O recurso é bastante utilizado no jornalismo, assim como os obituários e os perfis biográficos, transformando a imprensa numa instância didática e, por isso mesmo, útil, segundo afirma Alberto Dines. No seu artigo "Modo de usar", publicado no site do Observatório da Imprensa, ele informa que esse tipo de pauta foi introduzido no jornalismo brasileiro pelo jornalista e cronista esportivo Armando Nogueira no Jornal do Brasil, configurando-se num "álbum de recortes, agenda (do latim agere, agir), organização de ações, lembretes". Nesse sentido, a efeméride é um convite à memória.
Se o início de 2012 foi marcado pela lembrança na mídia sobre os 30 anos da morte da cantora Elis Regina (1945-1982), o final deste ano está sendo voltado ao centenário de nascimento do sanfoneiro, cantor e compositor Luiz Gonzaga (1912-1989). Famoso por popularizar ritmos tipicamente nordestinos, Gonzagão recebeu o título de "Rei do Baião", sendo considerado hoje um dos ícones da música brasileira de todos os tempos. Asa Branca, composta em parceria com Humberto Teixeira, é a sua canção mais emblemática. A música é considerada um hino do Nordeste por retratar a seca que castiga animais e homens que lá moram, obrigando-lhes a migrar com saudade no coração.
Assim como com Elis, Gonzagão vem recebendo várias homenagens pelo Brasil. Uma das mais importantes foi o filme Gonzaga - De Pai para Filho. Dirigido por Breno Silveira, o longa narra a relação de amor e conflito entre o sanfoneiro e o seu filho, o compositor Gonzaguinha (1945-1991). A trajetória do Rei do Baião é contada desde a fuga da cidade natal, Exu, no sertão de Pernambuco, até a turnê "Vida de Viajante", em 1981, que marcou as pazes com o seu filho. Lançado no dia 26 de outubro, De Pai para Filho já ultrapassou a marca de mais 1 milhão de espectadores em pouco menos de um mês.
Trailer do filme Gonzaga - De Pai para Filho (Brasil, 2012)
Para além de resgatar uma história importante da nossa música brasileira, a cobertura midiática a respeito de Gonzagão é revelador do lugar da memória. Embora esse recurso jornalístico seja antigo, como dissemos, ele adquiriu um valor diferenciado na atualidade, contribuindo por legitimar e enquadrar um certo tipo de memória, sobretudo no contexto de midiatização em que vivemos, marcado pelo predomínio das mediações e das interações baseadas nos meios de comunicação. Ocupando um lugar privilegiado na narrativa de fatos históricos, a mídia vulgariza a própria narrativa histórica, dotando a trajetória de vida de personalidades de uma singularidade. Através da mídia, essa trajetória existe e, a partir do presente, o passado é reinterpretado, analisa Sacramento (2009), ao tratar dos discursos midiáticos a respeito da morte do escritor Dias Gomes, ocorrida em 1999.
Poderíamos dizer, assim, que os meios se converteriam em gestores da memória. A própria midiagrafia, que revaloriza o discurso biográfico, de acordo com Sodré (2004) e Sacramento (2009), é uma maneira de gerenciar essa memória, com vistas a evitar o esquecimento e também a conferir credibilidade à própria mídia, a partir do momento em que ela reconstrói um outro "real" através das suas práticas discursivas e a forma como ela enquadra o passado no presente. Dessa forma, diz Sacramento, pesquisar sobre a personalidade midiagrafada "é tanto analisar como a mídia escreve uma história quanto mostrar como a mídia se inscreve na história" (p. 136). Seria uma forma de refletir sobre algo mais profundo.
Uma das constatações é que a construção narrativa dá uma noção aparente de uma unidade identitária ao midiagrafado. "Há, portanto, uma idealização da vida do sujeito biografado como um 'desde sempre': um ser dotado de uma característica única e perene que marcou todas as suas ações ao longo da vida" (SACRAMENTO, 2009, p. 148, grifo do autor). A memória seria, então, um princípio organizador a conferir sentido à trajetória de vida do sujeito, através dos acontecimentos narrados, permitindo uma visão retrospectiva convenientemente disposta de uma trajetória e de uma biografia. Nesse sentido, a memória se associaria à noção de projeto (vista como um procedimento organizado para atingir determinado fim) para "dar significado à vida e às ações dos indivíduos, em outros termos, à própria identidade" (VELHO, 1988, p. 101, grifos do autor); uma identidade social que daria conta, de certo modo, das experiências fragmentadoras do indivíduo.
Não quero me alongar mais no comentário desta semana a fim de não complexificar demais o assunto. Já que tratamos de efemérides e memória em relação a Gonzagão, nada melhor que acionar a própria mídia para contar a história do nosso midiagrafado. Imagens, depoimentos, documentos, fotos e músicas se unem para reconstruir determinados fatos relativos considerados relevantes hoje em dia na trajetória do "Rei do Baião" sob uma ótica bem particular nas comemorações dos seus 100 anos de vida.
Centenário Luiz Gonzaga - Programa Fantástico(TV Globo, edição 27 set. 2012)
"Falta ver, se é que falta, o que serei:
Um rosto recomposto antes do fim,
Um canto de batráquio, mesmo rouco,
Uma vida que corra assim-assim"
José Saramago em Passado, Presente, Futuro, poema
publicado em 1966 no livro Os Poemas Possíveis (Portugália Editora)
Referências bibliográficas
DINES, Alberto. Modos de usar. In: Observatório da Imprensa, edição 313, 2005. Disponível em: <http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/modo-de-usar>. Acesso em: 14 dez. 2012.
SACRAMENTO, Igor. Memórias póstumas de Dias Gomes. In: Intexto, Porto Alegre: UFRGS, v. 1, n. 20, p. 133-150, janeiro/junho 2009.
SODRÉ, Muniz. Prefácio. In: PENA, Felipe. Teoria da biografia sem fim. Rio de Janeiro: Editora Mauad, 2004.
VELHO, G. Memória, identidade e projeto: uma visão antropológica. In: Revista Tempo Brasileiro, n. 95, Rio de Janeiro, out-dez, 1988.
Me vejo o tempo todo começar de novo E ser e ter tudo pela frente Abril, composição de Adriana Calcanhoto gravada por Leila Pinheiro, em 1998, no CD "Na Ponta da Língua" (EMI Music)
Na sucessão regular de eventos ou fenômenos, a sequência construída aponta para o meio, o fim e o início de um ciclo, sob diferentes perspectivas. Os olhos se habituam à cidade. Ela torna-se mais familiar e integra-se ao rastro de recordações, numa visão estrangeira e radicada. O rio que passa no intermédio é também o Rio ribeira onde é possível atracar o barco, fincando raízes. É também o limite do espaço e o remate de uma fase. Fecho de composição e, ao mesmo tempo, preâmbulo. Singela (re)transform(ação).
Neste meio, neste fim e neste início, como em qualquer outra etapa da vida, há um caminho, e não uma pedra, ao contrário do que disse Drummond. Um caminho de direções a marcar e a seguir, um caminho de encontros e de despedidas. Vida de estação. Plataforma de muitas idas e vindas. E, assim, na série de acontecimentos que se segue, a ordem se estabelece e o processo continua, ininterruptas paisagens em todas as estações. Dentro e fora dos trens e em todos os sentidos. Tô chegando, tô partindo, tô ficando.
São só dois lados
da mesma viagem
O trem que chega
é o mesmo trem da partida A hora do encontro é também despedida A plataforma desta estação é a vida deste meu lugar Encontros e Despedidas, canção de Milton Nascimento e Fernando Brandt
e gravada primeiro por Simone, em 1981, no álbum "Amar" (CBS-atual Sony Columbia), depois pelo próprio Milton, em 1985. no LP "Encontros e Despedidas (Barclay Polygram-atual Universal Music) e por Maria Rita, em 2003, em CD "Maria Rita" (Warner Music)
Quando eu estou sozinha no meu canto Penso muito nas pessoas Penso muito nos seus cantos Penso o quanto foi difícil Para cada um falar E sinto o coração se confortar E fico por um tempo - meio assim
Estar no entremeio e concretizar algo em fase de elaboração. Talvez esse seja o sentimento que melhor caiba no comentário desta semana. Tudo na cabeça ainda fluindo sem muita nitidez, apenas sensações no meio da estrada. Pequenos redemoinhos a espirar aqui e acolá no espaço de dentro. Por isso mesmo vem bem a calhar uma brincadeira neologística substantiva com a expressão matutar no título do post.
Bastante utilizado no Nordeste brasileiro, esse lindo verbo intransitivo (que não precisa de outro complemento para significar) deriva da palavra matuto, que quer dizer, em geral, alguém do mato, acanhado, desconfiado e até mesmo ignorante. Matutar, então, representa o ato de refletir, meditar, cogitar. "Parte do tempo esteve à janela, matutando", já escreveu Machado de Assis em Quincas Borba, ao tratar do personagem Rubião, ingênuo rapaz que se torna discípulo do filósofo que dá nome ao referido livro.
E penso em sentimentos meus Penso em sentimentos Quantos edifícios, quantas casas Quanta gente dentro - como será... Que sonhos terão Será tudo em vão Eu juro que não
Matutando sobre leituras que vêm mexendo comigo, desta vez, o pensador alemão Andreas Huyssen com o seu Passados presentes e sua análise a respeito da emergência da memória como uma das preocupações centrais da sociedade ocidental de hoje. Observado desde os anos 80 inicialmente na Europa e nos Estados Unidos, esse fenômeno sociocultural tirou de cena o futuro para colocar no lugar o passado como foco das atenções. Os projetos políticos e as ideologias de outrora caíram por terra, provocando uma nova lógica sensível do sujeito diante do mundo, juntamente com os avanços tecnológicos.
A obsessão contemporânea com o pretérito, que se visualiza numa difusão cada vez maior de práticas memorialísticas na cultura de modo geral, é consequência desse processo. Cultivar o passado significaria, em certa medida, uma forma de (re)afirmação do indivíduo frente a esse mundo. É claro que essa inferência é bem generalista e carece de maior aprofundamento. Por hora, comungo com a ideia do Huyssen (2001, p. 20), quando ele diz que o medo do esquecimento que acompanha a cultura da memória que vivenciamos atualmente é uma maneira de garantir a sobrevivência "em um mundo caracterizado por uma crescente instabilidade do tempo e pelo fracasso do espaço vivido".
E os morros vão ficando azuis
Sobre essa cidade
Sobre essa cidade
Eu já estou ficando pronta
Para viver a minha idadde
Para entender a liberdade
Para contar para os nossos filhos
Uma história de amor
E, até quem sabe, para fazer o amor
E é bem capaz da gente ser assim
Diante da velocidade do tempo que se instaura e das próprias inovações técnicas que tornam o presente mais fugaz e até mais passado rapidamente, paro um pouco para matutar as imagens e os sons que passam pela janela. Não como Carolina, e sim como meteorológico observador. E aí nesse refletir, meio ignorante, meio tímido, meio cismático, meio profundo, vejo-me com uma música que tive a felicidade de escutar e conhecer ao vivo dias atrás no show Leila Pinheiro Canta Mulheres e admirar de prima. Foi essa canção que inspirou e alinhavou a costura "pré-matura" desta semana que vos escrevo.
E a tarde vai caindo em mim
Sobre essa cidade
E eu fico pensando assim
A Tarde vai caindo em mim
E eu fico pensando assim
[ A Tarde, composição do casal Francis Hime e Olivia Hime ]
Cada nova ideia de autor, cada nova canção traz consigo uma nova imagem-reflexão que carece. Ínspira pura matéria flutuando no leito do pensamento, como notas que são tocadas uma a uma na base do instrumento, preparando a alma da memória para adentrar no rio.
O que mais me comove, em música,
são essas notas soltas - pobres notas únicas -
que do teclado arrancam o afinador de pianos...
Mario Quintana em Meu Trecho Predileto,
extraído do livro Sapato Florido (Editora Globo, 2005)
Referências bibliográficas
ASSIS, Machado de. Quincas Borba. 4. ed. São Paulo: Clube do Livro, 1980.
HUYSSEN, Amdreas. Passados presentes. In: Seduzidos pela memória. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2001.
QUINTANA. Mario. Sapato florido. 2. ed. São Paulo: Globo, 2005.
"Não sei se o acaso quis brincar Ou foi a vida que escolheu Por ironia fez cruzar O seu caminho com o meu" Abel Silva e Ivan Lins em Acaso "O acaso vai me proteger Enquanto eu andar distraído" Sérgio Britto em Epitáfio
Inicialmente, pensei em intitular o post desta semana de O passado no presente e no futuro, em decorrência de certas lembranças que voltaram à tona nos últimos dias. Mas aí depois decidi mudar o título para O acaso da memória. Na semana que passou, fui assistir ao novo espetáculo da Gal Costa, "Recanto", aqui no Rio de Janeiro. Em determinado momento da apresentação, Gal cantou O Amor. Música de Caetano Veloso e Ney Costa Santos, O Amor foi composta sobre um poema do russo Wladimir Maiakovski (1893-1930), considerado um dos principais nomes da vanguarda futurista e um dos maiores poetas do século XX.
Essa canção faz parte do LP "Fantasia", lançado por Gal em 1981 (gravadora Polygram-atual Universal Music). Não é das faixas mais conhecidas do grande público, mas um dos pontos altos do disco, a meu ver. Pois bem, assim que Gal cantou a música, eu me reportei imediatamente à minha infância. Era como se, por um momento, eu tivesse saído da plateia do teatro e voltado no tempo, lá pelos meus 6 ou 7 anos, para a sala da casa de meus pais. O Amor povoa a minha memória musical, assim como tantas outras canções que tocaram na radiola da sala lá de casa. Gal, evidentemente, fazia parte da nossa discoteca.
Gal Costa cantando "O Amor" (Caetano Veloso/Ney Costa Santos/Vladimir Maiakovski) - Show Recanto -
Contracapa do disco "Fantasia", de 1981
Eu me vi, então, sentado no antigo sofá, lendo com curiosidade o encarte do LP, enquanto escutava a bela canção. Tempo em que ainda era possível "degustar" o trabalho de um artista e eu ouvia com prazer e atenção tudo o que rolava em matéria de MPB. Por isso, optei pelo termo "acaso" no título deste post, com o intuito de fazer um trocadilho com a memória. De acordo com o site do Dicionário Michaelis, esse substantivo masculino tem como um dos significados possíveis acontecimento incerto ou imprevisível, casualidade. Também pode ser destino, fortuna, sorte.
Capa do CD "Recanto", lançado em 2011
Para quem lê sobre memória, sabe que o presente é fundamental na evocação do passado. Sendo assim, o acontecimento tem importância vital para a produção de sentidos. Ciente de que guardamos apenas algumas lembranças de cada época de nossa vida, a música tem uma presença muito forte na minha vida e, claro, no meu baú de recordações. Ela seria, então, o ponto de contato com o aspecto social da minha memória. As memórias não são individuais apenas. Elas se ligam à memória coletiva, como diz o sociólogo francês Maurice Halbwachs (1977-1945).
Para que a memória exista e se conserve, é preciso que esteja vinculada a algum grupo. Segundo Halbwachs (2004, p. 169, Tradução Nossa), "a memória dos homens depende dos grupos que a rodeiam e das ideias e imagens nas que os grupos têm o maior interesse". Desse modo, as nossas memórias não estão solitárias no mundo. Elas estão ligadas, de alguma forma, a outras pessoas também.
Memória e sociedade em Halbwachs
"A memória individual não é mais que uma parte e um aspecto da memória do grupo, como de toda impressão e de todo fato, inclusive naquilo que é aparentemente mais íntimo se conserva uma lembrança duradoura na medida em que se refletiu sobre ela; é dizer, se a vinculou com os pensamentos provenientes do meio social" (HALBWACHS, 2004, p. 174, TN). Só o fato de estar escrevendo aqui sobre Gal, o LP que ela gravou em 81, o show que ela está fazendo atualmente e a canção O Amor é uma forma de deixar viva a minha memória, a partir do momento em que eu compartilho meus escritos na internet.
Como um acontecimento imprevisível, essa lembrança da música foi quase que um acaso para mim. Seria uma ideia interessante de comparar minha recordação com alguma coisa que metaforicamente "caiu" na minha frente, já que o termo "acaso" vem do latim a casu, que, por sua vez, deriva de cadere (cair). Sendo assim, termino este post com um trecho do texto original do Maiakovski que inspirou Caetano Veloso e Ney Costa Santos e que bem poderia caracterizar poeticamente a função da memória nestas minhas reflexões:
Ressuscita-me,
nem que seja só porque te esperava
como um poeta
repelindo o absurdo cotidiano!
Ressuscita-me,
nem que seja só por isso!
Vladimir Maiakovski em O Amor
Referências bibliográficas
HALBWACHS, Maurice. Los marcos sociales de la memoria. Caracas: Universidad Central de Venezuela, 2004.
Já faz algum tempo que não escrevo aqui no blog. De certa forma, isso trazia-me certo desconforto pelo desejo de dar continuidade aos textos e não ter inspiração suficiente. Pensar dói, escrever idem, pela humana exigência da consciência e da linguagem. Felizmente, nem tudo estava/está perdido. Eis que me deparo hoje com um lindo vídeo postado recentemente no Youtube da cantora Leila Pinheiro e do compositor Célio Cruz cantando juntos uma composição dele no Projeto Amazônia Convida, em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) do Rio de Janeiro até novembro deste ano.
Aparentemente isso não teria qualquer correlação com a proposta deste blog. Mas foi a declaração da Leila contida no programa do show - a que abre este post - que me deu o estalo para a pertinência com o que venho fazendo. Ambos, projeto de show (da Leila) e projeto de doutorado (meu) têm a ver com trilha, com caminho que se busca fluir. A trilha é plena de possibilidades, afinal existem várias direções possíveis. Na trilha, há as paisagens ao redor, potencialmente diversas, a depender do rumo tomado. Cores, cheiros, visões, sensações, encontros, descobertas, tudo isso vai nos fazendo seguir.
Imagem do programa do show Amazônia Convida, em cartaz no CCBB do Rio de Janeiro
Mas a trilha não é apenas isso. É som também. E na trilha vai se formando discretamente uma outra trilha repleta de canções, como um tapete mágico-sonoro dotando o caminho de intenções bem particulares, amalgamando as faces da vida numa vida toda. Não tinha realmente me dado conta dessa trilha ao fundo. Embora a característica musical sempre estivesse presente lá, ao tratar da trilha, só me vinha à mente a mata imaginária com seus imensos troncos e sua primária cor verde e um trilho a compor o caminho a seguir, deixando para frente e para trás o rastro do que foi e do que virá.
Então, metaforicamente contente e satisfeito de mim, retomo a trilha com uma trilha bem peculiar. Aproveitando o ensejo do Amazônia Convida, destaco o final da apresentação de 25 de setembro de 2012 que reuniu Leila e Célio cantando juntos a tal composição dele que havia mencionado no começo deste post e à qual tive a felicidade de assistir de perto na plateia. Não sei o título da canção. Busquei na internet, mas não consegui descobrir o nome. Sinto por isso. De todo modo, o fundamental é a intenção do gesto e do som. Que eles possam acertar com os intentos puros e simples, justamente os mais profundos...
"Tive a ideia de te entregar um poema cantando rio
Na imagem do teu olhar o sol se vai por um fio"
Célio Cruz
* Dedico a retomada desta trilha à querida Leila Pinheiro, que tanto toca a minha trilha.